É muito interessante o quanto o diretor Heitor Dhalia consegue em Os Donos do Jogo articular o jogo do bicho para fazer comentários pontuais sobre o contemporâneo. Sejam os casos de apostas online, o tigrinho ou os jogos de azar no geral, Dhalia aglutina todas essas ideias dentro de uma série que parece filha direta de Vale o Escrito. É justamente dali que saem as pulsões mais fortes dessas produções recentes que mergulham no imaginário do submundo carioca, buscando dramatizar histórias que atravessam as fronteiras do crime, da política e da cultura — e que revelam o quanto o Brasil institucionaliza suas próprias ilegalidades.
Ainda este ano, vimos o cinema nacional ecoar esse mesmo comentário com filmes como Os Enforcados. Há uma tentativa de compreender como essas tramas funcionam como metáforas socioeconômicas de um país que naturalizou o crime como forma de sobrevivência. E mesmo fora do Brasil, o tema ganha fôlego — como em Balada de um Jogador, estrelado por Colin Farrell e dirigido por Edward Berger, que também explora o vício e o poder num circuito de azar e autoaniquilação.
Mas é em Os Donos do Jogo que tudo isso se encontra com uma clareza quase documental. Dhalia retrata um Rio de Janeiro distópico, mas reconhecível, onde o jogo do bicho, agora reconfigurado pela lógica das bets e dos aplicativos de aposta, se torna o coração econômico da cidade. A série expõe um crime a céu aberto, tão institucionalizado que já não se distingue mais das engrenagens oficiais do poder.
O protagonista Profeta (vivido por André Lamoglia) ascende nesse universo de maneira tão irresistível quanto trágica. Sua trajetória é uma espécie de Game of Thrones tropical, uma disputa brutal entre famílias e territórios, entre quem vai subir à alta cúpula e quem precisará morrer para isso acontecer. Dhalia constrói essa escalada com um ritmo seguro, algo que o formato seriado lhe permite desenvolver melhor que o cinema — cada episódio é um degrau rumo a um colapso ético e moral.
A atuação de Lamoglia surpreende ao modular a transformação de Profeta com intensidade e vulnerabilidade. Sua “descida à loucura” é inseparável da ascensão: quanto mais alto ele sobe, mais se afasta de qualquer resquício de humanidade.
Os Donos do Jogo, entretanto, não é apenas uma narrativa de poder masculino: a série apresenta um retrato do olhar feminino em meio ao patriarcado do crime. É aí que surgem as duas figuras mais intrigantes: Mirna (vivida por Mel Maia) e Susana (interpretada por Giullia Buscacio). Dhalia as filma como forças subterrâneas — mulheres que, diante da falta de voz em um ambiente dominado por homens, aprendem a manipular o jogo por trás das cortinas, usando seus parceiros como fantoches do próprio poder.
A ironia é que, em um mundo saturado de violência e testosterona, são elas que realmente compreendem as engrenagens da corrupção e da sobrevivência. Enquanto os homens se perdem em brutalidade e ambição, as mulheres pensam estrategicamente, dominam a burocracia do crime e agem com frieza onde os outros só veem instinto.
Essa justaposição — o visível masculino e o invisível feminino — é o ponto mais forte da série. A tela é ocupada por corpos masculinos, mas a presença que realmente organiza a narrativa é feminina.
Dhalia, experiente em retratar o desejo e o poder (de O Cheiro do Ralo a Serra Pelada), mostra-se em plena forma. Sua câmera é nervosa, mas nunca gratuita; observa o caos, mas compreende suas regras. Os Donos do Jogo é, ao mesmo tempo, crônica do presente e alegoria de um país viciado em arriscar tudo — no jogo, na política, no amor e, sobretudo, em si mesmo.














