Depois de dois episódios mornos para abrir a temporada final, o nível em The Boys sobe com este terceiro episódio, intitulado “Cada Um de Vocês Filhos da P***”. Pode não ser um episódio agitado e cheio de ação e para os padrões da série ele é até um pouco sério – só um pouco. Mas o ótimo roteiro faz uma interessante preparação de terreno para futuros desenvolvimentos.
Primeiro, o que não funcionou tão bem: o Capitão Pátria (Antony Starr), em seu delírio messiânico, chega a ter uma visão angelical da sua “mãe”/antiga chefe/paixonite Madelyn (marcando a volta de Elisabeth Shue à série), a quem ele matou. E agora ela o convence de que ele está no caminho certo e é maior que Jesus. É uma cena ridícula, claro, no estilo de várias outras de The Boys, mas uma que fica com aspecto de clichê dramático. Personagem vilanesco tendo visão de uma figura materna ou algo parecido é um tropo muito usado, então vamos ver como isso vai se desenvolver nas próximas semanas.
Pelo menos essa cena resultou em outra também ridícula, mas tão absurda que funciona: a conversa entre Soldier Boy e Capitão Pátria com este relaxando dentro de uma banheira de leite materno, roubado de um hospital. Jensen Ackles e Antony Starr transformam a bizarrice num momento genuinamente engraçado.
Falando no Soldier Boy: como pudemos ver no final do episódio anterior, ele não morreu. Por ter obtido seus poderes com uma versão antiga do composto V, ele é imune ao vírus. A descoberta inicia uma corrida por possíveis amostras restantes da fórmula do V1, o que leva os Boys a reencontrarem Stan Edgar (Giancarlo Esposito, outro do elenco retornando à série). E no meio do caminho, Bruto (Karl Urban) reencontra Ryan (Cameron Crovetti), e fica de novo aquele clima estranho entre os dois. Bruto usaria o rapaz para matar o Capitão Pátria, seu pai biológico? Claro que sim, e até tenta convencê-lo a fazer isso. Não deixa de ser um drama requentado que a série já abordou, mas aqui funciona, principalmente pelos atores que conseguem vender bem a situação.
É um episódio de pessoas descobrindo a verdade sobre outras, os seus motivos ulteriores: o roteiro bem amarrado de Ellie Monahan traz Ryan confrontando Bruto, e depois seu pai; e o filho do Translúcido – que também é invisível – descobrindo a verdade sobre a morte do seu pai, ocorrida lá atrás, e confrontando Hughie (Jack Quaid). Personagens mentem, depois são descobertos e precisam arcar com as consequências das suas mentiras, que às vezes vêm de ingenuidade, no caso de Hughie, ou de fontes mais sinistras, no caso dos outros personagens.
Desenvolvido sem pressa, o episódio traz uma cena forte entre Stan e Leitinho (Laz Alonso), e uma aproximação engraçada entre Soldier Boy e a Espoleta (Valorie Curry). Ackles realmente vai ser um ladrão de cenas nesta temporada? Veremos… Mas nos últimos dez minutos, o sangue corre solto no estilo The Boys, com uma cena grotesca e outra realmente poderosa e chocante, que provoca ansiedade pelo próximo episódio. Particularmente, já fazia um tempinho que The Boys não me despertava essa sensação…
No meio do caminho, a Kimiko (Karen Fukuhara) falante já se torna mais aceitável – ela faz muitas referências a vídeos pornôs – e aparecem alguns personagens que, segundo minha pesquisa, são da série derivada Gen V. É uma dose de fanservice para quem embarca no universo The Boys, mas a falta de familiaridade com o derivado não atrapalha a compreensão deste episódio.
E o episódio ainda lança duas falas caprichadas no cinismo, que ficam na memória em duas diferentes cenas: Bruto diz a Ryan que “sem superpoderes, o mundo seria um lugar melhor”, e Leitinho, ao avaliar as condições da morada de Stan, diz “o 1% deixa o mundo pegar fogo, e depois assiste ao incêndio de dentro dos seus bunkers de luxo”. A acidez é típica de The Boys, e felizmente dessa vez ela veio embalada num episódio com surpresas, que puxa o tapete dos protagonistas, e o faz com inteligência e um bom trabalho de caracterização. The Boys pode ter ficado famosa pelo humor irreverente e grotesco, mas alguns dos melhores momentos do seriado aconteceram quando ele se concentrou no drama, e este episódio é mais uma prova disso.













