Quando assisti Wicked a primeira vez, fiquei embasbacada com o que tinha diante dos meus olhos: uma mulher verde (negra) que descobria a força que havia dentro dela. Jon M. Chu nos entregou um background bem maior do que a história escrita por Gregory Maguire ao escalar uma atriz negra para interpretar Elphaba (Cynthia Erivo), considerando todos os subtextos que naturalmente este universo carrega. É uma pena, no entanto, que o diretor ofusque toda essa grandiosidade para entregar uma trama que deixa o peso político de lado para abraçar a fantasia em detrimento de qualquer outra coisa.
O roteiro de Wicked: Parte 2 escolhe abraçar um espelhamento, no qual tudo o que foi visto na Parte 1 é retomado, porém, desta vez sobre o viés de Glinda (Ariana Grande). Conhecemos sua infância, a construção da personalidade como Bruxa Boa e os white girl problems que a cercam. Toda essa áurea dá a personagem um tom de princesa Disney, com direito a coroa e príncipe, mas sem a segunda camada que os contos de fadas trazem consigo. O visual da Cidade das Esmeraldas ganha a cor rosa, as pessoas se sentem mais a vontade por tê-la por perto e as músicas se voltam a falar sobre esse novo momento, utilizando todos os acordes e melodias que já escutamos no último ano.
Nesse conjunto de espelhamentos, Elphaba é a figura mais mitigada. Seu tempo de tela diminui — Madame Morrible (Michelle Yeoh) tem muito mais aproveitamento do que a protagonista — suas músicas são vazias e datadas e a caracterização da personagem oscila — ora entre um coitadismo que difere do que conhecemos da irmã de Nessarose (Marissa Bode) e uma raiva que se justifica, mas não a ponto da corromper o que há de bom na personagem como vemos acontecer. Parece que toda a mudança ocorrida com Elphaba se perde diante dos nossos olhos, porque a câmera de Alice Brooks está mais preocupada em acompanhar as micro expressões de Glinda. Falta uma grande virada, um acontecimento, um plot que torne Elphaba a Bruxa Má do Oeste, como realmente decorre nos escritos de Maguire. E não, não há uma construção efetiva para que o que acontece com Nessarose seja esse evento — a não ser que desconsideremos a importância de vermos as transformações da dita protagonista.
Essa escolha dá ao filme uma roupagem distinta do contexto do universo de Wicked. O peso político praticamente some, os conflitos envolvendo os animais parece solto dentro da narrativa; tudo isso apenas resume o esvaziamento social que Wicked: Parte 2 abraça. O espelhamento de “I’m not a girl” é a maior prova disso. Se na Parte 1 estávamos diante de uma mulher verde/negra rejeitada pela sociedade, que pensa que o seu amor nunca a reconhecerá, porque ninguém o faz; neste episódio, ela é entoada por uma mulher mimada que queria forçar alguém a casar-se com ela por um título, pela manutenção do status quo. A perda de Glinda não é nenhum pouco semelhante a perda de Elphaba e a escolha de espelhá-las enfraquece a narrativa, porque ignora quem é Elphaba, suas dores, trajetória e luta.
Entendo que essa decisão se deva a busca pela construção de um conto de fadas. Olhando pelo ângulo da padronização e do universo influenciado pela Disney e o olhar branco, europeu e masculino; compreendo que é fácil dar a Glinda o papel e voz de princesa. As cores, o figurino, o ambiente e os maneirismos de Ariana Grande apontam para essa caracterização. No entanto, é Elphaba quem tem a melhor história, mas dentro do pacto de branquitude, ela não é a garota para quem os olhares e préstimos de voltam. Wicked: Parte 2 deixa isso bem evidente.
Nessa esteira, é curioso que o filme assuma a postura do que realmente é sua história: uma outra leitura da obra L. Frank Baum e de Gregory Maguire. Por um lado, é interessante que Jon M Chu busque homenagear obras clássicas em cenas específicas como Charles Chaplin e a citação direta a “O Maravilhoso Mágico de Oz”, título da obra de Baum. No entanto, a narrativa em si, se ajusta de maneira pouco orgânica para que consiga confluir para os eventos do filme de Victor Fleming. Falta naturalidade, magia e a parte visual do processo de transmutação.
Wicked: Parte 2 nasce com o propósito de ser um conto de fadas, mais do que uma obra de identificação ou discussão política. Mas o que realmente define algo como um conto de fada? Quem teve o final feliz? Quem abre mão de sua existência conhecida para ter um vislumbre da vida ao lado do seu amor ou quem é coroada por esconder a verdade? O fato é que a parte final não consegue ter a mesma relevância e coragem de desafiar a gravidade como Wicked, desconectando-se das questões reais e incomodas que tornaram o primeiro filme memorável. O pior é que até as músicas sofrem do mesmo mal. Realmente, frustrante.














