Um pobretão calvo vindo diretamente de uma fazenda de carneiros na Nova Zelândia pega carona na cauda de um foguete e aterrissa em Londres. Ele é um ator e está desempregado. Tudo o que tem são as memórias das sessões noturnas de sua juventude: aliens, músculos, monstros, sessões duplas em um cinema de esquina neozelandês, passatempo barato.
Seu nome é Richard O’Brien e sua sorte foi conhecer o diretor Jim Sharman, que vinha fazendo sucesso em Londres com montagens de “Hair” e “Jesus Cristo Superstar”. Foi nessa última peça que os dois se conheceram: Sharman escalou O’Brien para uma ponta em uma das apresentações. O’Brien, por sua vez, aproveitou a ocasião para lhe mostrar um roteiro inspirado em seus passatempos de infância.
Então veio Tim Curry. Curry soube da peça incipiente ao topar com O’Brien saindo de uma academia: ele procurava por algum sujeito maromba que também pudesse cantar. Para quê? Para um espetáculo que andava preparando, coisa difícil de explicar…
E depois de Curry, Little Nell (Columbia), Patricia Quinn (Magenta), a estreia em uma casa pequena, o sucesso estrondoso, a montagem americana, os direitos para o cinema. Contrato assinado: Sharman dirigiria a adaptação. O elenco, incluindo O’Brien (Riff Raff), reprisaria seus papéis originais — a principal exceção sendo o casal de mocinhos, os personagens Brad Majors e Janet Weiss.
A produção escalou dois americanos para os papéis: Barry Bostwick, até então um artista circense com alguma rodagem nos tablados, e uma desconhecida Susan Sarandon. Meat Loaf, que viveu o bad boy Eddie na passagem do espetáculo por Los Angeles, foi mantido na versão cinematográfica.
Estão aí todos os elementos, mas o resultado explosivo de sua fusão não se pode explicar — ao menos não totalmente. Nesse sentido, talvez seja benéfico comparar “The Rocky Horror Picture Show” ao seu primo pobre, a quase-sequência mais ou menos esquecida de 1981, “Shock Treatment”.
Vejamos: Sharman está de volta à cadeira de diretor; O’Brien, que novamente faz par com Patricia Quinn em cena, é o responsável pelo roteiro e pelas músicas (com arranjos de Richard Hartley, que também trabalhou em “Rocky Horror”). E Brad e Janet, agora casados, também retornam, mas com um grande porém: são interpretados por Cliff de Young e Jessica Harper.
O cenário também mudou: ainda estamos na cidadezinha de Denton, USA, mas agora o pacato povoado está sob o controle de um estúdio de TV. A trama envolve a hospitalização forçada de Brad em um manicômio televisionado, enquanto Janet se torna a nova coquette do maléfico dono da emissora. Os cenários são maiores, as cores, mais gritantes e o elenco, mais recheado.
Ou seja: o mesmo time criativo, apenas com mais dinheiro, e deixando o pastiche de filmes de terror de lado para ir fundo na sátira. Mas sátira ao quê? À institucionalização da TV e dos realities na vida cotidiana, e aos ditames psiquiátricos balizadores do “normal”.
Presciência? Quanto aos reality shows, nem precisamos falar nada. Mais interessante, talvez, seja a questão da “psiquiatralização” do mundo: hoje vemos claramente como, uma vez derrubadas as paredes do manicômio, todos podem se tornar loucos — ou seja, usuários deste ou daquele remedinho especial para ajudar a voltar aos trilhos. Um para dormir, um para acordar…
E ainda assim, “Shock Treatment” é ruim, desagradável. Há a questão óbvia — as músicas simplesmente não são cativantes —, mas o problema é maior: o mundo do filme é depressivo, sufocante, claustrofóbico em suas luzes brilhantes e sorrisos artificiais. E isso tudo por design, é claro.
É que o filme está mais preocupado com seus pontos satíricos, que podem ser sumarizados em um ou dois parágrafos, do que em ser, enfim, um bom musical, inebriante, cativante. Em outras palavras: falta tesão.
Isso é o que “The Rocky Horror Picture Show” tem de sobra. Claro, falamos do tesão dos corpos, mas também do tesão em “ser filme”: tomem como exemplo o fato da produção ter se reapropriado dos cenários antigos dos filmes de terror da Hammer, e entenderão se tratar de um longa feito por quem ama se luxuriar nesse universo.
Claro, a grana também influenciou essa decisão: os cenários velhos de filmes B eram tudo que a produção podia arcar com seus minguados recursos. Mas poderia esse filme ter sido feito de qualquer outra forma senão sob fortes restrições orçamentárias? “Shock Treatment” nos fornece uma resposta negativa.
Então, tesão: o tesão de montar um espetáculo, de dar um show, de fazer filme. Mas também uma segunda dimensão do tesão, aquela puramente carnal, que, provavelmente, é a responsável pela longevidade da produção nestes 50 anos desde seu lançamento. Nenhum discurso sobre aceitação jamais seria tão eficaz quanto a visão das longas pernas de Tim Curry, adornadas por botas brilhantes de salto alto, enquanto ele se reclina em um sofá durante “Sweet Transvestite”. Chocante, escrachado e tesudo, cinquenta anos depois.
Os peitos de Susan Sarandon, a cuequinha branca de Barry Bostwick, a penugem de Rocky (Peter Hinwood) descendo desde seu umbigo até desaguar em algum lugar dentro de sua sunga dourada… Está tudo aí. Tudo o quê? A máxima, que as plateias queer logo sacaram, assim que as sessões da meia-noite tiveram início: não existe política da diferença que não passe primeiro por uma política do tesão.
E não existe tesão maior que Tim Curry, de corset e tanguinha, desfilando com seus grandes olhos azuis-esverdeados e sua bocarra saborosa numa tela gigantesca.
















