Ressentimento é uma palavra que resume bem o que é Os Christophers, de Steven Soderbergh. O filme aborda diversos temas, mas gira em torno de um pintor renomado que chega ao fim da vida sem inspiração para concluir a milionária obra que dá título à produção. Naturalmente, isso acaba trazendo à tona conflitos com pessoas ressentidas por atitudes e decisões que ele tomou no passado.
É nesse momento que entra a personagem de Michaela Coel – fria, calculista e movida por um profundo ressentimento em relação a Julian, personagem de Ian McKellen. Some a isso dois filhos trambiqueiros que a contratam para falsificar a pintura do pai, interessados apenas na fortuna que poderá surgir após sua morte, e temos uma comédia ácida que nos faz refletir sobre a forma como nos relacionamos com a arte e sobre os espinhos que deixamos pelo caminho ao longo da vida.
Já tivemos muitas obras no cinema que exploram os arrependimentos e o ressentimento que permeiam a vida de seus protagonistas. Vestígios do Dia, por exemplo, apresenta o personagem de Anthony Hopkins como alguém incapaz de se conectar plenamente com o mundo ao seu redor. Aqui, temos outra lenda do cinema, Ian McKellen, que estabelece esse embate com a personagem de Michaela Coel.
O mais interessante é que Os Christophers também constrói um encontro de gerações. A partir dessa relação, surgem diálogos sobre dois mundos que entram em choque, especialmente quando sobre a internet e a forma como cada geração enxerga a comunicação. De um lado, uma geração mais fechada ao diálogo e à mudança; do outro, uma visão mais contemporânea e conectada. São essas possibilidades narrativas que tornam tudo mais interessante antes mesmo de o filme revelar os rumos de sua história.
Não é difícil entender por que Ian McKellen foi o escolhido para interpretar Julian: o personagem passa boa parte do filme escondido atrás de uma personalidade difícil, tratando as pessoas com certa frieza e carregando um ressentimento que parece ter se acumulado ao longo dos anos. No entanto, conforme a narrativa avança, fica evidente que toda essa dureza é consequência de alguém profundamente solitário, cercado por filhos que enxergam mais valor em sua fortuna do que nele próprio. Ao mesmo tempo em que se mostra amargo e distante, ele também possui um lado excêntrico e sonhador que surge em momentos inesperados. McKellen encontra um equilíbrio muito interessante entre essas duas facetas, transformando o personagem em alguém que vai muito além da imagem de um velho artista rabugento.
Outro aspecto que chama atenção é o design de produção: existe uma estética fria que atravessa todo o filme, como se os personagens estivessem presos em um mundo permanentemente nublado, incapazes de enxergar com clareza aquilo que sentem. Essa atmosfera melancólica é reforçada pela fotografia, que em alguns momentos lembra o visual de Doente de Mim Mesma, de Kristoffer Borgli, com enquadramentos que transformam situações desconfortáveis em algo estranhamente cômico. Curiosamente, boa parte desse humor surge através de Julian. Mesmo quando Os Christophers mergulha em temas pesados e sombrios, Ian McKellen encontra maneiras de arrancar risadas sem quebrar a melancolia da narrativa.
Existe uma discussão da qual volta e meia me vejo participando: será que um artista precisa carregar algum tipo de sofrimento para se tornar um grande artista? Basta observar cinebiografias recentes, como Michael ou Um Completo Desconhecido, para perceber como essas figuras costumam ser retratadas através de polêmicas, infâncias difíceis, traumas e muita melancolia.
Em Os Christophers, Ian McKellen também traz essa faceta para Julian. A obra que dá título ao filme permanece inacabada justamente porque ele carrega um ressentimento ligado à pessoa que o inspirou anos atrás. Mas e Lory? Ela também vive aprisionada a um trauma do passado, resultado da humilhação que sofreu na adolescência ao apresentar uma de suas obras para Julian. Por mais diferentes que sejam, ambos compartilham algo em comum – são artistas brilhantes, mas incapazes de se desvencilhar completamente das feridas que carregam. Tudo isso me lembrou Valor Sentimental, de Joachim Trier. Naquele filme, o personagem de Stellan Skarsgård possui tanta dificuldade para expressar seus sentimentos que parece conseguir se comunicar apenas através da arte.
Enquanto assistia ao filme, me peguei fazendo uma pergunta – será que essas histórias também falam um pouco sobre mim? Por que estou emocionado vendo duas pessoas conversarem dentro de uma casa? Será que é porque sou tão fã de Persona, de Ingmar Bergman? Quem está de fora talvez não entenda. Mas a arte tem essa capacidade de criar pontes entre pessoas que nunca se encontraram e transformar sentimentos difíceis de explicar em algo que finalmente pode ser comunicado.
É nesse momento que os ressentimentos de Julian e Lory deixam de ser apenas dores guardadas dentro deles e passam a ganhar forma através da arte. Porque não estamos apenas vendo dois artistas lidarem com seus traumas, mas reconhecendo algo de nós mesmos naquele diálogo. É quando os personagens choram, os artistas choram e, muitas vezes, quem está assistindo também.















