Joachim Trier é dono de uma das carreiras mais consistentes do cinema europeu neste século. Desde o primeiro longa Começar de Novo (2006), o norueguês apresenta dramas muito bem equilibrados com grandes atuações e ótimos roteiros. Elogios sobraram para Oslo, 31 de Agosto (2011), Mais Forte que Bombas (2015), Thelma (2017) e, principalmente, para A Pior Pessoa do Mundo (2021).
Ainda assim, é possível afirmar que Valor Sentimental (2025) seja a grande virada de chave da carreira de Trier, uma mudança de patamar na carreira do diretor. Ao lado do parceiro roteirista Eskil Vogt, o cineasta disseca as relações turbulentas de um pai com as duas filhas em meio a traumas pesados do passado ao mesmo tempo em que reflete sobre o poder do cinema de ser uma janela para o outro.
Em meio à temporada de premiações com chances de vencer o Oscar 2026, Joachim Trier conversou com Pâmela Eurídice e Caio Pimenta sobre Valor Sentimental, a parceria com Vogt e Renate Reinsve e ainda teceu elogios a Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho.
Cine Set (Caio Pimenta) – De que maneiras você se sente mais próximo de Gustav Borg como diretor de cinema? E quais aspectos fazem você se sentir mais distante dele?
Joachim Trier – Boa pergunta. Eu começaria dizendo que ele é distante. Espero ser mais capaz de me comunicar e de me abrir emocionalmente do que ele, tanto como pessoa quanto como pai. Sou cineasta, estou sempre olhando para o futuro, e acho que todo mundo que trabalha com cinema pensa naquele dia em que talvez faça seu último filme — ou talvez nem chegue a fazer. Isso sempre me pareceu algo interessante.
Acho que o Gustav Borg é alguém que vive por meio dos próprios filmes, e qualquer pessoa que seja artista consegue se identificar com isso. Minha melhor resposta é essa: apesar de ele pertencer a outra geração e ser um tipo de pessoa muito diferente de mim, eu me identifico com o desejo dele de criar.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – A casa funciona quase como uma personagem em Valor Sentimental, carregando a ideia de que ela é testemunha de tudo o que acontece com essa família. Como o filme foi construído a partir da perspectiva desse espaço?
Joachim Trier: Você está absolutamente certa. A casa é, sim, como uma personagem. Ela surgiu mais tarde no processo. No início, quando escrevemos a história, tudo começou pelos seres humanos. Mas, depois, a casa nos deu uma espécie de estrutura para falar sobre o tempo, a memória e sobre como um lugar testemunha as nossas vidas. E isso me fascinou.
No cinema, o espaço é muito importante de forma quase inconsciente. Você precisa de uma cena, precisa de um lugar onde colocar os personagens. E, de repente, começaram a surgir padrões de repetição: a avó, o pai, a filha — todos vivendo nos mesmos espaços, lidando com os mesmos traumas. Eu pensei: isso é interessante. Então começamos a explorar essa ideia.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Ainda pensando na casa, temos um espaço envolto em silêncio, que eu entendo como uma espécie de história da família, como você mesmo mencionou. Como isso se conecta à ideia de polifonia que você trabalha em Sentimental Value?
Joachim Trier – Sim, ótima pergunta. Muitas vezes contamos histórias a partir de um único personagem, tentando criar um arco emocional e temático centrado nele. Mas, neste filme, a ideia foi lidar com múltiplas vozes, quase como um coro, como uma harmonia polifônica.
Acho interessante construir histórias assim porque você pode ter pequenos momentos com cada personagem e, de repente, o público passa a enxergar um quadro maior do que aquele que os próprios personagens conseguem ver. Por exemplo, a irmã mais nova, Agnes, por quem muitas pessoas se conectam emocionalmente logo no início: à primeira vista, ela parece não ser tão importante, mas, aos poucos, vai se tornando fundamental.
E tem também a forma como a casa, como você disse, assume uma perspectiva diferente, quase objetiva, mas que carrega um aspecto psicológico. Achei mais interessante explorar esses elementos do que simplesmente acompanhar um único personagem.
Cine Set (Caio Pimenta) – O tapa na cara que Nora leva logo no início e os presentes para o sobrinho são toques de humor em momentos de tensão. Gostaria que você falasse sobre o papel do humor em quebrar ou realçar o drama de um momento.
Joachim Trier – Acho que o humor é muito importante. A vida é cheia de coisas engraçadas. Mesmo no meio da escuridão, sempre existe alguma piada. E acho que é preciso encontrar esse humor para tornar tudo mais humano. Também vejo o humor como um mecanismo de sobrevivência. As pessoas sentem que precisam rir para continuar vivendo. Isso é fundamental.
