Dirigido por Ronan Day-Lewis, filho de ninguém menos que o ator Daniel Day-Lewis, e roteirizado pelos dois, Anemone é uma obra que retrata os ecos do luto de um homem marcado pelos traumas da guerra e dos abusos que sofreu na juventude.
Ao ser condenado pela Justiça por um incidente do passado, Ray Stoker (interpretado por Daniel Day-Lewis) se torna um fugitivo que se isola de todos, indo morar numa casinha, solitário, em meio a uma floresta.
A visita do irmão Jem Stoker (interpretado por Sean Bean) reacende velhas mágoas ao mesmo tempo que acalenta a solidão do pobre homem perturbado que Ray se tornou, em uma convivência ora pacífica, fraternal, descontraída e docemente despretensiosa, ora conturbada e imprevisível, pelos acessos de raiva saídos dos lugares mais obscuros da alma de Ray.
Após um silêncio quase sepulcral, começam interessantes conversas que evidenciam uma singeleza por debaixo de toda aquela inaptidão e falta de traquejo social entre os irmãos, como crianças tímidas tentando encontrar formas de interagir entre si. No meio das conversas fiadas e confissões que se seguem, entre gentilezas e grosserias, a complexa personalidade de Ray se despe aos poucos, em mais uma interpretação notável de Daniel Day-Lewis, singular em sua primeira aparição desde Trama Fantasma (2017).
Em sua sutileza, a obra não explica nada de forma clara sobre o contexto em que aquelas personagens vivem, revelando aos poucos ao espectador do que se trata aquela visita, que aparenta ser uma atividade habitual da vida de Ray, cuja persistência só é vencida pela teimosia do irmão. A fuga de Ray o fez abandonar seu filho e sua esposa (interpretada por Samantha Morton), tornando-o uma figura misteriosa para o garoto, que cresceu amargurado por tal atitude.
Dessa forma, a presença de Jem na casa do irmão transforma o lugar em um verdadeiro confessionário por dias, semanas, quem sabe até mais. Jem se porta como um sacerdote paciente, sendo quase exclusivamente um ouvinte de seu irmão, respeitando o tempo em que a confissão demora a brotar, como a flor frágil, mas persistente, além de tóxica, que dá título ao longa e que “dá as caras” vez ou outra ao longo da projeção, sendo uma representação muito adequada de seu protagonista.
O simbolismo para com a flor não para por aí: elas devem ser cultivadas em solo úmido e não encharcado, o que se relaciona com o lugar em que Ray vive, sendo bem destacado pela coloração sempre azulada e com bastante contraste da fotografia de Ben Fordesman. Interessante notar como a mesma paleta de cor e iluminação também é trabalhada na casa de Jem, como se a atmosfera do trauma de Ray contagiasse também o lar das pessoas que o amam e se preocupam com ele. Além disso, na era vitoriana, a anêmona tinha significado de amor renunciado e abandonado, o que remete ao que Ray fez em relação à sua família, deixando-a para seu irmão cuidar.
Por sua vez, a substituição dele pelo seu irmão em seu lar gera um senso de rivalidade em Ray, que se verifica em algumas cenas, como uma em particular em que eles correm juntos na praia e Jem se cansa, mas Ray continua a correr velozmente, quase como se disputasse com o irmão.
Assim, com muito cuidado, contrastando com a turbulenta personalidade de Ray, Jem é como um paciente regador de uma delicada e trágica planta até que ela floresça, o que, no caso da trama, significaria ele se permitir retornar ao seu lar e à sua responsabilidade.
Se antes mencionei figuradamente uma questão religiosa, ela se revela ainda mais na maneira como Jem usa a mão para encostar na cabeça de Ray, freando o avanço agressivo do mesmo numa luta que os dois têm em determinado momento, antecedendo uma reviravolta que torna o gesto um símbolo de uma bênção concedida.
Tudo isso, obviamente, sem falar nas passagens bíblicas volta e meia recitadas por Ray, como se buscasse consolo diante dos traumas que o embruteceram e o desumanizaram no passado.
É uma pena, no entanto, que o filme não explore tanto suas outras personagens além das duas figuras centrais, não aproveitando o suficiente o talento de Samantha Morton e de seu filho (interpretado por Samuel Bottomley) em cenas que pedem por mais complemento.
Apesar de ser belo e sensível naquilo que tem a dizer, o longa se perde um pouco nas abstrações, sobretudo no terceiro ato da trama, em que uma cena surrealista confusa (apesar de instigante) quebra sua identidade até então realista. O minimalismo e o ritmo lento também podem tornar a obra um tanto enfadonha, que é elevada pela entrega das atuações e pelos planos fechados que a câmera sempre dá aos mesmos, além da autenticidade dos diálogos.
Numa dinâmica invejável, Daniel Day-Lewis e Sean Bean dançam (tanto figurada quanto literalmente) uma melodia caótica e descompassada, bem representada pela trilha sonora estridente de Bobby Krlic, numa química cativante que sintetiza a eterna luta do ser humano pela esperança e pela compreensão mútua.














