É seguro dizer que um dos principais charmes da primeira temporada de Treta era a maneira imprevisível de seus acontecimentos, em que se criava uma verdadeira pane, um caos entre seus personagens. Nessa segunda temporada, a série assume estrutura antológica e apresenta novas pessoas e dinâmicas. Ainda que mantenha o senso vertiginoso, os desequilíbrios no caminho atrapalham a minissérie da Netflix. 

A trama novamente comandada pelo showrunner, produtor e roteirista Lee Sung Jin busca reencenar um cenário de tensão crescente mediado por personagens perdidos ou à beira do colapso. Nisso, as figuras de Josh (Oscar Isaac) e Lindsay (Carey Mulligan) surgem como um casal aparentemente bem sucedido e unido até confrontados com a realidade da relação: há muita infelicidade entre os dois. Um contraste imenso à situação vivida por Austin (Charles Melton) e Ashley (Cailee Spaeny) , um casal jovem com muitos planos e de relacionamento saudável. As vidas de todos estes e demais personagens se movimentam quando Austin e Ashley flagram uma forte briga entre Josh e Lindsay criando dali um jogo perigoso de interesses, favores e revelações para coisas maiores e absurdas. 

É curioso notar como desde sua premissa, a segunda parte de Treta já possui a vontade de indicar alçadas maiores comparadas à primeira, pois abraça o uso de mais protagonistas  e, por consequência, arcos a mais se estendem na história. Nesse andamento, a produção da A24 tenta estabelecer uma narrativa que costure temas diversos sem perder a essência caótica. De certa forma, a minissérie até soa interessante por não repetir a fórmula anterior com os personagens em ambientações diferentes. 

A temporada abraça temáticas como luta de classes, discursos anticapitalistas, crises de relacionamentos, tendo espaço até para críticas ao sistema de saúde estadunidense. O casal vivido por Isaac e Mulligan representa a classe média norte-americana que sonha em atingir um novo índice financeiro, mas nada em aparências para suprir essas ausências; a falta de escrúpulos de cada um deles se considera por almejar a idealização inalcançável. 

Então, o conflito envolvendo os noivos vividos por Melton e Spaeny não é apenas geracional, mas também social. Isso aparece tanto na hierarquia — com Isaac como patrão e eles como empregados no clube — quanto nas situações de pressão que surgem após a briga entre Josh e Lindsay, agravadas pelo testemunho do casal mais jovem. Sem cair no maniqueísmo, Treta mostra como Austin e Ashley tentam sair dessa situação complicada, recorrendo até a meios ilegais e chantagistas para sobreviver e buscar alguma ascensão social.

A trama ganha ainda mais força com a chegada de um novo elemento importante: a Sra. Park, interpretada por Youn Yuh-Jung, CEO do clube. A presença dela reforça essas relações de poder, especialmente ao mostrar Josh em total subserviência. A partir daí, a série passa a explorar de forma mais direta essas disputas de posição, ambição e controle que atravessam toda a segunda temporada.

No meio disso tudo, há a ruína psicológica de alguns personagens que os leva a tomar medidas cruciais no sentido de abastecer algum vazio ou tentar cimentar algum sonho distante: Lindsay reclama que o casamento infeliz tirou boa parte de anos de sua vida e ainda a impediu de ser mãe; desejo este partilhado também por Ashley, impedido devido a problemas no ovário; Josh se reprime pela triste paixão pela música não ter dado em nada, enquanto Austin se lamenta por não ter seguido em uma carreira de sucesso no esporte após a faculdade. Frustrações inerentes às cargas dessas criaturas e gatilhos para impulsos que já são marcas da série. 

Esse terreno próprio de Treta vira armadilha quando se faz a comparação inevitável com a primeira temporada aclamada e premiada – não consegui correr disso. A construção dos personagens, os dilemas e suas maldições por mais que tenham seus méritos não chegam perto do absurdo intrigante e frenético da primeira temporada estrelada por Ali Wong e Steve Yeun. Reforço que as propostas diferem e correspondem às ações que o roteiro de Lee Sung Jin pretende apresentar, o que faz dessa nova temporada algo até mais contido, soturno e com um humor ácido mais dosado (algo muito particular da temporada anterior), mas isso não impede de se observar como a queda de valor de produção e de identidade restringem um voo mais alto desse segundo ano . 

Quanto às atuações, sem dúvidas, a melhor coisa da série, principalmente no que diz respeito ao núcleo Josh-Lindsay com Oscar Isaac, mas, sobretudo, Carey Mulligan carregando o peso fundamental para erguer o arco de seus personagens, melhorando, inclusive, o texto presente. O elenco todo captura bem as individualidades de cada um apesar de nem todos terem o mesmo espaço explorado, como é o caso de Dr. Kim (Song Kang-Ho). 

Ao empenhar-se no modo de obter sua autonomia, a segunda temporada de Treta é um projeto aquém das viabilidades, sendo perseguido pela sombra de sua ideia original, fazendo deste, um alvo do próprio conceito.