Algumas narrativas envelheceram muito mal em Hollywood. Obsessão talvez seja o auge definitivo desse tipo de história sobre o homem ressentido que não consegue lidar com rejeição e transforma a própria frustração em obsessão. Durante anos, filmes e séries como A Primeira Noite de Um Homem, 500 Dias Com Ela ou a série How I Met Your Mother romantizaram esse personagem, tratando como herói o cara incapaz de aceitar um “não”, quase sempre culpando a mulher pelo próprio fracasso emocional. Em Obsessão, felizmente, isso muda. O filme entende que esse tipo de comportamento não tem nada de romântico ou “fofo”: seu protagonista é tratado como aquilo que realmente é, um homem assustador, manipulador e destrutivo, alguém que arruina a vida de todos ao redor enquanto tenta esconder tudo atrás da imagem de sujeito sensível que só queria ser amado.
Sinceramente, torci um pouco o nariz para Obsessão no início, porque ele me lembrava vários filmes recentes que, apesar de bons, passam a sensação de serem obras inacabadas ou excessivamente dependentes do choque para manter o espectador preso à narrativa. Filmes como Fale Comigo, Faça Ela Voltar e Midsommar seguem muito essa linha do “terror de trauma”: histórias focadas em personagens psicologicamente destruídos, discutindo dor, luto e culpa, mas que, muitas vezes, parecem mais interessadas em provar que conseguem criar cenas perturbadoras do que realmente desenvolver algo além disso. Não considero nenhum deles ruins, longe disso, mas frequentemente sinto que o impacto visual acaba falando mais alto do que a própria narrativa.
Em Obsessão, o filme até parte dessa mesma premissa, trazendo discussões psicológicas e cenas desconfortáveis, mas existe uma diferença importante: ele sabe exatamente o que quer contar. Mesmo quando parece repetitivo — principalmente depois que sua premissa se estabelece — o longa está, na verdade, mergulhando o espectador naquele universo sufocante criado pela mente doentia de seu protagonista. Aos poucos, entendemos que não estamos apenas vendo um thriller psicológico, mas acompanhando a lógica distorcida de um psicopata que sequestrou não apenas o corpo de uma mulher, mas também sua própria consciência, mantendo-a presa dentro da própria mente.
E a violência? Bom, considero muitas das cenas de Obsessão genuinamente perturbadoras. A cena do carro, por exemplo, me provocou uma mistura muito forte de impacto e tristeza, justamente porque o filme entende que violência não serve apenas para chocar, mas para mostrar o nível de destruição emocional causado por aquele relacionamento doentio. Ainda assim, acho que a cena mais assustadora do longa nem envolve sangue ou agressão explícita.
O momento mais perturbador de Obsessão acontece quando Bear, personagem de Michael Johnston, começa a ter um raro peso na consciência e passa a ouvir a voz de Nikki, vivida por Inde Navarrette. Mas não é exatamente a Nikki “hipnotizada” que ele criou dentro da própria fantasia obsessiva. É a Nikki real, a mulher destruída psicologicamente, aprisionada em uma espécie de inferno enquanto ele continua projetando nela a imagem da namorada perfeita. E o mais doentio da cena é isso: mesmo diante daquele sofrimento evidente, Bear ainda acredita existir alguma chance de Nikki corresponder aos sentimentos dele. Para Bear, Nikki existe apenas como uma extensão da própria carência emocional. E, por isso, que a frase “o que tem de tão errado em ficar comigo?” seja muito mais perturbadora do que qualquer cena gráfica do filme.
Obviamente, nada disso funcionaria sem o grande destaque do terror: Inde Navarrette. Hollywood já nos entregou inúmeros personagens quebrados, vítimas traumatizadas ou monstros memoráveis ao longo dos anos, mas o trabalho da atriz aqui é especial justamente porque Nikki transita constantemente entre todos esses estados. Em teoria, ela ocupa o papel da vítima, mas o filme entende que o horror daquela relação nasce do fato de que sua identidade foi completamente destruída pela obsessão de Bear. Hipnotizada e emocionalmente aprisionada, Nikki acaba se transformando em um reflexo da própria carência dele.
Todas as cenas em que Nikki se levanta de madrugada e permanece parada ao lado da cama carregam uma sensação genuína de pesadelo. Não apenas pela atuação física de Inde Navarrette, mas também pelo excelente trabalho visual de Obsessão. O uso das sombras, desfocando parcialmente seu rosto e escondendo suas expressões, cria a impressão de que Nikki deixou de ser uma pessoa e passou a existir como uma entidade monstruosa. A própria imagem do pôster do filme já trabalha muito bem essa ideia, e o diretor Curry Barker demonstra inteligência ao perceber o potencial visual e emocional que tinha nas mãos. Em vez de exagerar o horror físico o tempo inteiro, ele permite que os monólogos, os silêncios e principalmente a presença perturbadora de Inde Navarrette carreguem boa parte do terror do longa.
Obsessão funciona justamente porque entende que o verdadeiro terror da história não está só no sangue ou nas cenas violentas, mas principalmente na cabeça do Bear e na forma como ele transforma carência em obsessão. Curry Barker pega esse tipo de personagem que Hollywood durante anos tentou vender como “romântico” e finalmente mostra ele da forma que deveria ser visto: um cara assustador, manipulador e completamente incapaz de aceitar rejeição. O mais perturbador seja justamente isso, porque em nenhum momento Bear se enxerga como um monstro. Na cabeça dele, ele só está tentando amar alguém.
Mesmo repetindo algumas ideias principalmente no segundo ato, Obsessão consegue manter aquela atmosfera desconfortável até o fim justamente porque entende muito bem o mundo psicológico que quer construir. O humor ajuda bastante nisso, porque em vários momentos a sala ria de nervoso diante do absurdo das situações, enquanto o filme aos poucos vai ficando cada vez mais sufocante e claustrofóbico. Quando o filme termina, fica aquela sensação estranha de perceber que o verdadeiro horror daquela história não vem de algo sobrenatural, mas de um comportamento completamente real, atual e que durante muitos anos foi romantizado pelo próprio cinema de Hollywood como se fosse algo normal.
















Meu Deus do Céu, essa é uma das melhores resenhas que eu já li em toda a minha vida! Falou TUDO o que achei do filme e que nem todos conseguiram perceber.
Resenha incrível.
Filme maravilhoso.