Assistir O Fim da Rua é como estar vendo um episódio do seriado Além da Imaginação. Uma viagem ao tempo às premissas inusitadas das ficções científicas de antigamente. A aventura protagonizada por Anne Hathaway e Ewan McGregor na luta contra dinossauros e criaturas pré-históricas se diverte com o absurdo ao mesmo tempo que oferece um equilíbrio de drama, comédia e suspense. O longa não prioriza apenas o entretenimento, mas se preocupa em criar relações dramáticas mais profundas sobre reconexão e união familiar.
Exalando a essência de uma produção oitentista, tanto na ambientação como no tom, o longa traz a inocência daquela época ao estabelecer a dinâmica daquele bairro pacato e da vizinhança para criar uma sensação de paz e normalidade aparente. A direção de David Robert Mitchell, conhecido por Corrente do Mal (2014) e O Mistério de Silver Lake (2018), resgata um clima aventuresco sem emular diretamente o estilo de Spielberg. O cineasta adora explorar situações que ocorrem em segundo plano para causar angústia e a sensação que o perigo está à espreita.
Existe uma autoconsciência que paira nas entrelinhas bem como na explicação simplória de como o conflito surge. Essa estrutura lembra muito Jumanji (1995), em que o desafio é algo fantástico que catapulta seus personagens fora da zona de conforto. A sagacidade de Mitchell também aparece na forma de como ele mergulha nas maluquices da trama com criatividade, explorando acontecimentos inesperados e um humor debochado. Ele também utiliza o recurso Split Diopter para acentuar o drama e manter a importância das reações em segundo plano, criando estranheza e desconforto.
Entretanto, o maior mérito do filme reside na construção gradativa do suspense. A criação de expectativa até a aparição dos Dinossauros trabalha o medo genuíno do desconhecido. Até a revelação, O Fim da Rua provoca com sombras, gritos e movimentações ao fundo para estimular a imaginação e a tensão do público, causando uma ansiedade inquietante. Os animais pré-históricos tem sua própria identidade estética, mesmo que alguns designs bebam da franquia Jurassic World há um cuidado em tornar essas criaturas únicas. A ótima variedade de animais em cena compõe uma diversidade de fauna e a atmosfera de um lugar habitado.
Diferente de Jurassic World: Domínio (2022), o filme desenvolve com muito mais competência os impactos dos dinossauros em áreas urbanas e no choque da coexistência entre eles e os humanos. Eles agem como animais e isso é um acerto da narrativa, pois dá uma naturalidade de comportamento como eles comendo, andando e até seguindo seus instintos básicos. Para complementar, a trilha assinada por Michael Giacchino é a sinfonia do caos e pânico, corroborando com a brutalidade de O Fim da Rua, que atinge o limite da classificação indicativa de 14 anos. Mesmo com um orçamento modesto, o CGI entrega um trabalho bem feito e as cenas noturnas dão para ver bem os animais.
Apesar de toda essa energia intensa, o drama familiar tem seu devido espaço na narrativa. O roteiro desenvolve bem a interação de cada membro da família, desde a crise de relacionamento dos pais como o vínculo com os filhos. A individualidade deles aparece em momentos íntimos, às vezes acompanhado por músicas como um refúgio interno. Apesar de normal, é um núcleo familiar quebrado e distante que redescobrem a importância da união e o amor através da calamidade. Anne Hathaway abraça a intensidade da sua personagem como uma mãe deslocada, tendo que conciliar seus fracassos pessoais com o papel de matriarca. Embora com essa construção inicial, o longa acaba abandonando um pouco esses arcos para focar na somente na ação, sem dar mais espaço para os personagens viverem seus dilemas.
De forma inesperada, o longa ensaia de maneira tímida uma metáfora dos tempos pandêmicos. O isolamento social, o lar como porto seguro, o medo de sair de casa, a luta pela sobrevivência, os dinossauros se espalhando pelo bairro, como uma “praga”. Todo o terror da circunstância conduz momentos de insegurança, coragem e temor, uma atmosfera bem parecida com a vivida na época da Covid 19. Nessa abordagem, o valor da união da família ganha mais peso e significado.
Lamentavelmente, a resolução final tira muito da força do filme. Numa tentativa de fazer uma conclusão mais satisfatória e inspiradora, O Fim da Rua se complica mais do que deveria, apresentando conveniências baratas de roteiro para justificar sua boa vontade. Além disso, ele se acovarda e se arrepende da coragem que teve durante a história, diminuindo as consequências dos acontecimentos. Por mais que haja uma aura cínica implícita na decisão do diretor, ainda assim parece um final deslocado e cômodo.
Necessário para quebrar um pouco da hegemonia da franquia Jurassic Park nos cinemas, O Fim da Rua é um blockbuster honesto feito com coração. Um lampejo de inventividade que remete às excentricidades gostosas daqueles filmes das décadas de 80 e 90 .Em meio ao espetáculo jurássico, há também uma mensagem pessoal sobre família e restabelecer laços afetivos, mesmo que dentro de uma ficção científica doida de dinossauros invadindo os subúrbios.















