Parte drama familiar, parte conto gótico, “Piano de Família”, é um filme nervoso e envolvente. Com três Washington nos créditos (Malcolm dirige e co-escreve, Denzel produz e John David estrela), o longa é outra hábil adaptação do dramaturgo August Wilson para o celuloide. Exibido no Festival de Londres e disponível na Netflix, a produção dá amplo espaço para o seu elenco trazer o melhor jogo pra campo – e quem sai por cima é Danielle Deadwyler, que domina a tela sempre que aparece. Depois do trabalho impactante em “Till – A Busca por Justiça”, seria simplesmente criminoso ela não ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pela sua performance aqui.

Ela interpreta Berniece, dona de um piano no nordeste americano da década de 1930 – e tanto ela quanto o objeto (uma herança familiar) trazem consigo duras histórias. Quando seu irmão Willie (John David Washington) chega querendo vender o instrumento para comprar terras no sul do país, um conflito familiar que diz muito sobre a escravidão e o trauma coletivo advindo dela se instaura.

De fato, é o espectro da escravidão que assombra os membros dessa família, que serve como um microcosmo de algumas gerações que vivenciaram os primeiros 70 anos pós-abolição. Essa presença insidiosa se faz sentir tanto nos quartos vagos da mente dos personagens quanto através de manifestações sobrenaturais que vão dando as caras no decorrer da projeção.

Esse jogo com os elementos narrativos ilustra a riqueza temática desse material – indicativo tanto do talento inventivo de Wilson quanto da habilidade dos co-roteiristas Malcolm Washington e Todd Black de não só não mexer com o que funciona na peça como achar formas de transformá-la em uma experiência verdadeiramente cinematográfica.

Ainda que, pela sua natureza, boa parte da ação se passe na casa de Berniece, o realizador acha espaço para uma sequência introdutória visualmente surpreendente, por exemplo. Aliado ao diretor de fotografia Mike Gioulakis, o filme emplaca incríveis frames e incontáveis manobras tonais. Sem a plateia se dar conta, ele se contorce e vira, por vezes, um romance, por vezes, um terror… e, brevemente, até um musical.

O estilo de sobra não serviria de muita coisa se o cerne do longa não fosse algo extremamente palpável e crível: o embate entre a vontade de romper os grilhões do passado para criar um futuro novo e o respeito pela luta (e pelo luto) de gerações anteriores, cujos sacrifícios vivem na pele e na dor do dia-a-dia.

Pela pura quilometragem emocional que ele consegue perpassar, “Piano de Família” não deixa de ser um feito. Muito do que a produção aborda tem a ver com o sofrimento, mas ela não é, em si, sofrida. Pelo contrário, ela dança com o fervor de alguém que está ansioso pela próxima música. Uma música mais livre, talvez. Mais digna, mais terna.