Se em ‘Os Bons Companheiros’ Martin Scorsese encantou o público com sua abordagem glamorosa da vida de um mafioso, em “As Golpistas”, a cineasta Lorene Scafaria tenta e, de certa forma, consegue alcançar o mesmo feito. Vinda das comédias “A Intrometida” e “Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo”, a cineasta apresenta um olhar humanizado, empolgante e cômico da vida de um grupo de strippers em Nova York.  Baseado em fatos reais, o filme conta a história de dançarinas da noite que começaram a dopar executivos de Wall Street para furtar valores astronômicos de seus cartões de crédito e cheques. Com um forte discurso de cumplicidade feminina, o longa retrata como era a vida das strippers antes e depois da crise econômica em 2008.

Em ‘As Golpistas’ acompanhamos Destiny (Constance Wu), uma dançarina recém-chegada em uma boate de stripper, que sonha em ganhar dinheiro, ser independente e ajudar a avó. Em seu primeiro dia, ela conhece a experiente e fascinante Ramona Vega (Jennifer Lopez) e se aproxima da estrela da boate com o intuito de conhecer os truques para encantar os clientes. Naturalmente, Destiny e Ramona se tornam parceiras de trabalho, mas a crise econômica chega e elas se separam. Anos depois, com uma filha de quatro anos e sem emprego, Destiny resolve voltar a dançar na boate, mas percebe que tudo mudou. Ela reencontra Ramona e, a partir desse encontro, a vida das duas irá mudar completamente, assim como a relação delas irá ganhar outras proporções.  

Logo na cena de abertura, com um ótimo plano-sequência mostrando Destiny em seu primeiro dia como dançarina até a cena em que Ramona aparece no palco e encanta não só os homens da plateia, como deixa Destiny anestesiada com tamanho poder, sensualidade e domínio que ela tem daquele mundo, a diretora faz uma demonstração clara de como tratará as suas protagonistas.

 Tudo em “As Golpistas” é feito não para chocar, mas para divertir, encantar e questionar. Apesar do olhar pop, Scafaria faz uma crítica intrínseca das mazelas de ser uma stripper, como não ter vontade de manter relações com o namorado, ou a falta dele, o cansaço, a violência velada sofrida pelas mulheres pelos clientes mais poderosos e o quão artificial são as relações naquele trabalho.

A cineasta trabalha muito bem essas questões em um roteiro enxuto, coeso e simples, que prioriza as relações entre as mulheres, suas escolhas e seus atos. Na trama, não há concorrência entre as strippers. Não há discurso de ódio entre as mulheres ou de disputa. Elas se tratam como família, com cenas de pura fraternidade e êxtase de meninas tão pobres, que por meio dos golpes, conseguem a vida de luxo que desejam. É muito difícil não comparar o novo filme de Scafaria com as tramas de máfia, uma vez que a diretora faz questão de utilizar alguns artifícios cinematográficos do gênero, em seu filme. Primeiro ela encanta, diverte, cria a empatia, depois mostra a verdadeira face daquelas mulheres e seus argumentos para as decisões criminosas que tomam.

FURACÃO LOPEZ

Constance Wu está muito bem no papel de Destiny. Simpatizamos de sua dor e de suas escolhas, mas é difícil não admitir que quem rouba as cenas e é o ponto alto do filme é Jennifer Lopez. Ramona é líder do grupo de strippers e a melhor delas. Ela brilha e consegue carregar a sua personagem como a personificação da determinação e poder. Mesmo com suas decisões maldosas, Ramona ganha o público por expor um coração doce, que acolhe aquelas meninas e que realmente quer o bem de todas. O núcleo secundário do filme também é excelente. Lili Reinhart, Keke Palmer estão ótimas em seus papéis e conseguem arrancar algumas gargalhadas do público com as atrapalhadas e causos durante os golpes.

A trama tenta focar em todas as mulheres de maneira conjunta, mas a dupla Jeniffer Lopez e Constance Wu são as que tem seus arcos dramáticos mais bem definidos e desenvolvido ao longo da história. A fotografia e a direção de arte de “As Golpistas” são um dos fatores essenciais na trama, responsáveis por guiar o público naquele mundo das boates, nudez, drogas e trapaças. A paleta de cores vai mudando ao longo do tempo, quase que de forma abrupta, seja na frieza da nova casa de Ramona que marca uma nova fase, na textura sombria em que o grupo de mulheres é filmado quando os golpes vão ficando mais inescrupulosos ou na brancura da roupa e casa de Doroty, após deixar para trás a vida de stripper.

Para quase duas horas de filme, a montagem fluida, que utiliza os flashforwards de forma didática, é responsável por não tornar o filme cansativo, apesar do terceiro ato ser apressado e repleto de clichês, quase inaceitável em um filme que em mais da metade vinha com uma trama tão intensa quanto empolgante. Outro fato que contribui para criar a atmosfera glamorosa é a trilha sonora nostálgica, eletrônica e a homenagem a cultura pop que o roteiro utiliza.

Um dos simbolismos mais bonito utilizado por Scafaria é a cena em que Ramona abre o longo casaco de pele para receber Destiny em um gesto puro de acolhida, de abraço. A relação das duas, como irmãs, sustenta o filme e, no final, percebemos que não era só uma amizade baseada em trapaças e sim, uma bonita relação que acabou por uma questão de escolha. ‘As Golpistas’ é um filme bonito em sua essência, principalmente quando paramos para analisar sua mensagem de fraternidade feminina.

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