Consagrado como um dos grandes atores europeus de sua geração, Stellan Skarsgård construiu uma carreira que atravessa o cinema de autor, Hollywood e as grandes franquias contemporâneas. Com mais de cinco décadas de trabalho, ele coleciona personagens complexos e colaborações com alguns dos principais cineastas do mundo. Em Valor Sentimental, ele entrega uma de suas atuações mais delicadas e contidas.
O filme marca a primeira parceria entre Skarsgård e o diretor norueguês Joachim Trier, em um drama íntimo sobre família, memória e incomunicabilidade. A performance lhe rendeu uma indicação ao Oscar, consolidando o longa como um dos títulos centrais da temporada. Aqui, o ator interpreta Gustav Borg, um pai incapaz de se aproximar dos próprios filhos.
Nesta entrevista ao Cine Set, Skarsgård fala sobre a construção do personagem, a relação com Trier e os silêncios que estruturam o filme. Ele reflete sobre paternidade, tempo e os limites da comunicação afetiva. O leitor pode esperar um diálogo franco sobre processo criativo, autobiografia e o que torna Valor Sentimental uma obra tão singular.
Cine Set (Caio Pimenta) – Em Valor Sentimental, há um impasse: Nora não quer ler o roteiro do pai, e o pai não quer assistir às peças dela. Na sua opinião, qual era o maior medo de cada um deles caso um cedesse?
Stellan Skarsgård – O problema central é que a relação deles simplesmente não está funcionando. Eles não conseguem se compreender e, por isso, também não conseguem ser generosos um com o outro. Nenhum dos dois realmente cede, nenhum dos dois faz um esforço verdadeiro para entender o outro. Gustav passa grande parte do filme tentando alcançar Nora, mas isso acontece em vão.
Há apenas um pequeno momento em que percebemos como eles são muito parecidos: quando estão do lado de fora, fumando. Ali existe um contato real entre eles. Não há diálogo, não há palavras criando essa ligação. É apenas o ato de fumar, os olhares, o sorriso. E, justamente por não haver palavras, esse talvez seja o momento mais honesto de comunicação entre os dois.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Esta foi sua primeira colaboração com o diretor Joachim Trier. Como foi o processo de preparação para interpretar Gustav Borg e construir essa parceria artística?
Stellan Skarsgård – Minha preparação começa sempre do mesmo modo. Antes de tudo, eu tento entender quem é o diretor: qual é o universo dele, como ele pensa, o que exatamente espera de mim para que o filme funcione. A partir disso, eu passo a ter uma ideia mais clara de qual é a minha função dentro daquele projeto.
Quando eu entendo isso, posso ser livre como personagem. Porque o personagem pode ir para muitos lados diferentes — pode ser maior, menor, mais contido, mais expansivo — e eu não fico limitado nesse sentido.
Trabalhei muito observando as cenas, tentando entender o que estava presente nelas e, principalmente, o que não estava. Porque aquilo que não está nas cenas é justamente o que eu preciso produzir como ator. É ali que o trabalho realmente acontece.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – A casa no filme assume quase um papel de personagem. Como você enxerga a sua relação com esse espaço e com a ideia da casa como ponto de vista narrativo?
Stellan Skarsgård – O meu primeiro contato com a casa aconteceu quando eu li o roteiro. Logo na página dois, acho, entra o gato e diz algo como: “Ah, delicioso. Que coisa linda de se ter”. Aquilo já me chamou muita atenção. É uma espécie de brincadeira cinematográfica — não é exatamente uma piada, mas uma ideia muito inteligente.
Depois, você percebe que a casa oferece uma outra perspectiva sobre os problemas dessa família. Porque a vida das pessoas é muito curta, e a vida da casa é muito longa. A casa vê pessoas chegarem e partirem, nascerem e morrerem, terem problemas, resolverem ou não resolverem esses problemas. Ela não é neutra, exatamente. É como uma perspectiva mais sábia, quase a perspectiva de um deus. E isso é muito divertido, porque permite que Valor Sentimental, de vez em quando, se afaste da história dos personagens para oferecer um olhar mais amplo sobre ela.
Essa possibilidade de alternar entre o ponto de vista humano e o ponto de vista da casa dá uma dimensão muito especial à narrativa.
Cine Set (Caio Pimenta) – O senhor tem uma carreira que abrange todos os tipos de filmes — eu pessoalmente já vi mais de 50 ou 60 deles. Quando um roteiro como Sentimental Value chega à sua mesa, você consegue sentir imediatamente que será algo especial, ou ainda é uma surpresa ver aonde a jornada leva?
Stellan Skarsgård – É sempre uma surpresa ver para onde esse tipo de encontro pode levar. Antes de tudo, eu queria trabalhar com o Joachim. Sabia que ele seria bom para mim, e talvez eu também fosse bom para ele. Então eu estava realmente ansioso por esse encontro.
Quando li o roteiro, achei brilhante — realmente brilhante —, mas também muito longo. Fiquei me perguntando como ele iria lidar com aquilo tudo. Ao mesmo tempo, eu sabia que, durante as filmagens, ele estava sempre extraindo ouro. Constantemente em cuidado extremo com os detalhes. Não é alguém que te diz exatamente como fazer uma cena, mas alguém que observa. Ele olha para os rostos, para o que está acontecendo ali, para as mínimas mudanças de expressão, registra isso e constrói uma história a partir disso.
Na verdade, é muito mais um filme sobre o que acontece nos rostos do que sobre o que acontece nas ações em si.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Há algo de autobiográfico na relação entre pai e filho que você interpreta no filme? Em algum momento você se reconheceu nesse personagem?
Stellan Skarsgård – Inicialmente achei que não havia nada de autobiográfico ali. Mas, claro, isso nunca é totalmente verdade. Você não pode negar a sua própria experiência e a sua própria vida. Você é a argila com a qual está trabalhando. Você é o material, independentemente de quem esteja interpretando.
Mas eu realmente não percebi isso no começo. Foi o meu segundo filho, o Gustav, que viu o filme e me disse: “É fantástico, mas você não se reconhece aí?”. Eu respondi: “O quê? Como assim me reconhecer? Isso não sou eu”. E ele insistiu.
Foi só então que eu entendi que ele tinha visto coisas em mim que eu mesmo não tinha visto. E que eu talvez não tivesse percebido coisas que deveria ter percebido como pai.
A relação entre pai e filho é sempre um terreno perigoso. E nunca é igual. Eu tenho oito filhos e oito relações diferentes com cada um deles. Eu diria que tenho uma relação muito mais amigável, muito menos hierárquica do que a que Gustav tem no filme, o que me torna, de certa forma, um homem mais moderno.
Mas cada filho tem necessidades diferentes. Há filhos que acham que eu estive pouco em casa, e outros que acham que eu estive em casa demais. Então, não há como vencer essa equação. Mas é justamente isso que torna esse tema tão interessante.













