Para além da fofura e leveza, Vida de Inseto, clássico da Pixar de 1999, sempre carregou por baixo uma discussão bem clara sobre classe operária e exploração do trabalho. Quando se olha para Pinóquio, essa nova versão russa de 2026, dá pra perceber um movimento parecido. Mesmo sendo um filme de fantasia musical, revisitando uma história já explorada inúmeras vezes, principalmente dentro de uma lógica mais americanizada, aqui ele ganha outro peso, com uma leitura mais atravessada por tensões sociais e pelas contradições do capitalismo.

Por mais que tenha uma estética mais sombria, mostrando Pinóquio e outros personagens sendo explorados pelo chefe Karabas Barabas (Fedor Bondarchuk) que só quer lucrar em cima deles, o filme não abandona o tom infantil. Isso cria um contraste curioso: ao mesmo tempo em que se aproxima de temas mais pesados, não se aprofunda tanto. Esta sensação vem da estética teatral, dos cenários, dos deslocamentos rápidos, blocando a trama quase como atos de uma peça com pouca passagem de tempo entre uma situação e outra.

Quando Barabas passa a agir de forma mais ativa como vilão, o filme atinge o ponto mais forte de sua intenção: Pinóquio rompe com essa relação após o confronto e o que antes já era sugerido se escancara. Desta forma, temos uma dinâmica baseada na exploração, onde o lucro se concentra nas mãos de quem não produz, enquanto outros passam fome. Sem o personagem que sustentava o espetáculo, resta ao próprio antagonista tentar ocupar esse lugar. Ele sobe ao palco, imita, repete os gestos, tenta recriar o número, mas falha, é vaiado, e a cena ganha um tom constrangedor e engraçado. Pinóquio não precisa explicar muito além disso, evidencia quem de fato fazia aquilo funcionar e expõe, de forma direta, o desequilíbrio entre quem trabalha e quem fica com o lucro.

Além disso, tem uma questão de tom que o filme nunca resolve completamente transitar entre o lado mais lúdico, quase ingênuo, e uma abordagem mais pesada, mais simbólica. Infelizmente, o diretor Igor Voloshin fica longe de conseguir equilibrar bem essas duas coisas. Em alguns momentos, parece que está construindo algo mais profundo, mais voltado para esse comentário social, e em outros volta para uma condução mais simples, quase episódica. Isso acaba reforçando essa sensação de distanciamento, porque o filme não decide exatamente como quer ser percebido, e o resultado fica irregular, como se fossem ideias boas que não se conectam totalmente dentro do mesmo universo.

No mais, as cenas musicais, muitas delas releituras da versão de 1975 dirigida por Leonid Nechaev, até ajudam a criar uma identidade, mas o filme acaba se apoiando muito mais nessa veia de crítica social do que no resto. E isso funciona até certo ponto, porque é, de fato, o que ele tem de mais forte. Só que as outras camadas ficam meio de lado, a relação do Gepeto com o Pinóquio, os próprios personagens do teatro que estão ali sendo explorados, tudo isso não ganha muito desenvolvimento, e fica difícil se envolver de verdade. O universo, que já tem esse tom mais teatral e meio estranho, acaba criando mais distanciamento do que aproximação. Fica uma sensação constante de estranheza, que não sei até que ponto conversa com o público infantil. É um filme com uma crítica social forte, clara, interessante, mas que falta substância para fazer o público realmente embarcar na história e nos personagens.

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