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Com uma digitalização realista e uma colorização deslumbrante, Scarlet (2025), a nova animação do estúdio Shizu, dirigida por Mamoru Hosoda, demonstra rigor técnico aliado a uma ambientação fantástica digna de grandes sagas heroicas. Inspirado em Hamlet, o longa narra a história da personagem-título, uma princesa que presencia a morte do pai, vítima de uma conspiração arquitetada pelo tio Claudius para tomar o poder do reino. Posteriormente, ela cai em uma armadilha e é assassinada pelo mesmo regicida.

No entanto, Scarlet desperta em uma espécie de submundo, onde vivos e mortos vagam em busca de respostas e sobrevivência. Ao descobrir que foi vítima de um atentado, a princesa promete retornar para fazer justiça e vingar a morte de seu pai. O filme, que estreou na 82ª edição do Festival Internacional de Veneza, marca o retorno de Hosoda à direção após os premiados Mirai (2018) e Belle (2021).

De imediato, um dos grandes méritos da animação que se destacam é seu visual: Scarlet apresenta gráficos apurados que constroem uma atmosfera ao mesmo tempo realista e expressiva. Além disso, o uso das cores merece destaque por não ofuscar personagens e cenários; ao contrário, o tratamento cromático reforça ainda mais o conteúdo em tela. Isso explica, em grande parte, o longo período de produção, de mais de quatro anos. É notório o trabalho detalhista na composição das imagens, o que reforça a ideia de um filme pensado para ser visto nos cinemas – ou em telas que valorizem ao máximo sua definição –, resultando em um verdadeiro espetáculo tecnicolor.

Entretanto, a mesma preocupação que parece ter sido central na construção visual mostra-se insuficiente quando aplicada à narrativa. A história da princesa-guerreira é permeada por clichês e por personagens pouco desenvolvidos. Esse é, inclusive, o principal problema de Scarlet, pois vários personagens demonstram potencialm as terminam com participações reduzidas a meros objetos de conflito ou muletas emocionais para a protagonista.

Um exemplo claro é o coadjuvante Hijiri: embora apresente relevância no primeiro ato, como o companheiro de jornada e (possível interesse amoroso) que acompanha Scarlet pelo deserto purgatório em busca de respostas, o personagem é posteriormente negligenciado pela narrativa. Seu arco é concluído de forma simplista e pouco orgânica. Para agravar a situação, a relação entre ele e Scarlet carece de desenvolvimento, o que dificulta qualquer conexão emocional por parte do espectador. Assim, determinadas escolhas no desfecho soam forçadas e parecem recorrer a um impacto dramático que não se sustenta no conjunto da obra.

A direção de Mamoru Hosoda, por sua vez, merece reconhecimento: indicado ao Oscar por Mirai (2018), o cineasta reafirma seu talento ao conduzir sequências de ação dinâmicas, bem coreografadas e visualmente impressionantes, em sintonia com o refinamento estético do filme. Em determinados momentos, a encenação remete a grandes batalhas épicas, evocando a grandiosidade de conflitos vistos em O Senhor dos Anéis, especialmente pelo uso de enquadramentos em escala macro que ampliam a dimensão do mundo e do embate. Em contraste, Hosoda também sabe quando recuar e adotar uma abordagem mais intimista: algumas cenas destacam Scarlet de forma mais pessoal, aproximando o espectador de sua subjetividade e reforçando sua condição emocional.

A elaboração dos figurinos também se destaca pela riqueza de detalhes, sugerindo histórias ocultas e um universo mais amplo. Ainda assim, essa dimensão visual não encontra o mesmo nível de desenvolvimento na construção dramática. Uma pena que nenhum desses personagens alcance a profundidade necessária para fazer jus aos seus respectivos avatares.

No fim, Scarlet evidencia um certo descompasso entre sua ambição estética e sua construção narrativa. Embora alcance momentos de grande beleza visual e imponha um universo rico em detalhes, o filme não consegue traduzir esse mesmo cuidado na elaboração de seus conflitos e personagens. Há uma clara dedicação à forma, àquilo que se vê e impressiona de imediato, mas que não encontra o mesmo respaldo na base dramática da história. O resultado é uma experiência que impressiona os olhos, mas encontra dificuldades para envolver emocionalmente — deixando, ao final, a sensação de que há mais aparência do que substância.

Autor

  • Formado em administração, mas com paixão pelo audiovisual, música e literatura. Caça filmes coming-of-age, scifi e suspense. Apaixonado por animações, principalmente em stop motion. Busco me qualificar e buscar cada vez mais minha identidade artística, tentando sempre aprender mais sobre os mais variados campos da arte. Támbém com a missão de ser um bom tecladista/pianista quanto Sebastian foi em "La La Land"

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