O segundo capítulo de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’, adaptação da novela de cavalaria de George R. R. Martin, continua em busca de responder a pergunta “O que faz alguém ser um cavaleiro de verdade”, mas, dessa vez, colocando um rosto e um nome a esse suposto cavaleiro, no caso Sir Arlan, o cavaleiro que cuidou de Dunk. O que me chama atenção, nessa construção, é como o fator social é a manivela para esse olhar sobre a cavalaria. O roteiro é sutil, mas incômodo, na medida certa, para mostrar como os ideais da nobreza passam bem longe do que realmente pode ser considerado como digno de honra e respeito.
Nesse percurso, é interessante observar a dicotomia que existe entre Dunk (Peter Claffey) e Egg (Dexter Sol Ansell) em relação a condição de vassalagem. Dunk se coloca constantemente como uma figura abaixo da nobreza e da maior parte dos cavaleiros presentes no torneio. Sua perspectiva é ingênua e um tanto infantil, acreditando em qualquer coisa que a nobreza e sua corte privada falam para si; por outro lado, Egg os vê como capachos da realeza e, portanto, não estão acima do cavaleiro a quem o menino pelado serve.
O encontro com a guarda real é importante nessa construção, uma vez que reforça as perspectivas sobre Sir Duncan — ao mesmo tempo em que mostra como ele acredita no que lhe contam, Sir Donnel lhe trata com uma dignidade que apenas Lyonel Baratheon (Daniel Ings) —ainda que em tom de zombaria —, Egg e Baelor (Bertie Carvel) lhe deram. A conversa entre Duncan e os mantos brancos também evidencia, de certa forma, o passado e sonhos para o futuro do cavaleiro andante. Ter a noção do que é vir de lugar nenhum e aonde você pode chegar por meio da cavalaria, honradez e todo o ideário que permeia esse universo.
O grande destaque do episódio, no entanto, é a presença de Baelor e Maekar Targaryen (Sam Spruell). Os filhos do rei Daeron 2 surgem finalmente na série junto da sua comitiva, o que deixa o pequeno Egg em pânico. É interessante como a direção e o roteiro diferenciam o comportamento deles frente a liderança do Reino e a criação de filhos. Baelor, como irmão mais velho, é a Mão do Rei e sua posição diante do pedido de Duncan, outrora negado por vários nobres, representa a forma como ele enxerga aqueles que servem ao Reino.
A postura magnânima e compassiva imposta por Bertie Carvel destaca como o Príncipe de Pedra do Dragão é diferente de todos aqueles que já vimos ter esse posto; sua liderança não é por medo, mas por despertar admiração. Eu já sabia que Baelor é o melhor personagem do “Mundo de Gelo e Fogo”, mas vendo-o atuar como um verdadeiro monarca é um presente que “O Cavaleiro dos Sete Reinos” nos dá.
Por outro lado, Maekar lembra muito a apatia e arrogância de outros Targaryen já conhecidos. Ele pouco se importa com a situação de seus súditos, priorizando saber onde estão os filhos que sumiram. Quando posto ao lado do irmão, o egoísmo e o comportamento ranzinza o eclipsam, tornando-o não apenas mais envelhecido que o irmão mais velho — lembro a quem não está habituado a leitura de George R R Martin, que Maekar é o quarto filho de Daeron 2 —, mas também um homem tolo e amargurado. Nessa conjuntura, no entanto, quero destacar a caracterização de Sam Spruell. O design de produção o tornou exatamente como o Maekar descrito no “Mundo de Gelo e Fogo”.
“Carne Salgada” se destaca ainda pela construção visual alinhada a boa direção de Owen Harris (responsável pelo episódio San Junipero de Black Mirror). A cena das justas, gravada com a mistura de cores e escuridão que permeia esse ambiente e o horror estampado no rosto e nos trejeitos de Dunk dão um demonstrativo de como o cavaleiro andante — e despreparado — se sente diante da inexperiência e iminência de sua participação nos duelos de cavalaria e de como a plebe se alimenta dos míseros pão e circo sanguinários oferecidos. Além disso, a direção das cenas em que há um coletivo também é feito de forma sapiente, uma vez que consegue dar detalhes cênicos e harmonizá-lo com cores fortes que deixam tudo uma verdadeira obra visual.
Ainda assim, a direção falha na introdução dos novos personagens, porque temos uma comitiva com vários Targaryens, mas apenas Baelor é de fato apresentado, enquanto Maekar e, especialmente, Aerion ficam por conta de informações posteriores, ainda que o nome deles seja citado junto ao do príncipe herdeiro.
“Carne Salgada” nos entrega também um pouco mais da dinâmica entre Dunk e Egg, embora o garoto caia no lugar comum de ser uma criança tão ou mais inteligente do que os adultos ao seu redor, invés de ser alguém de sua faixa etária cometendo tolices. A grande pergunta é: como seria diferente com um adulto leso ao lado?
Sinto que este episódio nos prepara para algo mais movimentado que virá a seguir, uma vez que termina de apresentar as principais peças dessa temporada e a dualidade que existe entre eles, responsável por pavimentar os eventos centrais de “O Cavaleiro dos Sete Reinos”.














