Antonio José Vale da Costa, o Tom Zé, é um nome que se confunde com a história dos últimos 50 anos do cinema no Amazonas. Participou da geração cineclubista dos anos 1960, responsável por reavivar o audiovisual no Estado, lutou contra a censura durante a ditadura militar, integrou o movimento para salvar o antigo Cine Guarany, criou o Cine & Vídeo Tarumã, foi professor do curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Amazonas com foco no cinema e na fotografia, e jurado dos principais festivais de cinema de Manaus neste século, entre tantas outras ações.

Toda essa longa e fundamental trajetória despertou a atenção de Rod Castro, publicitário e produtor audiovisual paulistano, mas radicado em Manaus desde os três anos de idade. Premiado no Amazonas por curtas como Et Set Era, ele está elaborando um roteiro de documentário em longa-metragem que conta a história de Tom Zé. O projeto dá continuidade ao objetivo de Rod de abordar grandes nomes da cultura de Manaus, fazendo paralelos com a própria cidade e a relação dela com a cultura. Em 2022, o coletivo do diretor, Planos em Sequência, realizou a websérie de oito capítulos Sol, Pipoca e Magia sobre Joaquim Marinho.

Foi o dono dos antigos cinemas de rua do Centro de Manaus, aliás, quem apresentou Tom Zé a Rod Castro. “O ‘mestre’ (termo carinhoso com o qual Rod se refere a Marinho) me incentivou a conhecer o Tom Zé. Meu primeiro contato com ele foi em um evento regional da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, em 2001. O professor não deu muita confiança para mim (risos)”, recordou.

Não demorou muito e eles se reencontraram, agora na Ufam, onde o jovem estudante topou um estágio para ser técnico de laboratório de rádio. O último encontro profissional dos dois antes do desenvolvimento do roteiro ocorreu durante a pós-graduação em Criação, Produção e Direção de Cinema entre 2008 e 2009, na Uninorte. Na ocasião, Rod conheceu Emerson Medina e Leonardo Mancini, com quem criou o Planos em Sequência.

“O Tom Zé é um catalisador na minha vida, mas precisava conhecer mais sobre ele. Não fui aluno dele por muito tempo nem estive no cineclube, logo essa oportunidade se impôs para mim”, disse. Rod estava tão empolgado com a ideia que submeteu a proposta ao edital do Governo do Amazonas, a partir de recursos da Lei Paulo Gustavo, sem avisar ao professor. “Minha esposa perguntou: ‘E se passar?’. Respondi: ‘Se passar é um outro problema’. Quando liguei para ele informando o que tinha feito e que a proposta foi selecionada, ele parou, respirou, me esculhambou do jeito dele (risos) e topou participar.”

ROTEIRO DE CONSTRASTES

Intitulado Um Tom de Cinema, o projeto traz um roteiro que conta a história de Tom Zé, desde o nascimento na França até a chegada a Manaus e os dias atuais. Tudo isso, claro, traçando paralelos com os cinemas antigos e a própria evolução cultural da cidade a partir da vida do professor. “Contar essa história representa a vida de milhares de pessoas imigrantes em Manaus. De alguma forma, o projeto traz a história da cidade, assim como ocorreu com o Joaquim Marinho”, disse Rod.

Para facilitar o processo, o diretor/roteirista decidiu ir além da escrita do roteiro e das pesquisas: com o apoio da produtora Tempera Filmes, Tom Zé concedeu entrevistas a Rod entre abril e julho de 2024 em gravações realizadas no Cine Teatro Guarany, na própria casa dele e no Museu da Imagem e do Som do Amazonas. Ao todo, foram 60 perguntas e seis horas de captação, divididas em três sessões de duas horas cada.

As conversas, claro, renderam momentos curiosos. “Em certo momento, o Tom Zé vira e fala: ‘Não tem motivo para fazer um filme sobre mim, p…’. Sinto que ele não tem tanta noção de quanto a atividade dele no cineclubismo e no cinema local teve uma importância imensa e influenciou tanta gente”, afirma Rod, revelando ainda que esta será a frase que abrirá o futuro documentário. Nas respostas, o professor reflete sobre o cinema amazonense ao considerar que o maior problema segue sendo o roteiro, aborda a paixão pelos quadrinhos e fala sobre a morte.

O roteiro trabalha com 40% do professor falando diretamente para a câmera e o restante em voiceover, a voz de Tom Zé narrando imagens do seu dia a dia, com idas ao Casarão de Ideias, ao Guarany, à Ufam, em caminhadas e passeios com a neta. “No roteiro, você pode tudo, pois não há aquela obrigação de ser necessariamente como será quando filmado, muito menos editado, mas a ideia é trabalhar com contrastes. Logo, quando ele fala sobre a morte, eu busco ilustrar com os passeios com a neta, algo que ele ama. Dessa forma, cria-se uma perspectiva de continuidade de vida que ele consegue enxergar através dela”, declara Rod.

Em breve, o público poderá ter um breve gostinho do documentário com a contrapartida do projeto: um bate-papo sobre cinema com Tom Zé e Rod Castro. A expectativa é que o encontro, aberto ao público, seja na Ufam e que, posteriormente, seja postado no canal do Planos em Sequência no YouTube.

‘NÃO NASCI; SOBREVIVI AO PARTO’

O roteiro do documentário foi um dos maiores desafios da carreira de Rod Castro. Redator com 23 anos de experiência no setor publicitário de Manaus, ele está acostumado com peças de pouco mais de um minuto de duração ou, no máximo, campanhas políticas que duraram até 12 minutos. Um Tom de Cinema vai muito além: o roteiro traz aproximadamente 100 páginas, o que daria, pelo menos, 80 minutos de filme. “Foi um projeto muito importante como roteirista e diretor que nunca tive coragem de dar. É um passo que precisava fazer. Com roteiro de longa, eu escrevo para eu dirigir, pensando na intenção da câmera”, disse Rod.

E o produtor não pretende parar em Joaquim Marinho e Tom Zé: o objetivo de contar a história de grandes nomes da cultura amazonense passa, agora, pelo escritor e dramaturgo Sérgio Cardoso. A proposta de desenvolvimento do roteiro foi submetida ao edital da Lei Aldir Blanc. “No futuro, ainda pretendo falar de grandes empresas amazonenses que não existem mais ou que perderam espaço ao longo do tempo, entre elas, o supermercado C.O.”, afirma Rod.

Desta vez, aliás, ele deu um novo e importante passo ao se inscrever como PCD (Pessoa com Deficiência). Rod sofreu uma paralisia obstétrica por erro médico logo após o nascimento em São Paulo. “Não nasci, sobrevivi ao parto. Tive um braço quebrado e o outro ficou paralisado. Sofri ainda três paradas cardíacas, passei 20 dias na UTI, mas, no fim, resisti”, disse, explicando ainda que o braço direito não consegue nem esticar nem levantar.

Segundo o produtor, no momento da inscrição no edital da Aldir Blanc, ele foi informado que era o primeiro a se inscrever em audiovisual como PCD. “Acredito que eu não seja o único PCD do setor, mas posso ter dado um passo para que outros se observem como tal”, declarou.

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Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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