Bem antes de sua história ganhar as telonas, Daniel Nascimento já tinha uma vida digna de um longa-metragem. Quando adolescente, tornou-se o maior hacker do Brasil, especializado em cibercrimes, faturando milhões apenas sentado em frente ao computador.  Baseado livremente em uma história verídica, O Rei da Internet traz um anacronismo conceitual muito interessante ao inserir uma linguagem contemporânea ao período embrionário da internet, aliada a intensidade e rebeldia da juventude.

Numa maneira de correlacionar com a própria natureza instantânea da internet, a montagem tem uma energia agitada, carregada de cortes rápidos, muitos estímulos visuais, diversos acontecimentos e informações simultâneas. É a representação visual do consumo dinâmico e imediatista da geração atual. As telas se sobrepondo, colagens, letras e números aparecendo ressaltam a sensação frenética de ser bombardeado e estimulado pelas imagens e conteúdo. A trilha sonora também entra em sintonia com a montagem.

Ambientado em uma época de ingenuidade e descoberta, o longa faz uma viagem ao tempo quando a internet ainda era uma novidade revolucionária e um campo de possibilidades não exploradas. Dentro desse contexto, o impacto dela na vida do jovem e no poder que ela concede se tornam a ferramenta de ambição e uma válvula de fuga do protagonista. A trama constrói bem essa dualidade, em que na vida real, ele é um perdedor e vítima de bullying, mas cada vez mais que aprende sobre o mundo virtual, se torna alguém com propósito e poder.

Essa saturação sensorial flerta na ideia da internet atuar como um entorpecente para a mente. A abstinência e uma cena de alucinação com o mascote do Línux fazem uma relação direta a isso. Essa intenção reafirma uma problemática atual é muito importante, que é a dependência excessiva do ser humano com o meio online e a repercussão na saúde mental. Entretanto, o filme perde essa oportunidade de aprimorar mais esse subtexto.

Apostando na grandiloquência da trama, a direção de Fabrício Bitter se delicia com o proibido, do prazer das práticas e ações ilegais e do deslumbramento que essa vida causa. A estrutura é bem similar ao filme O Lobo de Wall Street, em que o personagem principal atinge o sucesso e usufrui de tudo que o dinheiro pode oferecer, como usar drogas, festas badaladas, poder, riqueza e sexo. O diretor bebe muito da linguagem dos clipes da MTV e usa matérias, imagens e vídeos dos anos 2000 para dar um tom nostálgico ao filme.

Nesse ritmo acelerado, a inserção da narração em off do protagonista dá uma dose de deboche e personalidade. Com um narrador não confiável, existe uma liberdade de contar as situações, comentários metalinguísticos e criar várias analogias divertidas. Em um dado momento, a invasão de um site se transforma em um concerto de piano, mostrando o talento de Daniel. Os esquemas de golpe se associam ao ato de pescar enquanto o dinheiro sujo aparece dentro de uma barrigada de peixe, expondo a forma ilícita da origem dele. Até a ereção dos poderosos tem uma brincadeira visual envolvendo aumento de números. O personagem controla a narrativa e traçando um paralelo com a atualidade, é como se ele tivesse feito um vídeo reagindo à própria história.

Fugindo do estereótipo do adolescente antissocial, João Guilherme surpreende com uma atuação mais madura e com toques de malícia. A ganância do personagem é bem explorada assim como a sua arrogância construída ao longo da sua trajetória no crime. Infelizmente a moralidade do personagem é um ponto que o filme pouco desenvolve. A relação com o pai e a namorada serve como esse símbolo de redenção ao personagem, mas os conflitos dramáticos ficam superficiais e ilustrativos.

Além disso, o filme abre espaço para uma reflexão irônica acerca da impunidade de um crime. Afinal, o crime compensa? Essa pergunta é provocada para o público. Muitos pontos são levantados como a adaptação da criminalidade aos novos tempos, a linha tênue da fama com crime, da falta de justiça e da glamourização da figura do criminoso. No fim das contas, o filme não termina com uma lição de moral bonitinha, mas escancara uma dolorosa realidade do país.

Selecionado para a pré-lista de candidatos a representantes do Oscar 2027, O Rei da Internet usa uma história real para pintar o retrato da “geração Tik Tok”. Com uma estética agressiva e instigante, o filme conta um dos casos mais curiosos do cibercrime brasileiro com pitadas de cinismo e ostentação. O título que Daniel alcançou através de uma simples tela de computador evidencia o perigo e a vulnerabilidade de um fenômeno tão complexo e acessível como a internet.