Ao final da sessão de “Eddington” no Teatro Debussy, em Cannes, aplausos e vaias ecoaram na mesma proporção. Isso ajuda a explicar os sentimentos mistos provocados pelo novo trabalho do diretor Ari Aster. Eu mesmo, que só gosto da sua estreia, “Hereditário”, saí da sessão com um elefante atrás da orelha, sem saber se gostei ou não, preferindo seguir o estilo Glória Pires de não querer opinar naquele momento.
Depois de digerir melhor as emoções, posso dizer que “Eddington” é um filme que instiga emoções díspares, daquelas que você ama ou odeia, meio que não existindo um meio-termo para isso. Pessoalmente, saí da sessão com um sentimento de ter me divertido (até mais do que esperava) com a proposta de sátira social, de traços de paranoia pura vendida pelo cineasta.
Diferente da proposta pretensiosa (e fadigada) de “Beau Tem Medo“, aqui todo o cinema exagerado de Aster encontra uma maneira melhor de fluir – mesmo com alguns problemas que comentarei logo mais – dentro da sua ambição, que se revela mais objetiva e desafiadora em explorar o espiral de violência que seu texto propõe.
Ao partir de uma disputa pela prefeitura de uma pequena cidade interiorana dos EUA (que dá título ao longa) durante a época da pandemia da Covid-19 – a história se passa em maio de 2020 – entre o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix, ótimo) e o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), Aster municia o seu filme com uma sátira interiorana ferrenha da sociedade americana pandêmica.
Se “A Vila”, de M. Night Shyamalan, é uma metáfora sobre o 11 de Setembro, “Eddington” é a versão cinematográfica deste contexto pós-pandemia e que reflete um país cada vez mais caracterizado pelas divergências ideológicas. A impressão é que o cineasta utiliza a pegada de sátira moral dos Irmãos Coen sobre o americano texano que está sempre em posição diminuta diante da natureza social implacável (você sente uma vibe de “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “Fargo” nas entrelinhas da obra) para articular, auto conscientemente, as matrizes de gêneros como o noir, Hitchcock e o horror, mostrando uma adesão apaixonada e sincera por cada um desses imaginários.
Eu gosto, particularmente, desse olhar atrevido e desencantado sobre os EUA, focado no estado puro de uma espécie de psicose compartilhada pelos cidadãos americanos. O texto é uma metralhadora giratória alucinada que direciona sua crítica ao governo Trump, ao perigo das redes sociais, ao racismo velado no caso de George Floyd (o Black Lives Matter), acontecido em 2020, e até mesmo aos falsos religiosos personificados no personagem de Austin Butler.
É interessante o modo como Aster monta essa rotina pandêmica com muita acidez na primeira metade, para depois estabelecer pequenos eventos cotidianos que vão dar combustível aos desencontros e conflitos que estabelecerão o ciclo de violência que culmina no clímax.
No fundo, é uma história de homens se matando em meio à dialética atroz da perda da humanidade, onde o foco principal – a emoção guiada pelo ódio, intolerância e paranoia – ganha importância para as decisões tomadas pelo protagonista de Phoenix. Aster transforma seus 40 minutos finais em um puro filme de terror, com ecos de faroeste macabro tão insano quanto demente, que trazem um senso de diversão bem apurado à obra.
Essa parte final também se destaca no visual e na sonoridade, com o diretor mantendo sua estética refinada – que já acontecia até nos filmes que não me agradaram, como “Midsommar” e “Beau Tem Medo” – por meio de planos abertos que provocam uma ótima sensação de tensão nas cenas de perseguição.
Agora, como debate social, “Eddington” tem muitos altos e baixos. Primeiro, por desperdiçar o elenco coadjuvante, com os personagens de Emma Stone e Austin Butler sem qualquer serventia para a narrativa. Segundo, pelo grande número de temáticas que também não ganham a profundidade necessária que o diretor imagina e que dispersam o ritmo da narrativa.
E, nesse contexto, Joaquin Phoenix tem uma grande atuação no papel de Joe e ajuda a compensar os baixos do filme a cada minuto em que aparece – e que, graças a Deus, são quase 80% da obra.
No fundo, dá para entender quem vai odiar “Eddington”, até porque Aster força ao máximo para que a gente morda a isca dessa face horrorosa da América. Mesmo irregular, é uma declaração divertida das ansiedades do cotidiano que vêm à tona de maneiras nada bonitas e que revelam a ferida de uma sociedade em decomposição. Ame ou odeie, “Eddington” é uma marretada exagerada e perturbadora na essência da sua anarquia.












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