Lost, Game of Thrones, Stranger Things… Essas são séries que viraram grandes fenômenos da cultura pop e “furaram a bolha”, tornando-se conhecidas e assistidas até por quem não tem o hábito de acompanhar seriados. Elas também têm outra coisa em comum: todas tiveram finais divisivos que são considerados decepcionantes por críticos e por boa parte do público que as acompanhou.
The Boys também foi uma série fenômeno, um dos maiores sucessos do Prime Video. Pelas suas três primeiras temporadas, foi uma atração incrível, divertida e cínica, um comentário afiado e poderoso sobre os nossos tempos, nossa sociedade dominada pelas grandes corporações, e o nosso culto a celebridades e à figura do super-herói. Mas lá pelo fim da terceira temporada, já era possível sentir um pouco de desgaste, que só se acentuou pelos anos seguintes.
Séries, as que duram muito tempo, muitas vezes decaem em qualidade. Às vezes, é porque os atores se cansam; às vezes quem se cansa são os roteiristas. Algumas séries decaem porque a narrativa se esgota, enquanto são esticadas por interesses de emissoras ou produtoras. No caso de The Boys, os atores nunca falharam, mas foram perceptíveis, sim, um cansaço dos roteiristas e uma sensação de prolongamento excessivo.
Mas acima de tudo, a sátira da série se diluiu. Por mais que os produtores tentassem, as loucuras que víamos a cada episódio passaram a não conseguir mais competir com a nossa bizarra realidade. As linhas entre o nosso mundo e o da série começaram a ficar muito tênues, e assim como aconteceu com Game of Thrones, o que começou como subversão de uma narrativa tradicional – a de super-herói – acabou abraçando tropos naturais desse tipo de história.
Com “Sangue e Ossos”, o episódio final desta quinta temporada, The Boys morre como viveu, com humor politicamente incorreto, um pouco de ação e sanguinolência, e alguns comentários sarcásticos sobre os Estados Unidos de hoje. Quem acompanhou a cobertura da temporada aqui no Cine Set sabe o quanto ela foi decepcionante, então não haveria como este final da série ser bom, no sentido verdadeiro do fato. Mas “Sangue e Ossos” até consegue uma proeza interessante: ele não é bom, mas é razoavelmente satisfatório, amarrando – de uma forma atropelada, é verdade – as pontas soltas da história de Billy Bruto e sua luta contra o Capitão Pátria. Sinceramente, temi que fosse ser pior.
O episódio começa com os Boys enterrando o Francês, e Hughie lê o testamento dele, com várias referências a orifícios anais no texto. Ou seja, uma cena típica The Boys, mas uma das últimas desse tipo, o que acaba despertando um tipo de saudade para quem curtiu o seriado por todos esses anos. Depois, os heróis traçam um plano para invadir a Casa Branca e usar o novo poder de Kimiko para retirar os poderes do Capitão Pátria, tornando assim possível acabar com ele de uma vez por todas.
Fica claro, aqui, como nesta temporada os roteiristas da série decepcionaram: os episódios precedentes perderam tempo com buscas por MacGuffins e linhas narrativas desinteressantes, e no penúltimo a Kimiko ganhou um poder tirado do bolso do Billy Bruto. Agora, a Casa Branca se torna um lugar muito fácil de se invadir. Aliás, é impressionante que depois de tanta confusão, a série até se resolva de um modo tão… fácil.
No caminho, alguns arcos de personagens se concluem de forma satisfatória. O Ryan, por exemplo, é bem tratado pelo roteiro – quem diria – e acaba sendo importante para a resolução do conflito e também para o arco do Bruto. O do Profundo, também, acaba tendo uma boa conclusão – sério, ver ele se dando mal depois de desperdiçar tantas chances de se redimir traz um sorriso ao espectador. Já outros decepcionam, como o da Mana Sábia e o da Ashley – ao menos o desta rende uma piadinha engraçada no final.
E falando em decepção… Bem, talvez essa seja uma palavra forte para se usar, mas o confronto no Salão Oval acaba com um leve sabor de anticlímax. É muito satisfatório enfim ver o Capitão Pátria morrendo, mas o personagem cometeu atos malignos por cinco temporadas e a atuação de Antony Starr fez dele um dos grandes vilões da cultura pop moderna. De minha parte, eu gostaria de ter visto ele sofrendo por mais alguns minutos antes de Bruto dar cabo dele.
De fato, depois disso temos mais um conflito, agora entre Bruto e Hughie. De certa forma, esta luta decisiva entre os dois resume o cerne da narrativa de The Boys. Hughie, o coração e centro emocional do seriado, enfrenta o cara que, para destruir monstros, tornou-se ele próprio um deles. Esse confronto rende mais um grande momento entre Karl Urban e Jack Quaid, e surpreendentemente, a conclusão agora não é cínica.
Em seus minutos finais, “Sangue e Ossos” se conclui com cenas mostrando os destinos dos personagens e com uma boa dose de coração. Pode-se até dizer que esses momentos são “bonitinhos” demais, sem a aura cínica e irônica que definiu a série desde o início. Só demonstra o quanto The Boys meio que perdeu seu fio de corte ao longo dos anos, porém mesmo assim o episódio conseguiu inserir uma referência ao Elon Musk sendo enviado para o espaço, então não se pode dizer que a série se perdeu totalmente, não é mesmo?
Embora The Boys não tenha ganhado um final marcante pela qualidade, “Sangue e Ossos” acaba sendo mais satisfatório que os finais das três séries mencionadas lá no início. Foi uma série inusitada, complicada, exagerada e bagunçada, mas conseguiu ser fiel a esse espirito do começo ao fim. E, ainda bem, se encerrou antes que começasse a passar mais vergonha. Hughie diz em certo momento aqui, “Dói ser humano”, e isso de certa forma serve como epitáfio dessa série imperfeita, mas que foi, pela sua maior parte, interessante e divertida.
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E é isso, caros leitores, obrigado por acompanhar a cobertura semanal de The Boys aqui no Cine Set. Foi um prazer compartilhar com vocês minhas avaliações sobre os episódios e a série como um todo. Espero tenham gostado e até a próxima.













