Franquia interessante, essa “Resident Evil“. Começou humildemente, em 2002, com o que era essencialmente um filme de mansão mal-assombrada sci-fi. Depois vieram dois longas chinfrins, até que o diretor do filme original, Paul W. S. Anderson, retomasse as rédeas da série com três obras extremamente idiossincráticas. Eram filmes por vezes frustrantes, mas sempre de interesse — e, no caso de “Resident Evil: Retribuição“, quinto título da série, também pungente e singular.
E então, um reboot: “Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City” trocou a ação dos filmes de Anderson pelo terror à la “Silent Hill“, para citarmos outra adaptação de um famoso jogo de survival horror. Johannes Roberts, então o nome atrás das câmeras, emprestou certa elegância soturna ao longa, mas a trama, também de sua autoria, era das mais desinteressantes. O filme rapidamente perdia o fôlego.
De todo modo, era um projeto marcadamente distinto dos que o precederam. O que nos traz a este novo “Resident Evil“, igualmente distinto em uma franquia já cheia de discrepâncias. A bola da vez é Zach Cregger, nome que talvez você já conheça: ele é, depois de rodar “Noites Brutais” e o oscarizado “A Hora do Mal“, a voz autoral do momento no terror. E sua sensibilidade impregna cada fotograma deste “Resident Evil” — para o bem e para o mal.
Comecemos pelo que há de bom: Cregger é quem melhor se aproxima da atmosfera de sobrevivência dos games clássicos. Da tensão de explorar corredores escuros à dificuldade de encontrar munição, o filme traduz muito bem o horror de estar sozinho ante uma ameaça incompreensível.
A primeira metade da trama gira toda em torno dessa solidão: Bryan (Austin Adams), espécie de entregador de órgãos para transplante, precisa entregar um pacote misterioso em Raccoon City. Que as coisas saiam do controle é o que qualquer um espera, mas o modo como Cregger habilmente estrutura essa porção do filme como uma comédia de erros é o que nos pega de surpresa.
Não é preciso descrever a sucessão de eventos que leva Bryan ao encontro dos mais diversos monstrengos, e que eleva o patamar do horror corporal na franquia. O importante é que, de tropeço em tropeço, o rapaz desponta como sobrevivente improvável — e, nesses momentos, é a primeira vez que o humor já característico de Cregger finalmente é bem empregado.
Porque há uma certa presunção em seus projetos — e que também contamina este “Resident Evil”, veremos — que aproxima suas frequentes piadas do insuportável. Com Cregger, frequentemente temos a impressão de que o humor é apenas uma desculpa do cineasta para chamar atenção a si mesmo. “Olhem só o que estou fazendo”, ele parece dizer. “Bem louco, não?”
E, no entanto, como Bryan é estúpido, mas afável, e como ele involuntariamente foi posto em uma comédia de horror, importamo-nos com ele: cada obstáculo cômico só aumenta o desespero da situação. Mas os problemas logo começam a surgir: é que Cregger não tem o controle tonal que acredita ter, o que compromete radicalmente a segunda metade da projeção.
O ponto de virada é a entrada em cena de Paul Walter Hauser (inocente, como sempre), vivendo o cientista falastrão responsável por, acidentalmente, dar a partida no apocalipse. Daí em diante, o filme redobra o volume de piadas, neutralizando todo o horror que vinha sendo construído até então. Cregger chega ao cúmulo de trair a lógica interna dos personagens por risadas fáceis, como quando, lá pelas tantas, o até então ordinário e vulnerável Bryan arrisca (com sucesso) um mata-leão em um zumbi.
O resultado é um filme sem peso, que se contenta em neutralizar cada momento horrorífico com uma tirada sarcástica. É uma linha tênue, a que separa a comédia do terror, e Cregger tem demonstrado, filme após filme, que só tem a oferecer a ironia fácil, esse distanciamento espertinho em relação ao próprio material. O já característico ziguezague das suas tramas — e que aqui é arrefecido, é verdade — cada vez mais se confirma como uma mera distração, um subterfúgio para abafar o fato de que o sujeito não tem lá muito o que dizer.
O mais frustrante nisso tudo é que o diretor claramente tem controle técnico e imaginação formal — aqui, todo o uso da lanterna do celular ou dos faróis dos carros nas sequências noturnas ilustra isso muito bem. Mas o que separa Cregger de, para fazermos uma comparação ingrata, um Sam Raimi da vida é que Raimi realmente parece feliz em te fazer rir e gritar de medo. Já Cregger parece apenas querer que você note que ele te fez rir e gritar.
Digam o que quiserem da estupidez dos “Resident Evil” de Paul W. S. Anderson (e eles eram mesmo muito estúpidos), mas seus filmes possuem uma pureza quase comovente se comparados a este novo título. É que o trabalho de Cregger se resume a tentar provar a qualquer custo o tamanho do seu cérebro. Isso pode até ser o bastante para seus zumbis famintos. Mas fica faltando o coração.















