A atriz norte-americana Robin Curtis trilhou um caminho tradicional para chegar a Hollywood nos anos 1980: picada pelo bichinho da atuação desde cedo ao se apresentar no teatro da escola, ela decidiu seguir a carreira. Peças teatrais no circuito off-Broadway a fizeram ser descoberta pelos olheiros, e ela, jovem e bonita, logo chegou a estrelar campanhas publicitárias.
Os trabalhos publicitários a levaram a Hollywood e à sua estreia no cinema no filme Histórias de Fantasmas (1981), quando tinha 25 anos. Depois vieram as participações na TV, aparecendo em episódios de A Supermáquina, O Justiceiro e MacGyver: Profissão Perigo. Mas o papel que a tornou famosa entre os fãs de ficção cientifica e fantasia foi o da oficial vulcana tenente Saavik no filme Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock (1984).
Robin Curtis não foi a primeira Saavik: a atriz Kirstie Alley (1951-2022) já tinha feito o papel no filme anterior, Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan (1982), mas devido a desavenças salariais, ficou de fora da sequência. Isso abriu a porta para Curtis, escolhida pelo diretor do filme, Leonard Nimoy (1931-2015) – ninguém menos que o próprio Sr. Spock – para viver a personagem sem emoções e dominada pela lógica.
Curtis ainda retornou para uma participação pequena, mas memorável, no filme seguinte da franquia, Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (1986), maior sucesso dentre os seis filmes da saga com o elenco original de Star Trek. E a atriz ainda apareceu em dois episódios da temporada final da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração em 1994, desta vez vivendo uma vilã.
Depois de 20 anos de carreira, Robin Curtis se aposentou das telas, mas ainda se apresenta nos palcos. E em 2024 voltou a interpretar Saavik no curta “Unification”, projeto que combinou atores reais e tecnologia digital para criar uma despedida entre os eternos heróis de Star Trek, Kirk e Spock, com direito a recriação dos atores William Shatner e Leonard Nimoy. Hoje Curtis trabalha como corretora imobiliária na Califórnia. Mas ela ainda fala sobre seus dias em Hollywood, e por isso veio ao Brasil como convidada da STXP, a Star Trek Experience, convenção dos fãs da saga espacial realizada pelo site Trek Brasilis, o maior da internet brasileira dedicado à franquia.
Ivanildo Pereira, crítico e trekker de carteirinha, conversou com Robin Curtis antes da convenção, que aconteceu em 2 de maio em São Paulo. Divertida e carismática, ela não é nem um pouco parecida com a sua personagem séria e sem emoções.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Olá. É um enorme prazer falar com você, srta. Curtis.
Robin Curtis – Olá.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Você talvez não saiba disso, mas foi uma figura importante da minha infância. O primeiro Star Trek que assisti foi “Jornada nas Estrelas III”, que acabou sendo minha porta de entrada para a franquia.
Robin Curtis – Fico muito emocionada.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Eu tinha uns sete ou oito anos quando vi o filme. Fiquei fascinado por aquele universo, pela Enterprise, pelos personagens e pela história de amizade e sacrifício. Foi uma experiência marcante, que influenciou minha formação. Hoje sou jornalista, crítico de cinema e fã de ficção científica. De certa forma, você e Star Trek tiveram participação nisso.
Robin Curtis – Que bonito ouvir isso. Então você foi um dos poucos que me viu interpretar Saavik primeiro…
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Sim.
Robin Curtis – A maioria das pessoas conheceu a versão da Kirstie Alley antes. Então isso é especial.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Já que tocou no assunto, vamos falar sobre isso. Você herdou uma personagem que já havia sido interpretada por outra atriz. Sentiu alguma pressão para seguir o que havia sido feito antes ou teve liberdade para construir sua própria versão?
Robin Curtis – Excelente pergunta. Talvez eu tenha sentido essa pressão inicialmente. Mas segui as orientações do Leonard Nimoy, que dirigia o filme, e também absorvi algumas observações do produtor Harve Bennett. Seria natural imaginar que eu precisaria reproduzir o que já havia sido feito, mas ambos me incentivaram a encarar Saavik como se estivesse sendo interpretada pela primeira vez.
