Há dois elementos fundamentais para o sucesso da franquia “Jurassic World”: dinossauros e nostalgia. Gareth Edwards, que dirige a sequência da nova trilogia, entende essa importância, no entanto sua execução quase chega lá. Na verdade, podemos sintetizar que falta ousadia e interesse em “Jurassic World: Recomeço”.

A narrativa em si é genérica quando comparada a filmes do gênero e ao próprio universo cinematográfico do parque dos dinossauros. Acompanhamos um grupo de agentes especiais (por que não mercenários?!) cuja missão é ir a uma ilha, último lar dos dinossauros, para colher amostras que possibilitarão formular produtos farmacêuticos. Scarlett Johansson lidera o grupo que conta ainda com Mahershala Ali como seu braço direito. 

A junção do par de atores consagrados é curiosa, uma vez que, embora o grupo seja formado por mais uns quatro agentes, eles são os únicos que possuem alguma história que os atravessa, o que permite ao espectador mais atento supor que não estarão na lista de vítimas dos dinossauros. Tal pretensão evidencia, entre outras coisas, a tentativa de humanizar esses profissionais por meio de uma narrativa própria como pano de fundo. O que se mostra um caminho frágil, principalmente devido a montagem incerta de Jabez Olssen, que parece ter engolido algumas sequências que seriam importantes para a compreensão dos personagens, principalmente no que tange o apego e a estima dos mercenários pela família de Rubem (Manuel Garcia-Rulfo) e ainda o comportamento irregular de algumas figuras, as quais soam como se tivessem trocado de personalidade no decorrer da narrativa. 

Vale ressaltar que o elenco de “Jurassic World: Recomeço” é carregado de medalhões, os quais são vítimas de seus próprios personagens – que não nos fazem torcer por eles diante dos dinossauros. Jonathan Bailey, por exemplo, é uma figura carismática tanto nos bastidores quanto na interpretação de seus papéis, só lembrar do carisma do Visconde Bridgerton e da sensação que é o Príncipe Fiyero em “Wicked. No entanto, aqui ele é eclipsado pela própria composição do cientista paleontólogo que ora é corajoso quando o assunto é sua pesquisa e o amor pelos dinossauros, ora é um nerd abobalhado. O mesmo ocorre com Ali e Johansson que orbitam entre serem durões e gananciosos, e, moles e benevolentes quando o assunto é uma família com quem estão interagindo pela primeira vez. Pode ser que o roteiro tenha visto isso como uma maneira de oferecer tridimensionalidade a eles, no entanto, não se trabalha o equilíbrio entre essas facetas no decorrer da narrativa, sendo apenas impostas em momentos-chaves de modo a auxiliarem na condução da trama. 

Esse é apenas um dos pontos que fazem com que o filme quase chegue lá. Parte disso se deve principalmente ao pouco espaço dado aos dinossauros durante a projeção. “Jurassic World: Recomeço” inicia afirmando que as pessoas perderam interesse por essas criaturas, por isso os parques e ainda a procriação em laboratório deles estagnaram. É curioso porque tais colocações são meio que um contraponto aos filmes anteriores do reboot, os quais buscavam apontar a sua exploração financeira e a busca pelo convívio pacífico entre as duas raças. Nessa conjuntura, me indago que tipo de recomeço é esse sugerido pelo título. Ainda mais considerando que uma produção voltada a falar sobre dinossauros, utilize o mínimo possível de sua figura central, fico com a sensação de que a trama perdeu o interesse por esses animais, assim como as pessoas citadas no limiar da projeção.

O que deixa evidente a falta de investimento em CGI, destacado pela pouca presença de dinossauros em tela, o que perde um pouco da magia desse universo. Entendo que cenas como o acasalamento de espécies, é linda, mas a pouca visão dos dinossauros me deixou um gostinho agridoce. O mais preocupante, no entanto, é como a anemia dos efeitos especiais resulta na ausência de ousadia por parte da direção e do roteiro, que se aproveitam da morte dos figurantes, ao mesmo tempo em que não possuem coragem – para dar cabo de personagens secundário, fora aqueles vistos como vilões – e nem tampouco criatividade, para apresentar as situações impostas a eles.

Nessa mesma esteira, vale pontuar a pouca abertura para discutir-se a trama in loco e, consequentemente, apresentar visualmente os resultados do hibridismo de raça e como isso pode afetar o ser humano. Nota-se, dessa maneira, o quão esvaziado de discussões o filme está. O maior exemplo é a pauta ambientalista e da evolução das espécies, que querem ser abraçadas em determinado momento da trama; mas não passam de discurso, sem atitudes concretas.

Faltam dinossauros, sobram debates rasos, e nessa proporção quem sai tão atingido quanto os personagens cruciais dessa franquia é a magia e a nostalgia. Por um lado, a trilha sonora busca relembrar alguns temas e acordes de “Jurassic Park”; algumas cenas como a jovem Bela alimentando Dolores, também despertaram em mim lembranças aterrorizantes dos filmes de Spielberg. Entre tantas coisas que Edwards apresenta como imprescindíveis, admito que em muitos momentos sinto o plot da família um pouco solto. 

Entendo que a trama deles tenta emular a narrativa das crianças de “Jurassic Park” e dos sobrinhos da chefe do parque de diversões interpretada por Bryce Dallas Howard, no entanto a história tem um pouco de dificuldade de alinhar com a narrativa principal. A única criança do grupo é meio irritante, embora represente bem os dramas contemporâneos como a ansiedade, o silêncio pós-traumático e a recuperação por meio de um animal de estimação. Mas tipo, você não pega uma carona e se volta contra as pessoas que te ajudaram, querendo mandar no que eles fazem. Seja grato e menos petulante! Mas como pedir isso de uma adolescente que desde o início da trama é vendida como petulante?

Embora as ausências sejam marcantes, é importante frisar que “Jurassic World: recomeço” é um filme de aventura que cumpre o propósito de entreter. Você torce pela família away, se irrita com Xavier e sente a vibe estranha que os personagens de Rupert Friend sempre emulam. Para alguns, isso é suficiente para causar divertimento, o que não deixa de ser genérico.

Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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