A chamada edição de colecionador do Big Brother Brasil chegou ao final na mesma semana da estreia da cinebiografia do Rei do Pop, Michael Jackson. Enquanto assistia o desenrolar da história, em uma sala lotada na pré-estreia, fiquei pensando no quanto a direção de Antoine Fuqua (O Protetor) e o roteiro de John Logan (Gladiador) nos oferecem algo parecido com o que temos nos programas ao vivo do BBB – VTs para vender seus personagens.
No BBB, o VT cumpre uma função evidente: contar a narrativa daquele participante de acordo com a perspectiva do diretor do programa. É assim que vilões são criados, as plantas tem algum momento de brilho e o sofá compra uma ideia que nem sempre condiz com aquilo que acontece no pay-per-view. O que tudo isso aponta? A ausência em mostrar quem realmente é aquela figura com sua tridimensionalidade, uma vez que o VT só serve para contar algo que o programa quer. E como a cinebiografia de Michael se encaixa nisso?
Existe uma escolha deliberada e incômoda em Michael de não mostrar quem realmente ele era e focar em contar a história a partir de momentos de destaque de sua trajetória. O que, honestamente, para mim, tira toda a marca emblemática que o envolve. Que ele era um grande artista, todos nós sabemos, mas quem era fora dos palcos? Como era seu relacionamento com as pessoas próximas que não fossem da família? De onde vinham as inspirações para as músicas e passos de dança? Quem era Michael Jackson sem ser a marca mundialmente famosa? O trabalho de Fuqua e Logan não nos responde essas perguntas.
Em determinado momento, Michael (Jaafar Jackson) diz à mãe (Nia Long) que ele não se vê como uma criança e não sente que seja tratado como uma pessoa de verdade. O curioso em tudo isso é que o próprio filme parece lhe oferecer esse tipo de tratamento quando chegamos na vida adulta. Michael é tratado como alguém extremamente frágil e sua própria percepção sobre si e como se comporta diante da parte burocrática da carreira faz com que isso se endosse.
O roteiro cria uma atmosfera na qual o protagonista é infantilizado. E não estou dizendo que isso não condiz com quem era Michael Jackson, mas é curioso que a primeira cena com Jaafar seja ele conversando com Quincy Jones (Kendrick Sampson) sobre a carreira solo e saindo para gravar de madrugada, meio que uma insubmissão às vontades paternas; enquanto em momentos posteriores essas interações não acontecem mais e Michael se restringe a passar o sábado a noite brincando com Bubbles, seu chimpanzé. Nem parece o cara que anos depois seria tão amigo de Mariah Carey a ponto de peitar Tommy Mottola pessoalmente. Tudo bem que estamos acompanhando um jovem Michael dos anos 1960 até o final dos anos 1980, mas ele é tão bobo e precisa sempre de um terceiro para resolver seus problemas que é difícil imaginá-lo como alguém firme e sem medo de enfrentar o poderoso chefão da Sony.
Para além disso, Michael vive em seu próprio mundo de fantasia. O quarto é como de uma criança, cheiO de brinquedos e itens infantis, e vive aterrado em fábulas e contos de fadas. Entendo que para o jovem Michael (Juliano Valdi), essa era sua maneira de fugir da opressão do pai, mas para o adulto Michael é um artifício nada sutil que o filme encontra para a criação de Neverland. Nada disso, no entanto, contribui para mostrar a criatividade que pulsava do artista. Em parte, isso ocorre porque a própria direção de Fuqua carece de personalidade, sendo excessivamente protocolar. E, assim, o filme perde.
Quando um VT do BBB é exposto, você consegue ter uma noção do que quer ser contado sobre aquele personagem, mas você não tem acesso às entrelinhas de sua história, e é isso que acontece com Michael. O roteiro se preocupa em dar check a acontecimentos e a prováveis causas, mas não se debruça em explorá-las e deixar entrelinhas abertas que nos leve a reflexão. Assim, a infância roubada, o medo de errar e a necessidade de ser perfeito são temas que atravessam os Jackson e estão presentes no filme, mas dentro do guarda-chuva de explorar a relação do artista com o seu pai.
Nesse aspecto, o filme acerta e trabalha bem o daddy issues (problemas paternais) que cerca Michael e como ele se interliga às questões de insegurança de sua vida adulta. Ao mesmo tempo, a exploração dessa temática parece ser o que deixa o personagem de Jaafar enclausurado, perdendo toda a vibe pra cima que o filme poderia ter e que o artista merecia.
Colman Domingo assusta como Joseph, em determinado momento fiquei realmente apreensiva com o que seu personagem seria capaz de fazer para alimentar a necessidade pulsante de criar uma estrela. Esse empenho é o que o torna o antagonista direto do filho, numa perspectiva maniqueísta da relação, ao mesmo tempo em que se torna o mais próximo de um personagem tridimensional presente em Michael.
O grande problema da narrativa é o quanto ela repousa na superficialidade, sem explorar nem mesmo situações amplamente conhecidas sobre a vida de Michael Jackson, como o vitiligo e a aceitação de sua aparência. É compreensível que temas mais pesados como as acusações de abuso sexual não venham a tona, tendo em vista que muitos foram resolvidos ou tramitaram em segredo de justiça, mas porque não abordar a descoberta do rei do pop sobre sua condição de saúde? Por que dar mais tempo de tela a sua relação com Bubbles do que com seu próprio corpo? Tais caminhos o aproximariam ainda mais do público jovem e com discussões contemporâneas. Sinto que isso faz parte da tentativa de mostrar apenas o nascimento da estrela Michael Jackson, uma pena que faz com que o filme perca força.
Apesar disso, é preciso elogiar o trabalho corporal feito por Jaafar Jackson e Juliano Valdi. Esse último é carismático e consegue entregar o ar inocente, ansioso e dolorido pela infância perdida. Já Jaafar, sobrinho de Michael, é o grande destaque da produção. Além de imitar os trejeitos tanto em expressões faciais quanto nos passos de dança, há a voz. Confesso que, no início achei incômodo, mas lembrei de This is it e percebi o quão semelhante ele é na modulação vocal. A atuação de Jaafar consegue ir aonde o texto não vai, emocionar e nos fazer ter empatia por Michael.
Ao final, o balanço de Michael é divertido. Algumas cenas arrancam boas risadas, os números musicais são interessantes, mas a história não se aprofunda e você não consegue conhecer o rei do pop para além dos intervalos de suas músicas. Com certeza, uma das estrelas mais memoráveis da música mundial merecia algo mais profundo do que um VT do BBB.
