A única pessoa que comentou diretamente sobre a versão anterior foi Merritt Butrick, que interpretava David. Ele mencionou que existia uma energia mais próxima de flerte entre os personagens. Mas Leonard não tinha interesse em seguir por esse caminho. Foi bom chegar ao projeto de mente aberta, pronta para seguir a visão dele. Além disso, eu ainda nem tinha assistido ao filme anterior, então não carregava aquilo como referência ou preocupação. Entrei no projeto com frescor e nunca olhei para trás.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Alguns atores que interpretaram vulcanos ao longo dos anos já disseram que não é fácil atuar sem emoções. Você sentiu essa dificuldade?
Robin Curtis – [Risos] Essa foi a verdadeira pressão. Não assumir uma personagem já existente, mas interpretar uma vulcana. Porque eu não sou nada vulcana. Sou extremamente emotiva. Cresci em uma família muito expressiva. Ríamos, brigávamos, demonstrávamos afeto o tempo todo.
Às vezes acho até engraçado que Leonard tenha me escolhido para uma personagem tão controlada. Nos meus boletins escolares havia um item sobre autocontrole, e a resposta era sempre “não” [risos]. Então precisei fazer um grande exercício mental para chegar à personagem.
Lembro de dizer ao Leonard: “Você parece saber exatamente o que estou fazendo, mas eu estou completamente perdida”. E ele respondeu: “Robin, vou te conduzir em cada passo do caminho”. E cumpriu essa promessa.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Você não poderia ter tido um professor melhor.
Robin Curtis – Sem dúvida. Tenho enorme admiração por atores como Ethan Peck e Zachary Quinto, que assumiram depois esse comportamento vulcano através de Spock. Eles fazem um trabalho extraordinário.
Não gosto muito de avaliar minha própria atuação, mas posso dizer que segui exatamente a direção do Leonard. Ele me guiou muito de perto e eu confiei completamente nele.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Por que você acha que Star Trek continua relevante mais de 40 anos depois? O que explica essa permanência?
Robin Curtis – É um fenômeno. Existe algo quase mágico nisso. Mas você mesmo deu a resposta há pouco: Star Trek inspirou você.
Esse é o grande legado de Gene Roddenberry. Ele imaginou um futuro diverso, uma civilização que busca construir pontes com o diferente. Essa mensagem era relevante em 1966 e continua relevante em 2026. Talvez mais do que nunca.
A ideia de acolher o outro, celebrar as diferenças e aprender com elas está no coração da franquia. Acho que é isso que mantém Star Trek vivo. E sou muito grata por ser uma pequena parte dessa história. Ainda me impressiona estar conversando sobre um trabalho que fiz há mais de 40 anos.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Para encerrar, compartilhe uma lembrança especial das filmagens.
Robin Curtis – Tenho muitas boas lembranças. Walter Koenig me aconselhou a manter um diário durante as gravações. Claro que eu não fiz isso. Estava nervosa demais, preocupada em fazer um bom trabalho e não ser demitida.
Mas algo que nunca esqueci foi a generosidade do elenco. Todos eram veteranos e eu era a novata. Cada um, à sua maneira, me acolheu. Eu não fazia ideia do universo no qual estava entrando, e eles me ajudaram a entender a importância daquilo tudo.
Hoje me emociono ao lembrar deles, principalmente porque muitos já não estão mais aqui. Leonard Nimoy, Harve Bennett, James Doohan, Nichelle Nichols, DeForest Kelley… Eram pessoas extraordinárias.
Continuo admirando muito George Takei, Walter Koenig e William Shatner. Aliás, o Bill continua impressionante.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Ele tem 95 anos e foi ao espaço.
Robin Curtis – Isso explode a minha cabeça. Eu não o via havia mais de 40 anos e reencontrei-o no ano passado. Foi extremamente gentil. Não sabia o que esperar, porque sequer trabalhamos tanto juntos nas filmagens de 1984. Mas ele continua charmoso e muito simpático. Foi maravilhoso reencontrá-lo.
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Muito obrigado. Foi um prazer.
Robin Curtis – O prazer foi meu. Vida longa!
Cine Set (Ivanildo Pereira) – Vida longa e próspera!













