“Eu sou o mar. Em meus abismos há tesouros. Já perguntaram aos mergulhadores sobre  minhas pérolas?” 

A citação dessa poesia permeia a vida de Salim, e esta acaba sendo um testamento de  sua própria resistência frente à opressão de seu povo e de sua família. Em “All That´s Left  of You” (Tudo o que Restou de Você) acompanhamos três gerações de uma mesma  família palestina que vive e tenta sobreviver em meio ao conflito israelo-palestiniano. 

A saga da família tem início em 1948, quando da criação do Estado de Israel. A partir de  então, suas vidas nunca mais seriam as mesmas. 

Um humilde pai de família, Sharif, se vê obrigado a servir em um regime praticamente  totalitário, tendo que deixar sua família, retornando tempos depois por motivos não  muito esclarecidos. Por causa da desapropriação de sua casa feita pelo exército  israelense, ele se muda para outra cidade. Seu filho, Salim, cresce e se torna um homem  de família parecido com seu próprio pai.  

Curiosamente, a escolha de um ator tão parecido com o ator que interpreta Sharif para  representar Salim adulto confunde o espectador, inclusive pela presença da barba em  Salim adulto em continuidade com o aspecto barbado que seu pai passa a ter ao voltar  da lida, numa transição temporal que não se sinaliza pela montagem. Se isso é proposital  ou não, e se a semelhança física entres os atores é apenas uma coincidência ou não, o  fato é que acaba se tornando um elo visual simbólico e interessante para a trama, que  segue mostrando um Salim adulto, que é pai de Noor, um garoto que se revolta contra a  tirania israelense após um incidente que marcaria sua vida para sempre. 

A partir disso, um conflito entre pai e filho se estabelece de forma intensa,  desestruturando a harmonia familiar e levando a trama a discutir questões como  trauma, perda de identidade, conflito intergeracional e memória. Ao seu modo, “Tudo o  que Restou de Você” é o “Ainda Estou Aqui” palestino, e trabalha sua proposta de forma  bem mais eficiente, tenho que dizer, ao conseguir desenvolver conflitos emocionais a  partir do contexto sócio-político ao redor da família que ecoa de modo a atravessar a  vivência da mesma por gerações e fazer da busca pelo resgate de Noor um motor que os  redireciona à memória da cidade de Jaffa, onde Salim e sua esposa, Hanan, nasceram. 

Aliás, Hanan é interpretada pela própria diretora, Cherien Dabis, que além de atuar magistralmente bem, também escreve e produz o filme. Apesar de não promover muitas  ações que desenrolem a trama, sua personagem está longe de ser passiva, sendo uma  base de apoio emocional muito importante para Salim e uma mãe dedicada para seus  filhos. Suas lentes captam com um naturalismo incrível os cenários, com seus detalhes  cenográficos realistas (dando um aspecto documental à obra), bem como o calor  humano presente neles e o cotidiano da família, com uma iluminação sempre suave em cenas diurnas, passando a utilizar gradativamente paletas mais acinzentadas, à medida  que a situação da família vai ficando mais dramática. 

Destaque especial para Mohammad Bakri, que vive com uma vivacidade incrível o velho  Sharif, sendo a figura mais afetuosa e humorada da família. 

As consequências para o terceiro ato proporcionam situações e diálogos que  sensibilizam e constrangem diante de tamanha ironia, levantando paradoxos morais  intrigantes e ilustrando a infeliz barreira entre israelenses e palestinos que evidenciam o  caráter humanista da obra. 

No final, em que só resta a alegria da memória nostálgica, depois de toda a tragédia  sofrida, o sol volta a brilhar em cena, e o casal passeia pelas ruas de Jaffa como se fossem  jovens namorados. A máxima representação do compartilhamento afetivo e o uso da  memória como motor para ressignificar a existência, pelo orgulho da própria história e  identidade. 

Representante da Jordânia para o Oscar 2026, este sensível drama familiar merece um  lugar entre os indicados ao Oscar em Melhor Filme Internacional.