Com quase 50 anos de carreira no cinema, o britânico Ridley Scott marcou seu lugar na história do cinema, tendo colocado nas telas alguns dos mundos e visuais mais incríveis de todos os tempos. Vindo da publicidade junto com seu irmão, o já falecido Tony Scott (1944-2012), ele se consolidou como um dos artesãos mais respeitados de Hollywood: Scott hoje é um dos poucos que desenvolve seus próprios projetos e tem direito a final cut, o corte final de seus filmes. 

Ou seja, ninguém mais diz a Ridley Scott o que fazer e o cineasta de 88 anos não demonstra sinais de querer parar, seja como produtor ou diretor. Por isso, em homenagem ao lançamento do seu 30º longa-metragem, Ponto Sem Retorno, vamos elencar aqui os 15 melhores filmes da carreira dele, e também apontar o pior. Porque, afinal, depois de tanto tempo Scott já se aventurou por vários gêneros – épicos históricos, ficção científica, ação, drama, filme de guerra – e nem sempre acertou.

15. Perigo na Noite (1987)

O primeiro filme de Scott no qual ele se arriscou fora da sua zona de conforto – ou seja, não teve que lidar com grandes cenários, visual épico ou fantasia – é um policial para adultos do tipo que Hollywood praticamente não faz mais. É um longa muito “anos 80”, o que lhe dá hoje um certo charme, com Tom Berenger, de Platoon (1986), um policial casado tendo que proteger a testemunha de um crime. Não tem nada de excepcional, mas é tão bem feito naquele estilo clássico de Hollywood, que resulta numa sessão envolvente e agradável.

14. Prometheus (2012)

O aguardado retorno de Scott ao universo de Alien tem momentos bobos e alguns dos cientistas mais cretinos já vistos na ficção científica. Mas equilibra essas bobagens com um visual incrível – a especialidade do diretor – uma atuação estupenda de Michael Fassbender e, ao menos, uma grande cena, uma que envolve um parto, extremamente desconfortável. Se visto com as expectativas calibradas, é possível se divertir com nem que seja de forma não-intencional.

13. Os Vigaristas (2003)

Aqui, o diretor se arriscou num drama familiar, coisa que não é sua especialidade, mas se deu bem, ancorado pelas ótimas atuações de Nicolas Cage, Alison Lohman e, principalmente, Sam Rockwell. A história de um pai que usa a filha que não conhecia para aplicar um golpe é bem conduzida, tem um humor mordaz e prende o público. Este aqui merecia até ser mais visto.

12. Chuva Negra (1989)

Este é um filme de ação/policial que talvez tivesse ficado mais envolvente nas mãos do irmão Tony Scott. Ainda assim, o cineasta mostrou a Tóquio do final dos 1980 de forma visualmente impressionante e conseguiu extrair uma ótima atuação de Michael Douglas como o tira casca-grossa e preconceituoso que aprende a ser mais japonês do que americano e vira uma pessoa melhor por isso. Vale a reassistida.

11. Todo o Dinheiro do Mundo (2017)

Este aqui é mais lembrado pela controvérsia de bastidores, quando Scott resolveu, semanas antes da estreia, retirar completamente o ator Kevin Spacey do longa após denúncias de abuso sexual cometidas por ele e refilmar todas as suas cenas com o veterano Christopher Plummer no lugar. Só um cineasta com cacife em Hollywood conseguiria isso. Mas para além da polêmica, Todo o Dinheiro do Mundo é um suspense que não vai mudar a sua vida, mas é um bom entretenimento para o sábado à noite. Ah, e Plummer ainda conseguiu uma indicação ao Oscar pelo trabalho. Vitória de Mr. Scott!

10. Falcão Negro em Perigo (2001)

Não há como fugir: esse longa de guerra é ufanista e tem um subtexto complicado, afinal, mais de mil somalis morrem em tela, mas só a morte dos americanos é que são dignas de tristeza. Mas se for possível relevar isso, Falcão Negro em Perigo é um feito incrível de direção e de criação cinematográfica, retratando um dos maiores fiascos das Forças Armadas dos EUA numa narrativa tensa e em tempo real. Difícil esquecer da imagem assinatura do longa, a cena dos helicópteros pretos voando sobre a praia, a caminho da guerra.

9º. Gladiador (2000)

É um filme superestimado – de jeito nenhum merecia Melhor Filme no Oscar – mas é bom e tem seu valor, pelo esmero artístico com que foi feito e pela atuação de Russell Crowe, maior até do que o longa. Acima de tudo, foi o filme que ressuscitou a carreira de Scott depois de alguns fracassos, e ajudou a reacender o interesse do público pelos épicos e filmes que são melhores de se ver na tela grande do cinema.

