O youtuber Felca colocou o tema da adultização de crianças e adolescentes na internet como um assunto urgente da pauta nacional. As 45 milhões de visualizações em 11 dias deixam claro como o descontrole das redes sociais que permitiram a exposição de garotas e garotos Brasil afora provoca preocupações nos mais diversos setores da sociedade.  

“Pssica” chega neste cenário colocando holofotes para os casos de exploração sexual de adolescentes na Região Norte do Brasil. A trama acompanha Janalice (Domithila Cattete), uma garota de uma comunidade ribeirinha exposta nas redes em um vídeo íntimo feito pelo então namorado. Alvo de ataques e críticas, a jovem não encontra apoio dos pais e acaba indo morar na periferia de Belém. Os assédios continuam até que ela termina sequestrada por uma rede de criminosos.  

Com estreia marcada para o dia 20 de agosto na Netflix, “Pssica” traz paralelos com “Cidade de Deus” tanto na abordagem narrativa de um thriller de ação como na própria equipe a começar com Fernando Meirelles como produtor executivo, Fátima Toledo na preparação de elenco e Bráulio Mantovani na criação artística. 

Em meio a um elenco de nomes conhecidos como Ricardo Teodoro, Felipe Rocha e Claudio Jaborandy, cabe a Domithila Cattete, estreante no audiovisual, ser a protagonista de “Pssica”. O Cine Set conversa com a jovem paraense e ainda com Lucas Galvino, intérprete do anti-herói Preá, e da atriz colombiana Maryleda Soto que faz Mariangel, sobre os desafios de realizar a produção da Netflix ambientada no Pará:  

Foto: Aline Arruda/Netflix © 2025

Cine Set – Como foi para todos a preparação com a Fátima Toledo? Em que consistiu o trabalho e o que mais chamou a atenção? 

Domithila Cattete – Falando de forma pessoal, eu realmente gostei. Achei muito sensível, profundo e ajudo demais na construção de detalhes da personagem. “Pssica” foi a minha primeira vez no audiovisual, então, tive que mudar a expressão e olhar que aprendi no teatro. É uma outra linguagem e, por ser muito experiente, ela me ajudou demais neste processo.  

Maryleda Soto – O meu caso é interessante porque eu já conhecia a Fátima por conta de “A Terra e a Sombra”, um trabalho que fizemos na Colômbia em que também preparou os atores. Reencontrá-la em “Pssica” foi retomar estas lembranças da metodologia dela e a nossa amizade. De fato, ela possui uma forma única de chegar aos caminhos da criação. Este conhecimento prévio me ajudou a compreender rapidamente aonde ela queria chegar. O maior desafio, desta vez, foi me adaptar a este jogo dela ao idioma local. Foi uma bela experiência e os laços estão intactos.  

Lucas Galvino – Eu não conhecia a Fátima pessoalmente; apenas dos filmes que admirava profundamente. Saber que ela estaria no projeto assim como o Fernando Meirelles estaria envolvido me entusiasmou a participar de “Pssica”. Sentia que era algo forte. Me senti abraçado porque tive dificuldade de chegar perto do Préa por ele ser muito complexo. A preparação com ela foi minuciosa, enxergando coisas minhas que se aproximavam do personagem. Acabou sendo uma descoberta em que dizia aos outros que a Fátima era uma bruxa por conseguir acessar coisas invisíveis. Realmente impressionante e muito forte. 

Cine Set – Fale um pouco sobre o trabalho de corpo para viver a Janalice, afinal, a primeira resposta dela àquele assédio masculino é se encolher, ficar cada vez mais reprimida. Como é externar isso de forma tão contida para uma atriz tão nova como você? Temia que isso pudesse não chegar na tela da forma como pretendia? 

Domithila Cattete – Como atriz, o mais interessante é o arco do personagem. Isso foi algo que me chamou bastante atenção na Janalice. Sou paraense e grande parte da minha vida foi interior em Marapanim, terra do carimbo. A família da minha mãe é de lá e tenho muitas amigas na cidade também. A partir da observação e convivência, a gente sabe como é a maneira de agir das pessoas. A Janalice era muito próxima de mim. A família da Janalice é muito próxima de mim.   

Ver que ela é essa pessoa, passando por eventos em que precisa tirar essa força vulcânica de dentro dela. Janalice sabe que não pode ficar quieta, sendo necessário de agir mesmo e, ao mesmo tempo, com uma empatia e solidariedade muito grande com as pessoas que ela encontra pelo caminho. Nossa! Foi um trabalho intenso que exigiu realmente tirar tudo de mim, doar meu corpo, minha voz, minhas expressões para esse trabalho. É gratificante.  

Foto: Aline Arruda/Netflix © 2025

Cine Set – Chama a atenção como a Mariangel acaba sendo uma versão amazônica do justiceiro vingativo tão visto sendo feito por homens no cinema norte-americano. Como você vê esta adaptação deste perfil de personagem trazido para “Pssica”? Houve algum personagem clássico que você se inspirou?    

