Já foi o tempo que ficava ansioso por um filme de Ridley Scott. Para um diretor que fez obras-primas como Alien – O Oitavo Passageiro, Blade Runner, Thelma e Louise e Gladiador, a atual fase marcada por Prometheus, O Conselheiro do Crime, Êxodo: Deuses e Reis, Napoleão e Gladiador II desanima qualquer pessoa. Por isso, Ponto sem Retorno seja uma grata boa surpresa para a filmografia nada inspirada dos tempos atuais.
Antes de mais nada, recomendo que o público regule suas expectativas do que esperar sobre o filme: bater o olho no poster ou ver o trailer leva qualquer um a esperar um filme de zumbi ou pós-apocalíptico no estilo Guerra Mundial Z ou The Last of Us. Ponto sem Retorno, entretanto, não entrega necessariamente de imediato toda essa ação. Sim, ela acontece, mas não antes dos 50 minutos.
E que bom que seja esta decisão: baseado no best-seller de 2012 de Peter Heller, a produção coloca o foco na relação entre Hig (Charles Melton) e Bangley (Josh Brolin). Ambos vivem em um mundo devastado após um vírus devastar grande parte da humanidade. Aqueles que sobram tentam sobreviver ou vivendo isolados ou em bandos raivosos destruindo tudo o que vê pela frente. Nossos protagonistas optam pela primeira opção, mas cada um a seu modo: Hig é um figura mais sensível, sempre na companhia do cachorro, enlutado pela morte da esposa e viajando para buscar contato com outras pessoas. Já Bangley até prefere a solidão a ponto de parecer ter esperado a vida toda por tal situação.
O desencontro de perspectivas entre estes personagens traz a maior riqueza simbólica de Ponto sem Retorno: Hig e Bangley representam as duas visões históricas dos EUA no imaginário popular. De um lado, o isolamento de um país que se considera autossuficiente e de enxergar o próximo como uma ameaça constante, independente de quem seja, disposto a atirar sem pensar. Do outro, há uma figura que tenta se aproximar do próximo, misericordioso, disposto a ouvir e dar um voto de confiança para quem não conhece, valor caro no fim do mundo.
Não à toa a escolha de Scott em optar por um western mais do que um sci-fi para contar a história de Ponto sem Retorno. Igual aos antigos faroestes, o ideal do sonho americano permeia os desejos dos nossos protagonistas. Se o mundo ideal para Bangley é aquela propriedade com tudo que supostamente necessita – armas, água, comida e energia -, Hig percorre quilômetros e quilômetros de avião (esqueça o cavalo) em busca de um desejo que nem mesmo sabe qual é. E o que sobrou do sonho em um mundo que uma gripe exterminou a humanidade, faltam vacinas e esperança?
Justamente aqui o filme retoma a veia sci-fi em um momento fabuloso de estranheza deliciosa que flerta com o terror do sonho americano. Como um diretor hábil de sequências de ação, Scott, ao lado de Erik Messerschmidt, diretor de fotografia ganhador do Oscar por Mank, explora a tensão ao limite quando Ponto sem Retorno engata a quinta marcha como no ataque dos carniceiros em que se alterna cenas mais escuras com outras de óculos noturnos esverdeados, criando imagens marcantes.
Ponto sem Retorno apenas derrapa quando busca ser mais emotivo, algo que nunca foi o forte de Ridley Scott. Todo relacionamento de Hig com Cima e Pops funcionam mais pela capacidade de Margaret Qualley e Guy Pearce, respectivamente, do que necessariamente pelo que se desenvolve entre os personagens de fato. A reta final com a solução para todo o drama soa piegas, ainda que ali possa soar um lado esperançoso de um senhor de 88 anos. Nada que desabone uma surpresa de um cineasta irregular, mas capaz de tirar coelhos da cartola de onde menos se espera.














