Se o primeiro Todo Mundo em Pânico, lançado em 2000, os filmes de terror eram o principal combustível das piadas, o novo longa da série expande a fonte do humor. Agora, é a internet que move a trama. O novo capítulo do besteirol se mostra muito mais autoconsciente de seu próprio universo e mira diretamente a geração Z na tentativa de se tornar um grande sucesso de público. Há piadas com tudo, incluindo, streamers que fazem loucuras por likes até brincadeiras virais como o famoso “six, seven”.

O mais interessante é que existe um cuidado meticuloso para que o filme não soe como apenas mais um caso de roteiristas mais velhos tentando se enturmar com os jovens ao repetir gírias, memes e tendências das redes sociais. Todo Mundo em Pânico entende esse problema e encontra justamente nele uma de suas melhores piadas. A produção demonstra consciência do próprio esforço para parecer atual e transforma essa tentativa em alvo de seu humor.

O humor de Todo Mundo em Pânico segue não sendo para todo mundo. É preciso ter certo estômago para aguentar algumas piadas que, em determinados momentos, soam apenas preconceituosas. E para uma franquia que faz questão de provocar a cultura do cancelamento, chama a atenção o quanto ela parece suavizar suas piadas envolvendo o presidente Donald Trump.

Ao mesmo tempo, é curioso observar como o filme tenta equilibrar duas sensibilidades muito diferentes. Enquanto mira diretamente na geração Z, também resgata um tipo de humor característico dos anos 2000, uma época em que piadas envolvendo minorias eram recebidas com muito menos questionamento. Hoje, boa parte do público jovem está mais atenta a esse tipo de abordagem, especialmente quando ela envolve a comunidade LGBTQIAPN+. Talvez por isso Todo Mundo em Pânico encontre seus melhores momentos quando deixa de insistir nesse humor mais datado e se apoia em referências que dialogam melhor com seu novo público-alvo. O melhor exemplo disso está na divertida paródia de Guerreiras do K-pop, que incorpora elementos mais contemporâneos sem abandonar o espírito absurdo que sempre definiu a franquia.

Uma das grandes surpresas é ver Marlon Wayans assumir o protagonismo. Se no primeiro filme ele era apenas mais um entre os vários personagens que circulavam pelas esquetes de humor, aqui ganha muito mais espaço, chegando a ter mais tempo de tela do que a própria Anna Faris. Agora mãe na trama, ela divide cena com a filha, interpretada por Olivia Rose Keegan, e boa parte das risadas vem justamente da forma como ela tenta roubar a atenção toda vez que a jovem parece prestes a ganhar algum destaque. Regina Hall também está de volta como Brenda, trazendo as expressões exageradas e os comentários absurdos que transformaram a personagem em uma das figuras mais adoradas da franquia. Já Shawn Wayans protagoniza uma das melhores esquetes do filme ao parodiar Pecadores.

Mas talvez o aspecto mais impressionante da sessão tenha sido a reação do público: a cada aparição de um personagem clássico, a sala respondia com aplausos e comemorações espontâneas. Era como assistir a uma versão cômica dos Vingadores reunindo seus heróis mais queridos: o entusiasmo lembrava aqueles momentos de cinema-evento em que o público vibra ao ver um personagem lendário retornar à tela

Claro que, no meio de tudo isso, fica evidente a fragilidade da trama de Todo Mundo em Pânico. O filme se aproxima muito mais da estrutura do primeiro longa do que da fórmula adotada no terceiro e quarto capítulo, que conseguiam construir uma narrativa relativamente coesa entre suas paródias. Aqui, as referências centrais giram em torno de Pânico 5 e 6, mas o roteiro logo abandona qualquer preocupação maior com a unidade para simplesmente empilhar esquetes de humor em sequência.

Algumas dessas piadas dialogam diretamente com a trama principal; outras surgem apenas porque são engraçadas o suficiente para justificar sua presença. Particularmente, não vejo isso como um grande problema. A história rapidamente se transforma em um completo caos, mas esse caos sempre foi parte essencial da identidade da franquia. No entanto, Todo Mundo em Pânico nunca foi lembrado por suas narrativas elaboradas, e sim pela liberdade de interromper qualquer lógica em nome de uma boa piada.

Os irmãos Wayans sempre tiveram uma confiança quase inabalável em seu próprio humor e Todo Mundo em Pânico deixa isso bastante evidente. É perceptível o quanto eles parecem felizes por retornar à franquia que ajudaram a transformar em um fenômeno cultural, inclusive encontrando espaço para uma referência a As Branquelas que praticamente funciona como uma promessa de que esse não será o último reencontro desse universo com o público. E, como mencionei no início, Marlon Wayans demonstra ter plena consciência de como esse entusiasmo pode ser encarado. O filme incorpora à própria trama o ressentimento de seu personagem por ter ficado de fora dos capítulos anteriores, transformando essa ausência em mais uma piada. É justamente essa autoconsciência que impede o longa de parecer apenas um exercício de nostalgia.

Por isso, considero Todo Mundo em Pânico uma surpresa positiva. Narrativamente, é um filme frágil e desorganizado, mas encontra força em sua capacidade de rir do mundo ao seu redor e de si mesmo. Em meio à avalanche de referências, memes, streamers e tendências passageiras, a franquia encontra uma forma de refletir a loucura digital em que vivemos. Talvez não seja seu capítulo mais inteligente, mas certamente entende o caos da internet melhor do que muitos filmes que tentam retratá-la de maneira séria. Todo Mundo em Pânico 6 acaba funcionando como um espelho distorcido das redes sociais.