Assistir “Deadpool & Wolverine” me fez lembrar da minha bisavó. Convivi com Dona Leontina, nascida no início do século XX antes mesmo do naufrágio do Titanic, até os meus 12, 13 anos. Minha brincadeira preferida com ela era soltar um sonoro palavrão do nada. “MENINO, ONDE VOCÊ TÁ APRENDENDO ESTE TIPO DE COISA?!”, dizia ela seguida de um riso. Aquele momento representava para mim uma transgressão, afinal, do alto dos meus 8, 10 anos, acreditava que isso mostrava que o Caio criança estava indo embora para dar lugar a uma versão mais rebelde, capaz de chocar os mais velhos. Tolinho…
Deadpool chega ao bom mocismo da família Disney e Marvel no mesmo tom: como um garoto dizendo “ei ei estou falando e fazendo barbaridades”, a falsa transgressão limita-se a ser um sem-fim de palavrões e sequências plásticas de sangue espirrando para todo o lado. Tudo sem um pingo de ideias novas, reciclando aquilo que deu certo, não arriscando no discurso e torcendo para o carinho do público com os personagens mascarar todos os problemas.
NÍVEL PÂNICO NA TV
Nesta mentalidade Caio de 8, 9, 10 anos de idade, o quinteto (!) de roteiristas – Ryan Reynolds, Rhett Reese, Paul Wernick, Zeb Wells e Shawn Levy – torna “Deadpool & Wolverine” um grande mousse em que o desejo de uma piada a mais prevalece acima de tudo. Se, pelo menos, fossem boas, vá lá, mas, a toada do humor se alterna nas 2h07 entre “sinfonia de cuzinhos”, todos os codinomes possíveis para cocaína (“ei estou fazendo isso na Disney”) e falar as variações possíveis e impossíveis de pênis, vagina e cu (“ei estou fazendo isso na Marvel”). Para quem ainda não saiu da época do “Pânico na TV”, certamente é um prato cheio.
A situação se torna ainda mais crítica quando nem mesmo aquilo que dava certo nos filmes de Deadpool ou marcas do Universo Marvel conseguem funcionar. Que o diga o deboche à própria indústria e ao universo dos quadrinhos: não bastasse o trailer ter entregado a zoeira com a Fox tirando a força da sequência menos preguiçosa, “Deadpool & Wolverine” joga no terreno seguro de brincar com os malfados multiversos e na má fase da Marvel desde “Vingadores: Ultimato”, algo que o menor dos fãs do MCU é capaz de apontar.
A quarta parede nunca foi tão banalizada como aqui – a piada sobre a comédia romântica “A Proposta”, talvez, seja o ápice de Ryan Reynolds acreditando com todas as forças de que é o astro mais importante de Hollywood (alguém avisa?). Por fim, os fan services aos zilhões – do uniforme de Wolverine até a presença de certos personagens, incluindo, um que não foi no melhor estilo “The Flash” com Nicolas Cage – constrangem de tão descarados para ver se conseguem encobrir as falhas.
TRAINDO O PRÓPRIO CONCEITO
Neste mar de mediocridade, o aguardado reencontro entre Deadpool e Wolverine após o fraco “X-Men: Origens”, de 2009, perde bastante força. Nada tira minha impressão de Hugh Jackman estar ali apenas por conta do senhor cheque recheado de zeros: o australiano parece desconfortável no papel de escada do humor quando o centro das atrações é Reynolds, saindo apenas com algum destaque ao ir para o drama na boa sequência ao lado de Corrin ao revisar o papel do herói. Para piorar, nenhuma cena de ação empolga de fato até soando repetitivas – quando vão para porrada no carro ao som de “You’re the One That I Want” (que trilha previsível, diga-se) após tretarem ao lado da logomarca da Fox só dá vontade de jogar a toalha.
Terminando com um discurso emocional de quinta categoria sobre fazer amigos como se fosse um draminha de autoajuda somada a uma sequência pós-créditos pout pourri das mais preguiçosas, “Deadpool & Wolverine” revela-se muito mais conservador do que qualquer produção Marvel e Disney feita nos últimos anos. A busca por servir exatamente aquilo que teoricamente o público-alvo deseja faz a produção dirigida por Shawn Levy trair o teórico perfil transgressor que a série Deadpool finge se vender. No fim, igual eu com minha bisavô, acaba por enganar a si próprio – pelo menos, este que vos fala era um garoto com um longa vida pela frente e não um monte de marmanjo gastando milhões de dólares.














