Para ler ouvindo:
“Sexo é natural, sexo é bom/nem todos fazem, mas deveriam/sexo é natural, sexo é divertido/sexo é melhor quando é (um em um)”, canta George Michael na canção que abre esse texto. Entre os diversos fatores que pressupomos entender sobre o tema, o sexo é tão natural, tão comum que assusta, nos dias de hoje, ainda ser considerado tabu.
É nesse compasso da liberdade sexual – ou a apatia sexual –, que Gregg Araki volta aos cinemas depois de mais de 10 anos se dedicando a televisão. Reconhecido por traduzir a juventude perdida em busca de algo que faça sentido denominado “Teen Apocalypse Trilogy”, lá nos anos 1990, o diretor retorna com o sangue pulsando em veias saltitantes para dar um recado: façam sexo e se descubram!
Mais do que trazer uma breve sinopse do filme, é preciso compreender que Araki, como em toda a sua extensa carreira, não está pedindo desculpas aqui. Ele, mais uma vez, aponta para um problema coletivo que está para além de uma mera opinião de, agora, um homem gay de meia idade.
Em síntese, Elliot (Cooper Hoffman) é um jovem desajeitado e desempregado que consegue um estágio na galeria de arte conduzida pela artista excêntrica Erika Tracy (Olivia Wilde), a partir daí inicia uma relação problemática entre poder, humilhação, dominação e, claro, sexo.
O choque geracional fica claro entre o jovem da geração Z e a mulher dominatrix millennial. Se outrora havia um certo hedonismo, como Erika Tracy aponta, no que tanque o sexo, hoje em dia, há muito conservadorismo entre os jovens que não buscam mais se conhecer através do mesmo. E sejamos sinceros, é uma onda cada vez mais crescente, se pensarmos no Brasil de 2026 em que grande parte dos jovens estão nessa vertente conservadora lobotomizados pelo neopentecostalismo. A indústria também vem sofrendo, basta procurar na internet diretores falando de cortes de sexo dos seus filmes para agradar uma plateia cada vez mais careta. E isso se reverbera aqui também, uma breve checagem no X nos comentários de cenas de cunho sexual em filmes e novelas corroboram com todo um clima cada vez mais pudico. Ou falsamente pudico, porque sabemos muito bem que a hipocrisia existe. Lembram do clipe “If You Seek Amy” da Britney Spears? Pois bem!
Em seus filmes, Araki sempre exaltou a cultura queer e aqui não seria diferente. Aos olhos dele, as pessoas que se reconhecem como tal estão são mais adeptas do amor livre, orgias ou sexo casual por se reconhecerem como são ou compreenderem que no final do dia, sexo é apenas sexo, não há promiscuidade quando há desejo e quando essa libido é mútua e se faz necessária até mesmo para entender o seu corpo e os seus limites. Nesse sentido, o personagem do Mason Gooding, um jovem negro e livre chama atenção por representar esse contexto, embora pense que sua participação poderia ser bem maior que apenas usar frases de efeitos e caras e bocas.
Outra questão que, ao meu ver, foi falha é o mistério que inicial do filme. Pela trajetória narrada, foi uma decisão que, confesso, me causou frustração. Penso que não foi o caminho mais acertado. Contudo, compreendendo sempre que Araki também questiona o poder e os limites da arte enquanto performance na vida quando um se mistura como outro de alguma forma. Desenvolvi melhor esse tema em outra crítica para o filme “Arte, Amor e Ilusão” (2003).
Em termos técnicos, as cores fortes e primárias estão ao longo filme, quase como um personagem à parte, bem como diversos pênis e consolos. A fotografia e trilha sonora estão em consonância, infelizmente não posso dizer isso da edição que em momentos interessantes corta para a cena seguinte e isso interfere em uma experiência mais, digamos, prazerosa.
A dupla protagonista é um show à parte. Cooper Hoffman brilha nesse jovem desengonçado, mas quem direciona o filme é Olivia Wilde atestando um excelente ano para a sua carreira. Sua Erika Tracy é sexy, pretenciosa, patética, ultrajante e com a libido em máxima potência de uma mulher que está no auge da criatividade, sensualidade e quereres. Certamente, está entre as melhores performances da atriz.
Passados todos esses anos longe da sétima arte, Gregg Araki voltou em forma, mais afiado do que nunca apontando para o puritanismo juvenil, uma das sequências finais clean atesta essa espécie de manifesto. Alguns podem pensar que é um filme daquele clássico tiozão falando “ah, no meu tempo era melhor!”, e pode ser isso mesmo, mas ele também analisa que sexo não é apenas o ato em si, há jogos de sedução envolvidos e que de forma desmedida também pode trazer consequências mais graves. E sexo também é proteção, afinal.
I Want Your Sex é o filme mais pop de Gregg Araki, as referências em “Crepúsculo dos Deuses” e “9 ½ Semanas de Amor” reafirma esse lugar pop, de um diretor antenado, consciente e que não quer ser corrompido por um falso moralismo que impera a sociedade, especialmente aqueles que deveriam estar se divertindo e curtindo os seus corpos.