Maryleda Soto – É muito curioso porque a personagem pode ser vista como uma heroína por tudo o que ela faz ao longo da história, mas eu acho que ela não é uma heroína, e a própria María Ángel não se reconhece como uma heroína. Ela simplesmente vai se movendo de acordo com as circunstâncias nas quais, tristemente, acaba envolvida, e são essas circunstâncias que despertam a força e o poder feminino que não tem só uma personagem como María Ángel, mas que têm todas as mães. Estamos diante de uma mãe, de uma esposa que, de repente, perde tudo aquilo que era o seu universo, o seu lugar seguro, o seu lugar feliz. E tudo o que lhe foi tirado, tudo aquilo cuja perda faz a vida perder o sentido, de repente se transforma completamente e desperta nela essa força sobrenatural da qual estamos falando.   

E se é verdade que ela tem algumas habilidades conquistadas pelo seu passado, também é verdade que há outra parte que corresponde à sua natureza feminina: a coragem, a força que todas as mulheres têm e que, neste caso, por ser mãe, por ser esposa, desperta mais do que nunca.   

Para a inspiração, eu não tive uma mulher em particular; não poderia dizer “foi ela que me inspirou”, porque eu acho que María Ángel é o rosto de muitas mulheres do meu país. Infelizmente, é o retrato de muitas mulheres desmobilizadas da Colômbia. É uma história com a qual convivemos, é uma história que conhecemos, da qual eu não sou alheia. E foi todo esse universo feminino que eu conheço, que vivo no meu dia a dia no meu país, que me inspirou. Então, não é apenas uma María Ángel, são muitas Marías Ángels que foram me habitando e me dando um pouco de suas vidas. 

Há um livro maravilhoso que resume isso, porque ouvir as histórias de todas as mulheres desmobilizadas é impossível — conheço muitas por meio de documentários, mas existe esse livro, Las Mujeres de la Guerra, que reúne histórias fascinantes de mulheres que entregaram as armas e como foi a vida delas depois desse momento, e como, a partir de largar as armas, elas viveram uma outra espécie de guerra: como se envolver na sociedade, como se libertar dos estigmas. Acho que foram justamente essas histórias de vida que me inspiraram. Então, entre as histórias que conheço, as que a literatura me ofereceu, as intuições que eu tinha como atriz, como mulher, como colombiana, somadas aos olhares de todas as pessoas que ajudaram a ir tecendo o personagem, ponto de vista por ponto de vista… 

María Silva também foi fundamental no processo de criação do personagem. Ela foi minha coach de português durante todo o processo e, sobretudo, do texto, porque eu tinha que falar numa língua que não dominava, que não conhecia. Esse trabalho minucioso com o roteiro, com o texto, nos ajudou a encontrar também essa outra face de María Ángel, entende? Então, são muitos olhares, muitas referências, muitas fontes das quais bebemos para ir dando forma a essa María Ángel que, finalmente, o público vai ver em “Pssica”. 

Foto: Aline Arruda/Netflix © 2025

Cine Set – Ainda que esteja ali no meio do crime e seja o filho do chefão da área, o Préa mostra ser um pequeno alento de sanidade em meio à barbárie. A que você atribui isso? Somente ao desejo pela Janalice ou tem mais coisa? 

Lucas Galvino – O Preá é descontente e não acho que isso necessariamente tenha a ver com a Janalice. Essa insatisfação já vem com ele; talvez por ser filho do chefe, isso fica mais forte. É como se a vida dele tivesse toda traçada já, com um percurso definido do que ele vai ser e  assumir. A Janalice chega com uma virada de chave, de possibilidade de fazer diferente e viver outra vida.  

Claro que ele sabe que é uma violência tudo o que a Janalice enfrenta, mas, o Preá acredita que sair dali para viver em outro lugar com ela é o que melhor pode acontecer. É uma esperança no absurdo, sabe? De pensar como que uma pessoa que nasce num contexto totalmente violento, sem perspectiva de vida, cria esperança para seguir em frente diante do horror. 

Cine Set – Como é para você ver esta visibilidade sendo dada ao Pará e aos profissionais do Estado de mostrar seu trabalho para uma audiência global como a Netflix? O que representa para vocês? 

Domithila Cattete – A visibilidade global que a Netflix vai trazer para o Pará como um receptor que tem estrutura de receber realmente um audiovisual estruturado é muito rica. São imagens novas, vibrantes que precisam ser exploradas.  

Isso permite o surgimento de novos autores e histórias, capazes de explorar aquela região de maneira positiva para a gente. Consequentemente, acredito sim na possibilidade de vermos espaços para os atores, diretores e as equipes técnicas locais, trazendo maior investimento para o audiovisual paraense. O cinema ainda tem a capacidade de atrair interesse para outras áreas, entre elas, o turismo e projetos de desenvolvimento social.  

Nosso território muitas vezes acaba sendo bastante estigmatizado, porém, somos muitos maiores do que as caixinhas que nos colocam. Temos muitas pessoas talentosas, logo, essa movimentação de atenção para o Norte é importante demais. Por isso, sinto orgulho demais de fazer parte de “Pssica”.