Há filmes em que conseguimos sentir as dores, as aflições e os anseios do diretor em narrar uma história importante. Consigo sentir isso em “Pedro Páramo”, quarta adaptação cinematográfica de um clássico da literatura mexicana escrita por Juan Rulfo e publicada em 1955. Rodrigo Prieto, reconhecido por suas quatro indicações ao Oscar por Melhor Direção de Fotografia – “O Segredo de Brokeback Mountain” (2006); “Silêncio” (2017); “O Irlandês” (2020) e “Assassinos da Lua das Flores” (2024) – estreia na direção com esse fogo nos olhos e uma grande necessidade de recontar essa história.
A narrativa parece simples, mas é muito mais densa e complexa do que aparenta ser. Juan Preciado (Tenoch Huerta) viaja até Comala para reivindicar a herança ao pai, Pedro Páramo (Manuel García-Rulfo), mas ao chegar na pequena cidade, descobre que o patriarca morreu há anos e não há nada ali que ele possa chamar de seu.
O que Juan Preciado encontra é uma cidade fantasma, cidade vazia e abandonada que entre suas ruínas, estão pessoas já mortas, condenadas por seus pecados em vida a vagar pela cidade, as almas sem perdão. Através delas que entramos nesse mundo moribundo e não linear de uma passagem sangrenta e que ainda corrói toda uma população.
O mistério fúnebre e nefasto que Prieto imprime certo horror pela forma apaixonada como ele reconta essa história que tem como pano de fundo a Revolução Mexicana (1910-1920) que, embora fosse uma insurgência social onde os oprimidos rebelaram-se contra os senhores e poderosos, houve um balaio ideológico que trouxe mais mazelas, fome, domínios e repressões que ainda se pode mantêm no país, talvez seja por isso que se sinta toda a dor e urgência na direção de Prieto, é a história do seu povo que está sendo contada e não pode ser esquecida.
A direção de arte de Eugenio Caballero é surreal nessa odisseia fantástica e fantasmagórica onde as leis dos homens poderosos são quem definem quem você deverá ser e a mulher calar-se. É um estudo de caso como uma pessoa pode se corromper pelo poder e manter a hierarquia de uma pirâmide social desigual. É sobre as almas em desalinho, no verdadeiro purgatório, a cena das almas no céu agonizando ou do corpo que se transforma em lama são assustadoramente eficazes, mas o susto é para além da ficção.
“Pedro Páramo” é um retrato de uma lei implacável – do poder sobre os seres humanos, a corrupção, as angústias – e de um realismo fantástico que extrapola os limites da realidade. Pois ela foi e continua sendo a pior das experiências.














