Quem é das antigas, com certeza, vai lembrar do cult erótico francês Emmanuelle, dirigido por Just Jaeckin na década de 70. O filme foi um sucesso de bilheteria, transformou a holandesa Sylvia Kristel (1952-2012) em musa erótica, gerou polêmicas mundo afora e estabeleceu as bases do soft porn que se alastraria pelo cinema daquela época e da seguinte ao propagar a libertação sexual e o amor livre como preceitos necessários para questionar os tabus sociais conservadores da época, abrindo um espaço de diálogo sobre como a sexualidade poderia ser discutida na sétima arte.

Na obra em si, não faltavam cenas provocativas: masturbação, promiscuidade, relações sexuais com estranhos em locais públicos, incluindo um avião e até mesmo experiências não consensuais como estupro. Com passar do tempo, a série se transformou na fantasia de um bando de marmanjo brasileiro no finado Cine Privê da Rede Bandeirantes entre meados de 1990 e 2000 devido as várias continuações e spin-offs que surgiram a partir do original e que ajudaram a fomentar a carga sexual erótica.

Exatamente cinco décadas depois, chega a vez de uma refilmagem em inglês, embora a direção, o roteiro e o protagonismo sejam franceses. Audrey Diwan, responsável pelo ótimo drama O Acontecimento, dirige o filme, enquanto Noémie Merlant, do belíssimo Retrato de uma Jovem em Chamas, interpreta a personagem título. O roteiro é de Diwan em parceria com a cineasta Rebecca Zlotowski, de Prima Sofia.

Releitura que segue um caminho diferente do original

Na nova versão, Emmanuelle (Merlant) é uma inspetora conceituada a serviço de uma rede hoteleira que viaja para Hong Kong a fim de avaliar os serviços do estabelecimento local, gerida por Margot (Naomi Watts), administradora do hotel. No local, ela conhece um hóspede misterioso, o engenheiro Kei (Will Sharpe, do recente A Verdadeira Dor) que aguça a sua curiosidade sexual assim como a garota de programa Zelda (Chacha Huang) que a instiga a redescobrir o próprio desejo.

Vejo méritos na direção de Audrey em fugir do erotismo explícito do original para enveredar pela dinâmica emocional da protagonista interpretada com maestria por Noémie Merlant, explorando cada nuance das suas motivações e desejos. Se o estudo da personagem no filme de 1974 era a principal limitação dele, nesta nova versão, a direção dá conta do recado ao valorizar cada plano com uma decupagem elegante e impecável, que filma de muito perto o corpo e o desejo feminino, ajudando a desenvolver temáticas contemporâneas no que diz respeito à globalização, vazio existencial, solidão e prazer.

É interessante o quanto a produção se distancia por completo do original, pouco preocupada em reproduzir o contexto sexualizado e fetichista da obra de Jaeckin. A ideia aqui é fazer um distanciamento cirúrgico dos pontos em comuns entre os dois longas com a nova versão extraindo um olhar de emancipação da sexualidade feminina ao trazer a complexidade da protagonista por meio da sua autoafirmação mediante a celebração da liberdade do corpo – assunto mostrado pela diretora em O Acontecimento – deixando de lado o romantismo ingênuo do trabalho de 74.

O que acompanhamos na jornada de Emmanuelle é a investigação pela aceitação do seu desejo sexual, algo que o texto de Diwan e Zlotowski enfatiza na questão do consentimento que ela utiliza nos relacionamentos com seus potenciais parceiros(as) sexuais. O filme meio que tira o foco da mulher objeto sexualizada, a colocando como objeto de seu próprio desejo.

Narrativa frívola

Contudo, a principal qualidade da Emanuelle do século XXI é também o seu elo frágil: apesar de seguir um caminho oposto, é um trabalho que carece de uma substância mais emocional para aprofundar suas ideias de sexo e voyeurismo. São poucos momentos que Diwan consegue injetar vibração ou carnalidade em um filme demasiadamente frio.

Acaba por ser tímido demais na sua exploração, com um discurso deveras aborrecido e que peca pela dramaturgia intimista a que se propõe, ao estruturá-la a um formalismo cerebral que retira qualquer resquício de exercitar as metáforas do jogo de sedução e do próprio voyeurismo em questão.

A impressão é que a produção visa revestir a dimensão erótica numa profundidade “filosófica” que parece um amontoado caricatural de clichés, deixando de lado os olhares sobre sexo, desejo e erotismo.

Noémie Merlant, carrega sozinha o filme nas costas, com uma atuação que cadência bem a curiosidade de Emmanuele com a própria insegurança. E isso acontece porque o próprio texto pouco aprofunda as personagens a sua volta: Chacha Huang tem seus momentos pontuais, mas desaparece por completo em certo momento; Will Sharpe nunca foge do estereótipo do oriental misterioso e Naomi Watts praticamente tem uma personagem que é uma mera paisagem em cena.

Acaba que, no fundo, o novo Emmanuelle frustra por lançar indagações inquietantes (o que provoca a excitação? Qual é o poder do desejo no comportamento humano?) que nunca consegue responder na prática. Desperdiça parte deste debate ao se prender a um discurso feminista e politizado que também não se revela relevante na proposta elencada. O original, com toda a sua mensagem sobre a força do desejo subjugando a razão, na tentativa de levar a descoberta do prazer, mesmo envelhecido pelo ponto de vista masculinizado, se mostra mais efetivo e prático do que a nova versão.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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