É uma terra fria a que vemos em Nomadland. No filme da diretora Chloé Zhao, o interior dos Estados Unidos é um espaço gelado e dilapidado. Ambientado alguns anos após a crise econômica de 2008, no filme acompanhamos a viúva Fern, interpretada por Frances McDormand, que viaja pelas estradas norte-americanas em seu van depois da morte do seu marido e do fechamento da fábrica que sustentava sua cidade. Fern se define como uma “sem casa”, não uma “sem teto”. Ela mora no seu carro. Ao longo do filme, vemos Fern conhecendo outros “nômades”, arranjando alguns empregos e bicos aqui e ali – incluindo um como empacotadora da Amazon – e simplesmente vivendo, enquanto vai de um lugar para o outro.

Nomadland realmente propõe um mergulho nesse estilo de vida, e através das lentes de Zhao e do diretor de fotografia Joshua James Richards percebemos que essa maneira de viver tem feito adeptos nos Estados Unidos, seja por vontade própria ou pelo peso das circunstâncias econômicas. Muitas vezes o cinema dos EUA esquece, ou não tem disposição de mostrar a pobreza que existe de fato no país e tem se tornado crescente nos últimos anos. Embora não chegue a ser mesmo uma obra de teor político, Nomadland reflete a época atual de encruzilhada para o país. As pessoas que vemos no filme são as sobras do capitalismo, e há um número cada vez maior delas por aí atualmente, e pelo mundo todo também. Não é um filme sem esperança, pois essas pessoas se ajudam umas às outras e Zhao se foca na humanidade delas. Mas é um filme desalentado.

Esse foco na humanidade, aliás, é a grande qualidade do filme. Expandindo ainda mais o estilo documental, “mosquinha na parede”, do seu ótimo trabalho anterior Domando o Destino (2017), aqui a câmera de Zhao parece ainda menos intrusiva. O que a possibilita captar momentos que realmente não tinham como ser encenados, como a cena da conversa entre Fern e Swankie, uma andarilha que revela estar a caminho do Alasca após ter sido diagnosticada com câncer terminal. Aliás, exceto por McDormand e David Strathairn, que vive um senhor interessado em Fern, as demais pessoas em cena não são atores profissionais, são nômades da vida real. E embora explorar os momentos entre as pessoas seja a força do filme, em outras cenas Zhao parece simplesmente contente de filmar McDormand andando por aí: Um longo plano dela percorrendo o local de encontro dos nômades, ao amanhecer é, além de visualmente bonito, uma representação simbólica do filme. É um trabalho belo de fotografia: algumas paisagens e cenas impressionam e criam contraste com os dramas apresentados.

‘o lar é só uma palavra’

Essa abordagem faz com que Nomadland busque, e alcance, um tipo de poesia visual, uma maneira íntima e austera de explorar a protagonista na sua viagem e os eventos emocionais pelo caminho. Também é interessante o que Zhao e McDormand fazem com a personagem. Claro, o roteiro – também de Zhao, baseado em livro de Jessica Bruder – fornece algumas informações sobra a Fern para que possamos compreendê-la, mas nunca o suficiente para explicá-la. Apesar de que uma vez ou outra se possam avistar uns psicologismos para delimitar a sua protagonista, ela permanece mais ou menos uma incógnita ao longo da história. Ela está fugindo ou finalmente encontrou seu rumo? Está presa ao passado ou abraçando o único futuro possível para ela? Essas perguntas, Zhao e McDormand nunca respondem de fato, e isso torna Nomadland mais interessante.

E é a atuação da sempre ótima, muitas vezes magnifica McDormand que conduz o filme. A abordagem dela como atriz é a mesma do filme: Ela não “atua”, desaparece na personagem. Às vezes um levantar de sobrancelha, um sorriso ou um contorcer de rosto é tudo que McDormand precisa para nos informar do que sua personagem está sentindo. É uma atuação voltada para dentro, sem momentos de explosões ou grandes externalidades, e muito precisa e meticulosa. É o trabalho de uma atriz no domínio pleno de seu ofício.

Embora histórias e road movies sobre personagens à procura de algo em suas vidas, ou simplesmente à deriva, sejam comuns no cinema – afinal, é no mínimo interessante acompanharmos por 2 horas alguém que se afastou da sociedade por vontade própria – Nomadland se torna especial justamente pela sua visão oportuna e muito bem delineada desse tipo de jornada. A certa altura, uma personagem pergunta se “o lar é só uma palavra, ou é algo que levamos conosco, aonde vamos”. Esse é a essência de Nomadland e a sua visão de um país e de pessoas à deriva é muito arguta, inteligente, às vezes engraçada e, em alguns momentos, emocionante. É um “mundo, mundo, vasto mundo” mesmo, e no qual só a jornada é uma certeza, o destino não.

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