Não me surpreendo caso muitos perguntem os motivos de “First Cow” ser tão badalado e elogiado pela crítica internacional. Muito menos de uma possível insatisfação generalizada caso o longa dirigido, roteirizado e montado por Kelly Reichardt (“Certas Mulheres”) chegue forte ao Oscar 2021. Para quem procura uma história linear, rápida e didática, sem dúvida, será uma produção decepcionante, especialmente, nos 30 minutos iniciais e no desfecho. Por outro lado, para quem se permite levar muito além disso, terá uma obra difícil de esquecer. 

Ambientado na época da expansão para o Oeste dos EUA, ainda no período de domínio britânico, o filme segue a trajetória de Cookie (John Magaro), um cozinheiro que participa de expedições de aventureiros em busca de ouro. Certo dia, encontra um imigrante chinês chamado King-Lu (Orion Lee) fugindo após ter assassinado um homem. Juntos, eles tentam sobreviver com bolinhos feitos por Cookie que conquistam a região. O problema é que os doces são feitos com o leite da única vaca do local, pertencente ao chefe do Entreposto comercial vivido pelo sempre ótimo Toby Jones e obtido de forma clandestina. 

Baseado no romance escrito por Jonathan Raymond (co-autor do roteiro ao lado de Reichadt), “First Cow” vai fundo naqueles paradigmas tão enraizados em nossa sociedade que se naturalizam diante do nosso cotidiano. Isso independente de quão cruéis e desumanos tais modelos possam ser. Diante da terra onde a História não chegou, como afirma King-Lu, e a promessa de oportunidades de riqueza brotarem em cada lugar, a barbárie dos homens explode em uma intensa disputa marcada por constante rivalidade, provocação, inveja e cobiça.  

Sujos, maltrapilhos, esfomeados e cansados, aquelas figuras podem até trazer o ideal capitalista do self-made man, mas, encontram um cenário medieval, sendo o design de produção de Anthony Gasparro e os figurinos April Napier fundamentais para inserir o espectador naquele cenário de desalento na brilhante sequência em que Cookie anda pela vila após comprar botas novas se tornando um alvo do desgosto de tantos ali por não conseguirem o mesmo. 

CONSTRUÇÃO SOCIAL DIANTE DE NÓS 

Cabe justamente a Cookie (observe que o nome pelo qual é chamado – biscoito, em uma tradução literal – faz referência àquilo que importa naquela realidade, ou seja, a profissão e não a pessoa) ser este contraponto à barbárie. Através de pequenos gestos como ter o mínimo de cuidado ao cobrir uma pessoa com frio, colocar um vaso de plantas em uma casa ou simplesmente de cuidar de um bêbe e conversar com a vaca ao ordenhá-la, o personagem demonstra a empatia e a solidariedade para com o outro, um contrassenso diante de um modelo de desenvolvimento individualista e que enxerga no pensamento coletivo uma ameaça aos seus interesses.  

Ainda assim, ele consegue, através de sua comida e igual faz artistas, despertar a humanidade esquecida ao trazer à tona memórias afetivas com seus biscoitos. A singeleza e ternura com que Magaro compõe o protagonista são comoventes em um trabalho moldado a partir de pequenos detalhes. 

A cadência de Kelly Reichardt adotada no tom da narrativa de “First Cow” consegue ampliar ainda mais esta dimensão de uma construção social sendo feita diante de nós. Os primeiros 40 minutos, por exemplo, servem para a ambientação deste tempo, espaço e dos relacionamentos daquela comunidade. Os planos escuros e sem muita intensidade nas cores propostos pelo diretor de fotografia Christopher Blauvelt combinados à elegância da movimentação da câmera, como na bela sequência em que Cookie e King-Lu chegam à casa do chefe britânico da região, são simbólicos ao clima soturno daquelas figuras dentro de uma civilidade falsa pregada naquele momento da história dos EUA. 

Em uma sociedade em que tudo se precifica, inclusive, a vida humana, e cada dia mais se mostra egocêntrica ao extremo, “First Cow” chega para nos lembrar da solidariedade, da amizade entre as pessoas como um ponto definitivo para a nossa sobrevivência. Talvez esteja enterrado lá no fundo de cada um de nós, mas, diante de todo o horror que vivemos, precisamos resgatá-lo urgentemente. 

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