Os documentários sobre estrelas da música brasileira estão para o cinema nacional como as cinebiografias estão para o cinema americano e britânico. Somos testemunhas de diversas produções do tipo todos os anos, com a esmagadora maioria burocrática e tratando seus personagens de modo solene, sem aprofundar muitos nos perfis dos seus retratados. Dirigido por Angela Zoé e selecionado para mostra competitiva de longas-metragens do Festival de Gramado 2020, “O Samba é o Primo do Jazz” se encaixa de forma perfeita nesta descrição.

O foco aqui é Alcione, um dos maiores nomes da história do samba e dona de uma voz única e poderosa. Nos 70 minutos de duração, “O Samba é o Primo do Jazz” acompanhamos o bê-á-bá de um documentário do tipo: a infância e a relação com a família, a descoberta musical, a carreira de sucesso, os amores e pequenas falas sobre as características mais célebres e visíveis. Tudo isso embalado por entrevistas antigas, shows com as principais músicas e viagens por Rio de Janeiro, São Luiz (terra natal da cantora) e Lisboa.

Durante todo o documentário, fica a sensação de que há um acordo tácito dos limites sobre o que seria explorado. Passa-se por diversos assuntos com a profundidade de um pires, soando mais como uma retrospectiva histórica de Alcione do que uma análise mais profunda. Nem mesmo quando há espaços para saber um pouco além da superfície – em certo momento, uma das irmãs da cantora fala sobre como tentavam passá-las para trás na negociação de shows – Angela Zoé aproveita para ir além e saber sobre os desafios enfrentados por uma mulher negra e nordestina para conseguir espaço dentro da música e sociedade brasileira.

Cabe a Alcione, então, salvar “O Samba é o Primo do Jazz”. O tom excessivamente solene conferido pela proposta do documentário encontra um contraponto na irreverência e naturalidade da estrela. Seja comentando sobre um homem bonito durante um passeio pelas ruas de Lisboa ou nas descontraídas conversas com Alexandre Menezes, o diretor musical da banda, a Marrom deixa transparecer seu lado mãezona acolhedora ainda que longe de sentimentalismos barato. A ligação com as raízes de onde veio e de onde foi acolhida, o abraço e o sorriso fácil, a firmeza de quem não aceita qualquer coisa, a religiosidade e a vaidade captadas muito bem no documentário ainda ajudam a entender como Alcione consegue transcender gerações e ser a cara de um povo.

Porém, exceção feita ao pouco lembrado passado no jazz, “O Samba é o Primo do Jazz” apenas salienta tudo aquilo que sabemos da figura pública de Alcione vista ao longo destes anos e anos. A Marrom merecia, sem dúvida, uma homenagem melhor.

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