Ah, as musas, as deusas, as ninfas! O que seriam os mitos gregos sem a presença dessas belas mulheres que enlouqueciam os deuses, os poetas e os homens? Aliás, ainda enlouquecem…!

Partindo desse princípio, o cineasta italiano Paolo Sorrentino, mais uma vez, nos coloca no centro de uma jornada do herói. Melhor dizendo, da heroína. No mito grego, Partenope foi a fundadora da cidade homônima, que mais tarde seria rebatizada de Nápoles, e era uma sereia/ninfa que encantava os deuses e os poetas. Como no mito, Partenope (Celeste Dalla Porta, na juventude, e Stefania Sandrelli, idosa, verdadeiras deusas) nasceu no mar de Nápoles e, com sua beleza, juventude, sedução e muito colágeno, seduzia todos ao seu redor, inclusive seu irmão, Raimondo (Daniele Rienzo), que sucumbia à sua devoção.

É inegável que Sorrentino bebe muito da fonte de Bertolucci em Os Sonhadores, no que tange à áurea de um polêmico triângulo amoroso entre irmãos e a outra ponta aguda, Sandrino (Dario Aita), porém as comparações param por aí. A jornada de Partenope é um crescimento para além de sua beleza e sedução.

Contado desde o seu nascimento, em 1950, até a sua aposentadoria em 2023, a produção coloca a beleza como cartão de visitas e, além disso, a beleza no reconhecimento de si mesma enquanto pessoa. Muitos a viam como uma bela mulher, todos a queriam, mas nossa protagonista procurava por mais e se encontrou no mundo acadêmico. A sincronia entre ela e seu professor/mestre, Devoto Marotta (Silvio Orlando), é belíssima, sendo um dos poucos a ver sua beleza interior e, sobretudo, intelectual.

Confesso que tenho certos problemas com as narrativas de Sorrentino. A meu ver, seus filmes sempre começam e terminam muito bem, mas o problema está no meio. E isso acontece novamente aqui, com uma sequência bem bizarra que, no contexto do crescimento da personagem em reconhecer a miséria humana para além de seus privilégios de “menina rica”, ficou bem forçada.

Contudo, ele e sua fiel escudeira, Daria D’Antonio, nos brindam com uma fotografia de tirar o fôlego, em meio a cenários lindos e grandiosos, uma trilha sonora poderosa e uma participação elegantíssima de Gary Oldman, para mostrar o outro lado da beleza: seus mistérios, encantos e melancolia. De como as tragédias sempre cercam essas deusas e ninfas. Mas, sobretudo, de uma mulher que tomou conta de seu destino, de sua própria vida, e não renunciou a si mesma em prol do que poderia ser o seu maior trunfo: a beleza e juventude. Afinal, o tempo passa, não é mesmo? E o que resta?