Na língua inglesa existe uma expressão maravilhosa: “artsy-fartsy”. Trata-se de uma gíria para descrever um trabalho artístico pretensioso e afetado. Uma exposição, um livro, um disco, um filme, todos podem ser “artsy-fartsy”. Talvez um equivalente próximo que temos aqui em português do Brasil seja “metido a besta”.
Uma minissérie também pode ser metida a besta. É o caso desta nova adaptação de O Senhor das Moscas, o clássico e controverso livro do autor e poeta britânico William Golding, originalmente publicado em 1954. A obra já teve duas versões para o cinema, em 1963 e 1990, mas esta minissérie da BBC e Stan Productions é a primeira adaptação serializada para a televisão/streaming.
O livro até hoje é um best-seller, e ainda incomoda, porque fala sobre o lado mau do ser humano e da eterna luta entre civilização e caos. É uma obra que só poderia ter nascido do contexto pós-Segunda Guerra Mundial: na história, um grupo de meninos britânicos de uma mesma escola se veem isolados em uma ilha após a queda do avião no qual viajavam. Nenhum adulto sobrevive e não há chance imediata de resgate. A princípio, eles começam a se organizar usando a razão e a inteligência, mas aos poucos a selvageria vai se infiltrando no grupo e as crianças se voltam umas contra as outras.
A minissérie, cujos cabeças são o roteirista/produtor Jack Thorne – o mesmo roteirista do mega-sucesso da Netflix, Adolescência (2025) – e o diretor Marc Munden, adapta a história do livro até com boa dose de fidelidade. Assim como em Adolescência, a minissérie que está disponível na Globoplay tem quatro episódios e cada um deles é narrado pelo ponto de vista de um dos personagens: o rechonchudo e inteligente Nicholas, o “porquinho” (David McKenna); Jack (Lox Pratt), que sucumbe à selvageria; o introvertido Simon (Ike Talbut) e o pragmático e esperto Ralph (Winston Sawyers).
Os eventos do livro estão na minissérie, bem como o seu tema. E a grande força deste O Senhor das Moscas é o seu elenco: todos os meninos estão absolutamente seguros e carismáticos em seus papeis e até os mais jovens – alguns bem pequenos mesmo – se apresentam com naturalismo.
Marc Munden merece nota 10 quanto à direção dos seus atores. Porém, o diretor e o roteiro acabam soterrando a história, e seus intérpretes, com um excesso de estilização que esvazia da narrativa o seu impacto. Este O Senhor das Moscas é muito bonito de se olhar e o elenco está fantástico, mas é difícil sentir qualquer emoção, especialmente a tensão tão bem construída no livro.
Para começar, Munden e a montagem incluem nos episódios basicamente tudo e mais a pia da cozinha. Há momentos de quebra da quarta parede, com closes das crianças olhando para a câmera. Munden e seu diretor de fotografia Mark Wolf usam e abusam da lente Petzval, uma invenção antiga que foi recentemente redescoberta depois de usada em Pobres Criaturas (2023) pelo diretor Yorgos Lanthimos. É a lente responsável por deixar o objeto em primeiro plano bem nítido e o fundo ao seu redor desfocado e com uma curvatura, numa profundidade de campo rasa. Sério, em O Senhor das Moscas eles usam MUITO essa lente, por todos os episódios, a ponto de virar praticamente um cacoete.
E a trilha sonora… Tem corais, peças clássicas e composições próprias de Hans Zimmer em parceria com Kara Talve e Cristobal Tapia de Veer. A música chega a ser muito intrusiva em vários momentos: o tema principal, que toca muito e principalmente nos dois primeiros episódios, parece um John Williams maluco: começa quase lembrando o tema de Jurassic Park (1993) até virar uma composição atonal e bizarra. Há momentos em que o espectador quase deseja que os produtores tivessem lançado também uma versão sem música. Talvez fizesse sucesso entre o público do streaming.
Como resultado, em meio a toda essa apresentação presunçosa, a temática da obra se dilui. O Senhor das Moscas é exemplo de obra que acaba soterrada pelo excesso de estilo, pela própria afetação. O ultimo episódio, então, vira uma perseguição in-ter-mi-ná-vel pela floresta da ilha, na qual a tensão se mostra praticamente ausente e com alguns dos meninos se escondendo debaixo de uma vegetação avermelhada (!). Por quê? Porque o diretor quis.
E no fim das contas, não precisava: a história criada por Golding já tem um poder inegável, e todos esses enfeites parecem apenas distrações com a intenção de alardear a própria profundidade. Em Adolescência, o aspecto de plano-sequência, quase sempre, adicionava à experiência; aqui as invencionices distraem e atrapalham.
O Senhor das Moscas, o livro, é uma das obras de arte mais influentes do século XX: Inspirou as séries Lost e Yellowjackets, o filme japonês Battle Royale (2000), foi parodiado nos Simpsons, entre outros exemplos… E sinceramente, a versão estrelada por Bart e Lisa capta melhor a alma do livro do que esta nova minissérie, com a vantagem adicional de não ser metida a besta.