8. O Último Duelo (2021)

O melhor épico histórico de Scott dos últimos anos, é uma narrativa confiante com ecos de Rashomon (1950) de Akira Kurosawa, com três pontos de vista diferentes sobre o mesmo fato. Adam Driver e Jodie Comer estão fantásticos e o cineasta ganha pontos por articular bem o ponto de vista feminino dentro do contexto da Idade Média. É outro que merecia ser mais visto.

7. Perdido em Marte (2015)

Crítica: Perdido em Marte, de Ridley Scott

O maior sucesso do diretor nos últimos anos, é um filme que fica um pouquinho melhor a cada revisão. Será que é porque ele age como um refresco ao nosso mundo, por mostrar pessoas valorizando a ciência? Talvez… Enfim, Scott trouxe seu senso visual para a cativante adaptação do livro de Andy Weir, e contou com a atuação mais carismática da carreira de Matt Damon para conduzí-la. Um feel good movie que faz jus ao termo.

6. O Gângster (2007)

Contando com um excepcional Denzel Washington, Scott trouxe seu toque artesanal para uma narrativa épica sobre o crime nos 1970, perfeitamente recriados aqui, na melhor tradição do diretor. O Gângster é envolvente, traz uma boa dose de cinismo adulto e acima de tudo, propõe a pergunta: não seria o chefão Frank Lucas apenas mais um homem de negócios, um empreendedor na melhor tradição dos EUA?

5. Thelma & Louise (1991)

Se este filme virou icônico, é porque mereceu. Scott quase sempre criou papeis femininos fortes e de destaque, e aqui, junto com a roteirista Callie Khoury e as estrelas Geena Davis e Susan Sarandon, estabeleceram um libelo feminista e um faroeste moderno sobre liberdade e afirmação feminina. Tem imagens incríveis, é bem conduzido e entrou para a consciência cultural do mundo.

4. Cruzada (2005)

Se Scott ganhou fama como criador de mundos, poucas vezes ele colocou na tela algo tão impressionante quanto a sua visão da Idade Média e da batalha entre cristãos e muçulmanos por Jerusalém em Cruzada. E é uma obra corajosa por respeitar e valorizar o islamismo, mesmo lançado poucos anos após o 11 de setembro. Mas que fique claro, me refiro à versão do diretor, de 3h10 (a do cinema tem 2h24): é mais rica, tem mais profundidade dramática e mais do mundo que o diretor concebeu. Se puder, veja esta versão.

3. Os Duelistas (1977)

O longa de estreia de Scott, apesar de ter sido feito com orçamento pequeno, já impressionava pelo apuro visual – alguns planos parecem pinturas do período retratado na história – e pelo domínio da narrativa. A história de dois oficiais do exército francês que passam décadas envolvidos num duelo pessoal, mesmo em meio às guerras napoleônicas, fala sobre masculinidade tóxica e a estupidez da guerra, e é deslumbrante. Scott já chegou chutando a porta com uma obra que ainda se mantém como um dos seus melhores trabalhos.

2. Alien: O Oitavo Passageiro (1979)

Não é qualquer cineasta que pode se gabar de ter colocado no mesmo filme uma das maiores heroínas do cinema, e o monstro mais assustador já visto nas telas. A história de Alien é um primor de simplicidade, mas o filme é rico em subtextos, em suspense e na concepção visual, características que o tornam ainda muito atual. Ele permanece um raro filme praticamente perfeito e que mudou para sempre o terror e a ficção científica.

1. Blade Runner: O Caçador de Androides (1982)

Blade Runner - O Caçador de Androides, de Ridley Scott

Não tem como ser outro aqui: esta ainda é a obra-prima de Ridley Scott, um conto sobre identidade e humanidade frente a uma sociedade fria e tecnológica. É outro filme que mudou os parâmetros do que era possível se ver nas telas, e segue como um dos maiores clássicos não só da ficção científica, mas do cinema como um todo. Ele abre com o plano de um olho observando o mundo criado pelo diretor e seus artesãos, e todos nós continuamos assombrados pelo que vimos.

O Pior: Êxodo: Deuses e Reis (2014)

êxodo deuses e reis christian bale ridley scott

O senso épico de Scott o traiu um pouco: embora traga alguns momentos visualmente interessantes, Êxodo é muito antiquado – parece um épico bíblico cafona dos anos 1950 – e desperdiça seu bom elenco, que parece em alguns momentos estar atuando numa novela da Record. E acima de tudo, comete o pecado de ser enfadonho: o diretor às vezes entregou filmes fracos, mas nunca um completamente chato antes…