Enquanto assistia “Pssica”, me veio a mente em vários momentos “Manas”, de Marianna Brennand. Não apenas pelo cenário escolhido para contar essa narrativa, a qual não deixa de ser particular justamente pela sociedade em que está ambientada, como também pela temática e a intrepidez de suas protagonistas. A série da Netflix, por possuir mais tempo de duração, nos possibilita ter uma percepção mais ampla de como esse panorama se desenha.
Dirigida por Fernando e Quico Meirelles (pai e filho, respectivamente), “Pssica” chega ao gigante do streaming em quatro episódios que acompanham Janalice (Domithila Cattete), adolescente que tem um vídeo íntimo vazado e precisa se mudar para Belém, Mariangel (Marleyda Soto), ex-integrante do exército colombiano que vive com a família em uma comunidade ribeirinha, e Preá (Lucas Galvino), pirata das margens do rio Amazonas. Os caminhos dos três personagens se cruzam em uma narrativa angustiante, calorenta e visceral.
Como um soco no estômago sem alívio nem tampouco suavidade, “Pssica” mergulha em um relato intenso e sem filtro sobre a sobrevivência em uma localidade em que a violência é a protagonista inevitável. Dessa forma, somos guiados por um ciclo de misoginia, pedofilia, assassinato, corrupção e pobreza que sufocam os personagens e buscam aprisioná-los dentro de uma realidade cruel e real. Os Meirelles apresentam tudo isso de forma crua, com trilha sonora, em sua maioria, diegética com muito brega, brega funk, carimbó e música gospel, tornando a experiência mais crível.
Em paralelo a isso, a fotografia de Glauco Firpo (O Acidente, Cidade Invisível) remonta de certa forma o olhar exótico sobre a Amazônia ao atravessar as ruas e rios com um senso de calor e umidade, além da desarmonia visual com que estampa a periferia da capital do Pará contando com o apoio dos figurinos. Ao mesmo tempo, há a contemplação estética da floresta, dos rios, mangues e praias. Várias cenas belíssimas em zenital que exploram o olhar de alteridade sobre o território. Tanto a direção geral quanto a fotografia constroem a cidade sem maquiagem, beirando a um caos urbano desenfreado que não possui expectativa de melhorias. E este é um grande acerto de “Pssica”, uma vez que a articulação do drama humano sobre as paragens amazônicas atestam a violência cotidiana expressa por diversos meios.
A escolha por enquadramentos criativos e as distorções, em que aparece intertítulo com o nome da série e das sensações evocadas pelos personagens, cria um espaço de tensão, encantaria e agonia. Neste aspecto, sinto que “Pssica” falha porque sacrifica um aprofundamento emocional da narrativa e acelera em momentos que poderiam ser melhor explorados. Sinto, por exemplo, que as tramas de Preá e Mariangel são ofuscadas pela de Janalice, entendo, no entanto, que o arco narrativo da adolescente seja mais pungente e emergente. Pena que as outras narrativas são frágeis diante da inquietude que os horrores da personagem de Cattete vivencia — isso porque ambas estão a serviço desta discussão maior. Admito, por exemplo, que é preciso ter o estômago forte para abstrair o impacto do episódio piloto e abraçar o gosto acre liberado no capítulo de encerramento; ambos focados em sua maioria na adolescente traficada.
Ainda assim cada protagonista isolado tem muitos aspectos interessantes a serem notados, como o destino imposto a eles tanto socialmente quanto pelo território em que caminham. Diante disso, percebe-se as feridas sociais que carregam, responsáveis por dialogar diretamente com quem assiste e provocar sensações e atitudes, que atravessam a fragilidade para encontrar a resistência em meio a um ambiente mergulhado na violência estrutural e abandono das populações ribeirinhas e daquelas que vivem às margens no contexto amazônico.
Em quatro episódios, “Pssica” é o tipo de produção difícil de digerir, em nenhum momento ela nos traz conforto ou expectativa de um final feliz; pelo contrário o destino que acomete os personagens soa mais autêntico e natural do que resoluções que nos permitissem leveza. Abraçando a Amazônia entre cenário e sujeitos estereotipados, a minissérie mostra dilemas e percalços regionais que são tão impactantes e viscerais como as tramas calcadas em localidades mais centralizadas. É preciso ser forte para assisti-la.
















Série boa, estética boa, trama boa, mas eu não gostei do roteiro…não gostei mesmo.