Uma história de amor e memória, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, novo filme de André Novais Oliveira, desafia expectativas e convida seu público para uma jornada ao desconhecido. Recebido calorosamente na mostra Panorama da Berlinale desse ano, onde teve sua estreia mundial, o longa faz ternas considerações sobre casais na terceira idade e sobre as histórias através das quais eles confrontam a finitude.

Ele faz isso voltando sua lente para Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e Jacira (Conceição Evaristo) em dois momentos de suas vidas: o primeiro, no desabrochar de seu amor adolescente nos anos 1970, e o segundo, nos anos outonais de sua vida de casal no dias de hoje. Unindo os dois períodos, estão seu carinho e cumplicidade, o dia-a-dia da cidade de Contagem (MG)… e a sensação estranha de que extraterrestres podem estar por perto.

É curiosíssima a escolha narrativa do roteiro de trazer esse elemento fantástico para um filme que, em outras mãos, poderia ser uma dramédia naturalista. De fato, em sua primeira metade, assim que a trama entra nos anos 2020, as picuinhas e sincericídios que pontuam o cotidiano do casal fornecem material cômico de primeira linha, como na cena em que eles vão ao médico.

Nesses momentos, o longa vibra com a performance de Conceição, célebre escritora mineira que estreia de forma hipnotizante na atuação no papel de Jacira. Seu timing nessas cenas é tão certeiro que só resta ao público manifestar um projeto que a coloque em cena com Tânia Maria – a atriz revelação de “Bacurau” e “O Agente Secreto” (algo que, inclusive, o Cine Set mencionou durante uma conversa com o diretor na Berlinale).

No entanto, o centro emocional da produção fica ao encargo de Norberto, cujo Gilberto é o fio que atravessa tempo e espaço buscando fazer seu amor pela mulher resistir a tudo, inclusive à morte. Quando o filme dá uma guinada que vai lentamente tornando-o uma ficção científica em sua segunda metade, é através de seus olhos que o filme mostra os vários estágios de negação que o levam a olhar para os céus à procura de respostas.

Filme de André Novais. Filmes de Plástico.

André merece todo o crédito por levar a cabo não só uma, mas várias mudanças tonais, que, de certa forma, refletem o estado de espírito de seu protagonista. Conforme ele vai perdendo seu senso de segurança, os elementos ao seu redor mudam – algo reforçado pela progressiva instabilidade que a trilha da banda de jazz Metá Metá vai imprimindo nas cenas. Juntando todas as peças, Gilberto se torna um narrador não confiável, sobrando para o público separar verdades e mitos.

“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” fala de morte, mas o faz de uma maneira muito viva e instigante. Ele trilha um caminho sinuoso e pede extrema atenção, entregando, em troca, um conto sobre luto tocante e original. Há algo de universal em um homem que, em sua hora mais escura, busca qualquer luz para sua vida – mesmo aquela vinda de um disco voador. A verdade pode estar lá fora, mas a dor está aqui dentro.

 

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Filme visto durante a cobertura do Festival de Berlim 2026

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