Para usar uma expressão brega dos nossos tempos, a série Peaky Blinders “furou a bolha”: exibida entre 2013 e 2022, a produção não tinha o que se pode chamar de grandes atrativos para o público, em teoria. Era um drama de época sobre gangsters de uma região pobre da Inglaterra, em Birmingham, no contexto pós-Primeira Guerra Mundial. Não tinha ação – não muita, pelo menos – nem efeitos visuais nem romance açucarado, ingredientes que parecem ser obrigatórios para muitas atrações de sucesso da TV e do streaming hoje. 

Ainda assim, foi um sucesso, até no Brasil, graças à vitrine da Netflix e às suas próprias qualidades: uma boa escrita – principalmente nas primeiras temporadas – com drama envolvente e personagens interessantes, interpretados por um ótimo elenco. Ao longo das seis temporadas, nomes como Cillian Murphy, Helen McCrory, Paul Anderson, Sam Neill, Tom Hardy, Annabelle Wallis, Adrien Brody, Anya Taylor-Joy, Paddy Considine e Stephen Graham, entre outros, entregaram grandes trabalhos nos 36 episódios da série.

E acima de tudo, Peaky Blinders soube cativar com uma narrativa que geralmente ganha o público quando é bem feita: anti-heróis num mundo cinzento tentando fazer a coisa certa, com problemas de família no meio, e perdendo a si próprios no processo por causa das suas fraquezas humanas.

Nem precisava de mais, mas claro que a Netflix não quer deixar um bom fenômeno cultural morrer, então a saga do gangster Tommy Shelby agora recebe mais um capítulo, o final, com o filme Peaky Blinders: O Homem Imortal. O criador do seriado, Steven Knight, retorna no roteiro e junto com o diretor Tom Harper, traz uma história que tem ao menos um dos pés em eventos reais. Em 1940, a Alemanha nazista criou um plano destruir a Inglaterra pela economia, injetando grandes quantidades de libras falsas no mercado para quebrar o país, e tentaram fazer isso usando recrutando gangues criminosas. Na ficção, os temidos Peaky Blinders se envolveram no complô, agora sob o comando do jovem Duke (Barry Keoghan).

E onde anda Tommy Shelby (Cillian Murphy)? O cara se autoexilou após os eventos do final da série, e virou uma lenda na região. Duke é seu filho, e ele nunca realmente conheceu o pai. Mas quando Tommy encontra uma bela e misteriosa cigana – interpretada por Rebecca Ferguson – ele acaba sendo persuadido a voltar a Birmingham e a tentar colocar seu filho e o que resta da sua família nos eixos, de quebra enfrentando um novo inimigo numa tentativa de salvar a Inglaterra.

Particularmente, eu gosto de como a série terminou e acho que a história não precisava de um epílogo, muito menos um bombástico como O Homem Imortal – este filme tem tiroteios, explosões e uma grande cena de luta enlameada entre Tommy e seu filho. Mas há algo inegavelmente empolgante em voltar a esse universo e reencontrar o icônico Tommy Shelby, com seu chapéu, terno e casaco elegantes, galopando num cavalo negro pelas ruas que ele antes dominava. É uma imagem forte, ao som da macabra canção Red Right Hand de Nick Cave, que serviu como tema da série, e Harper e Knight sabem disso e conseguem, no filme, transmitir a força do momento. Se você, espectador, alguma vez se empolgou com a série, é impossível não se emocionar aqui.

O maior problema do Peaky Blinders: O Homem Imortal é que ele é apressado e pouco desenvolvido: o vilão vivido por Tim Roth é, apesar do ator, raso em suas motivações, e alguns personagens e conflitos do filme são apenas esboçados em nome de fazer tudo caber numa duração de duas horas. Um problema da vida real também se infiltrou aí: o ator Paul Anderson, que na série fazia Arthur Shelby, personagem importantíssimo, tinha sido preso por porte de drogas e não pôde participar do filme. A forma como o roteiro de Knight tira o Arthur da história é muito estranha e decepcionante para quem viu o seriado, e isso diminui o resultado final.

Ainda assim, o filme ainda consegue cativar: de novo, a narrativa esperta nos conquista com uma figura lendária pela maldade buscando uma forma de redenção. Se vale a pena ver este O Homem Imortal, é pela atuação de Cillian Murphy, que volta ao seu personagem com facilidade e poder. O Tommy Shelby aqui é praticamente um fantasma, um homem oco que reencontra algum tipo de propósito numa jornada quase mitológica. Claro que neste filme ele é mais heroico e agora luta pela causa certa, o que de certa forma dilui um pouco o seu personagem. Mas de novo, Murphy compõe uma figura da qual não se pode desviar os olhos: Sua voz, sua linguagem corporal, seus olhos frios e rosto de pedra são calculados para dar peso ao Tommy Shelby, e o resultado é, assim como foi no seriado, digno de aplausos.

E assim como a série, Peaky Blinders: O Homem Imortal vive por causa de Cillian Murphy e seu fantástico talento para fazer muito com poucos recursos aparentes. O filme é um epílogo imperfeito, mas que consegue cativar e se elevar um pouco acima da média das produções Netflix. Steven Knight, que além da série já nos deu ótimos filmes como Coisas Belas e Sujas (2005), Senhores do Crime (2007) e Locke (2016), agora vai trabalhar com outro mito ao roteirizar o vindouro novo filme de James Bond. Se ele de fato quis encerrar um capítulo da carreira com este O Homem Imortal, ele certamente soube deixar a lenda de Tommy Shelby viva na mente do público por mais um tempo.