O icônico carteiro Jaiminho do seriado Chaves já falava que queria evitar a fadiga enquanto trabalhava. Partindo desse pressuposto, The Alto Knights: Máfia e Poder, dirigido por Barry Levinson, é um filme sobre a máfia americana que já começa fadigado e termina exaurido no retrato das relações criminosas na década de 50.
Nem mesmo a presença de Robert De Niro, figura lendária no gênero, interpretando o clássico mafioso — só que desta vez em papel duplo — consegue salvar o trabalho do viés burocrático.
Situado nos anos 1950, o ator assume os papéis de Frank Costello e Vito Genovese, dois chefes que comandam a principal organização mafiosa estadunidense após a Segunda Guerra Mundial. Outrora melhores amigos — eles cresceram e iniciaram juntos a jornada pelo mundo criminal — os ciúmes e uma série de traições os colocam em rota de colisão mortal.
Uma história ambiciosa, mas no piloto automático
The Alto Knights tem uma história ambiciosa que não deixa de ser interessante para quem conhece um pouco da trajetória de Costello na realidade, na qual seu comportamento diplomático e discreto o permitiu transitar entre os altos escalões da política e do empresariado sem atrair a atenção da imprensa.
O real problema é o roteiro de Nicholas Pileggi — roteirista de Os Bons Companheiros e Cassino, ambos baseados em livros de sua autoria — que apresenta uma história engessada e presa às próprias limitações de tempo e de gênero, no caso aos grandes filmes de máfia, deixando a disputa entre mafiosos no piloto automático.
Na verdade, o texto de Pileggi é pouco envolvente em estabelecer a dinâmica das relações de poder entre Frank e Vito, sendo uma óbvia caricatura de O Irlandês, se levarmos em conta os personagens mafiosos envelhecidos que fazem parte deste universo.
A direção do veterano Levinson, que apesar de ter no currículo alguns bons longas-metragens como Mera Coincidência e Rain Man, também pouco agrega, passando superficialmente por este mundo composto pela violência e pela corrupção, resultando em um filme pouco vigoroso e imaginativo na construção das cenas — não há nenhuma que se destaque do ponto de vista dramático ou de tensão — e nas escolhas fílmicas, como o uso da narração em off (o próprio De Niro no futuro falando sobre o passado), que faz a gente se questionar se sua utilização representa apenas preguiça ou comodidade por parte do realizador.
O que mais salta aos olhos em The Alto Knights é como Pileggi e Levinson desperdiçam as nuances dos personagens ao realizarem uma leitura particular daquele mundo sem a mesma vitalidade ou fascínio que o cinema de máfia exige. Os acontecimentos, ambientações e as relações se acumulam em situações previsíveis. A embalagem dramática que move o conflito central entre os dois antagonistas se desenvolve sem qualquer profundidade em torno dos sentimentos de Frank e Vito nas relações profissionais e até mesmo na vida pessoal com suas respectivas esposas.
Atuação dupla de De Niro dá uma certa dignidade ao filme
Mesmo longe das suas grandes atuações, é De Niro quem nos mantém conectados com a proposta do filme, seja por meio do humor explosivo nas ações intempestivas de Vito (que valorizam a performance do ator, mesmo debaixo de uma forte maquiagem), seja no carisma em construir os valores e o senso moral de Costello, mesmo que em ambas as atuações, tudo se resuma a meras imitações do que ele fez costumeiramente bem em sua carreira.
É interessante que, ao interpretar Frank e Vito, o ator dê uma cara própria a cada uma das personalidades. Em relação ao primeiro, ele o humaniza a partir do estilo sóbrio nas articulações estratégicas dentro da família mafiosa, lembrando Jimmy Conway e Sam Rothstein, vividos, respectivamente, por ele em Os Bons Companheiros e Cassino. Já quanto ao segundo, o estilo temperamental e impulsivo remete ao seu Capone de Os Intocáveis, envernizado com algumas características de Tommy e Nicky, os dois personificados pelo amigo Joe Pesci nos citados filmes de Scorsese.
É verdade que não há ineditismo na atuação nem um desafio maior para o ator, mas isso mostra De Niro se divertindo ao repetir seus trejeitos, além de conferir um toque teatral interessante ao trabalho.
The Alto Knights: Máfia e Poder acaba se tornando um filme de máfia com um ar anacrônico, cujas diversas referências ao cinema de gângster não proporcionam nada de realmente original. É uma obra incapaz de lidar com sua história ambiciosa e recontá-la de outra maneira que não seja de um jeito cômodo, focado exclusivamente em não produzir qualquer tipo de fadiga. Já vimos esse tipo de história contada infinitas vezes no cinema americano, e de formas bem mais criativas.