Trabalho com o meu montador, o Olivier Bouguic-Coutet, que é um grande editor e montou todos os filmes que eu fiz. Ele sempre me diz: “não esquece da piada, cara. Não pode ser tudo sério demais”. Essa dinâmica é interessante. Não estou dizendo que você deva fazer piada com tudo. É preciso ter momentos realmente sérios, mas existe esse equilíbrio. De vez em quando, o humor entra — e ele precisa estar ali sempre a serviço da história.
Cine Set (Caio Pimenta) – Wagner Moura disse recentemente em uma entrevista que pronunciar uma palavra em sua língua nativa carrega um peso emocional diferente. Com isso em mente, qual a importância de manter o filme em norueguês em vez de simplesmente fazê-lo em inglês, especialmente com tantos atores que já trabalharam nos EUA?
Joachim Trier – Conheço um pouco o Wagner, porque a gente já se encontrou muitas vezes, viajamos juntos. Também conheço o Kleber e acho que eles fizeram um filme incrível. Sou muito fã.
Acho que ele está absolutamente certo. O que a gente tem conversado é sobre a expressão pessoal e sobre como o cinema é uma linguagem internacional, uma linguagem visual. Mas, quando se trata dos atores e dos comportamentos, é fundamental que isso venha de uma cultura específica. Foi assim que eu cresci: vivi na Noruega e, desde muito jovem, assisti a filmes do mundo inteiro. E foi por meio dessa especificidade das diferenças que eu passei a entender o que é o ser humano.
Eu não acho que ninguém deva tentar ser genérico ao contar histórias humanas. Pelo contrário, é preciso buscar as características daquele personagem, daquela cultura, daquela personalidade. Então acho que ele toca em algo muito interessante. “Valor Sentimental” fala exatamente disso: da complexidade de integrar um ator a uma família quando, talvez, ele não compreenda totalmente aquela dinâmica, ainda mais quando o papel foi escrito para a filha.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Conta um pouco pra gente sobre a sua parceria com o Eskil Vogt.
Joachim Trier – Ele é um grande amigo meu. A gente trabalha junto desde o começo dos nossos 20 e poucos anos. Escrevemos curtas-metragens juntos e fizemos os seis longas que dirigi. A nossa rotina é muito simples: eu encontro com ele de manhã, a gente toma um café e começa a trabalhar, trocando histórias da vida.
Amamos cinema, falamos de filmes o tempo todo, e é dessa combinação entre a alegria cinematográfica — essa possibilidade de contar histórias com imagens — e a própria vida que as ideias surgem. Então, ter um amigo tão próximo e, ao mesmo tempo, um parceiro de escrita é um dos grandes presentes da minha vida.
Já estou ansioso para que a gente volte a escrever em breve, porque quando isso acontece, é sempre um ótimo ano pra mim. Normalmente, leva cerca de um ano inteiro para escrever um roteiro
Cine Set (Caio Pimenta) – A vitória histórica do Brasil no Oscar deste ano com “Ainda Estou Aqui” paralisou o país inteiro, mesmo em pleno Carnaval. A Noruega nunca ganhou o prêmio de Melhor Filme Internacional. Você sente uma expectativa semelhante no país? Como você está vivenciando este momento?
Joachim Trier – Vamos ver o que acontece, mas é claro que, na Noruega, seria algo enorme se a gente ganhasse um Oscar. Sem dúvida nenhuma. Mas o mais bonito de tudo é a atenção que o cinema mundial passou a receber agora na corrida pelo Oscar.
Hoje você tem filmes da Coreia do Sul, do Irã, do Brasil, da Noruega, da Espanha e de muitos outros países sendo comentados lado a lado com os filmes americanos. Isso é algo muito bonito.
Eu sinto uma espécie de solidariedade com os cineastas do resto do mundo, porque todos nós estamos recebendo um tipo diferente de atenção. O Kleber é meu amigo, então acho ótimo que a gente possa se encontrar e assistir aos filmes uns dos outros.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Essa já é a sua terceira colaboração com Renate Reinsve. De que forma essa parceria evoluiu ao longo do tempo?
Renate Reinsve – A gente vai se conhecendo cada vez mais. Hoje somos amigos. Conversamos sobre os personagens até antes de eu começar a escrever. Eu a encontrei muito cedo no processo de roteiro — foi uma das primeiras pessoas que convidei para ouvir e discutir a história.
Sinto que tudo gira em torno da confiança. Ela sabe que eu não a julgo. Tenho curiosidade para ver o que ela vai fazer, e ela consegue encontrar novas versões para as cenas. E eu tento estar ali para apoiar, para acolher, para captar o melhor do trabalho dela.
Acho que essa parceria baseada na confiança acabou se tornando algo muito importante na vida de nós dois. É até difícil explicar, mas nem sempre a gente precisa falar sobre tudo. Muitas vezes, é mais uma questão de intuição.
















