Sinos tocam em uma igreja com arquitetura medieval; nas inscrições, o lema dos franceses na Revolução Francesa (século XVIII): “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. O sermão de um padre negro fala sobre perdão e Maria Madalena. Ela mesma, aquela! Enquanto isso, há um belo close na nossa protagonista, Michelle Giraud (Hélène Vincent). Seria essa simpática senhora, devota dos mandamentos cristãos, uma pecadora?

A saber…

François Ozon nos apresenta a vida calma e tranquila de uma senhora no alto de seus setenta e poucos anos: aposentada, morando em uma vila ao sul da França. Uma vida calma, solitária e silenciosa, que somente é interrompida por seus passeios com sua melhor amiga e igualmente idosa, Marie-Claude (Josiane Balasko). Tudo muda com a chegada da sua intempestiva filha, Valérie (Ludivine Sagnier), uma mulher sem paciência, amarga, em conflito com a mãe e ansiosa pela herança, e seu filho, o pré-adolescente Lucas (Garlan Erlos). Como uma boa senhora prendada, ela faz um belo banquete, incluindo os cogumelos colhidos no dia anterior com sua amiga. O que ela não esperava era que Valérie sofresse uma intoxicação pela especiaria, que quase a leva à morte. Mais um conflito entre mãe e filha, que decide voltar a Paris com o filho para o confortável apartamento que a mãe lhe deixou.

Paralelamente, Vincent (Pierre Lottin), filho de Marie-Claude, sai da prisão e, em busca de um futuro melhor, torna-se braço direito de Michelle, a ponto de interceder por ela junto a Valérie, em Paris. Mas a conversa não sai como planejado…

Ou teria saído exatamente como planejado? Um crime perfeito?

Essa é uma das tantas respostas que Ozon não responde e deixa o espectador flutuar em seu juízo de valor. Para quem não é íntimo do francês, pode estranhar um pouco o modo de direção. Mas seus clássicos como “8 Mulheres” (2002), “Swimming Pool – À Beira da Piscina” (2003) e “Verão de 85” (2020) deixam claro que ele é um dos diretores mais interessantes na ativa no eixo europeu.

E, em comparação com “Verão de 85”, sai aquele clima solar e juvenil para um clima frio, escuro e solitário da terceira idade, quando somente Michelle e Marie-Claude têm uma a outra.

Todavia, ao longo do desenrolar, o que era escuro e solitário torna-se vívido, com cores fortes, no melhor clima de outono, quando a vida de Michelle vira pelo avesso, em seu próprio benefício.

Ozon não julga as ações de nenhum dos seus personagens; todos eles (incluindo a criança) são dúbios, cheios de culpa, sofreguidão e muitas doses de manipulação em busca de um ideal perfeito para sobreviver.

Aqui o trunfo vai além da direção. O grande destaque é a sutileza e o minimalismo cênico de Hélène Vincent: tudo o que ela sente ou deixa de sentir é revelado no olhar ou em um pequeno gesto, pormenores de uma grande atriz em estado de graça, em domínio da câmera e do texto. Pierre Lottin brilha como esse homem que não sabemos se é um psicopata ou apenas mais um manipulado.

Quando Michelle começa a ver a filha, fica no ar se é um peso e culpa de consciência pela mãe que ela não foi, ou pelo que ela fez, ou se é apenas um devaneio de uma mulher idosa. Não fica muito claro, e este é o grande trunfo de Ozon: nada é entregue, tudo é reticência, com emoções abaladas pelo passado, pelo presente que se prolonga pelo futuro em pequenas mentiras e segredos que, de tão bem guardados (ou nem sempre), tornam-se uma avalanche de medos e anseios que não é possível suportar. Ou será que, com um crime perfeito, se consegue viver plenamente?

Nunca saberemos…