Chega ao Brasil, através do streaming Filmelier+, o thriller psicológico de ficção científica A Garota Artificial, escrito e dirigido por Franklin Ritch. O filme conta a história do criador de uma revolucionária inteligência artificial que simula uma garota chamada Cherry em videochamadas, funcionando como isca para capturar abusadores de menores online. O caso passa a ser investigado por agentes de uma organização secreta, que solicitam o auxílio do programador. Porém, a IA evolui muito mais rápido do que todos podem imaginar, desafiando a percepção humana sobre a ética no uso da tecnologia.

A Garota Artificial foi lançado originalmente em 2022 diretamente em vídeo sob demanda e em festivais de cinema, chegando a ganhar o prêmio do público de ouro de melhor longa-metragem internacional em Montreal. Agora, o filme finalmente chega ao Brasil. O Cine Set conversou com Franklin Ritch, que, além de escrever e dirigir, também é produtor, ator e montador do filme.

Cine Set – Eu tenho que dizer que amei esse filme. Na verdade, foi o melhor filme que vi neste ano!

Franklin Ritch – Uau! Muito obrigado. 

Cine Set – Como surgiu a ideia para essa história? Você já tinha familiaridade com esse tipo de temática ou teve que pesquisar a fundo sobre isso? Pode nos contar um pouco?

Franklin Ritch – Claro! Eu não tinha nenhum conhecimento sobre IA, aprendizado de máquinas ou assuntos relacionados, na verdade, quando comecei esse projeto. Eu tive que fazer muita pesquisa antes de escrever o primeiro rascunho. Por duas semanas, pesquisei incessantemente, fiz cursos online e conversei com pessoas da área, que desenvolvem esse tipo de programa e fazem esse trabalho. Isso foi extremamente útil, porque eu senti que, se você tem uma história fantástica sobre um robô se tornando senciente e buscando autonomia, precisa situar isso de forma realista. Para isso, a personagem precisa falar a verdadeira linguagem dessa tecnologia. Eu queria deixar tudo o mais autêntico possível, o que foi desafiador, porque, como eu disse, eu não tinha essa experiência. Eu só achei que seria uma boa ideia para uma história.

A história veio a mim antes da pandemia, em 2020. Eu estava lendo artigos sobre o uso de programas de computação gráfica e IA para capturar predadores, e achei isso a ideia mais legal do mundo. Tipo: que belo uso da tecnologia para algo realmente bom! Eu só pensava: “que tipo de conversas os desenvolvedores têm nos bastidores?” Foi essa pergunta que me deu inspiração para a história. E, uma vez que eu queria estabelecer uma estrutura em três atos, sabia que esse era o tipo de filme que eu queria fazer.

Cine Set – O filme é muito apoiado em diálogos e a história se passa em poucos espaços. É quase como se fosse baseado em um roteiro teatral. Você se inspirou em alguma peça ou livro?

Franklin Ritch – Sim, eu venho de uma experiência híbrida de teatro e cinema. Todos os atores do filme, com exceção do Lance Henriksen, já haviam trabalhado comigo em projetos de teatro. Quando comecei a escrever, era o início da pandemia, então eu não sabia como o mundo estaria. Eu não sabia se conseguiríamos fazer um filme, uma peça ou qualquer coisa. Quando ficou definido que seria um filme, eu sabia que precisaria de uma locação única e do menor número de personagens possível, porque seria mais fácil de filmar e, também, porque eu não tinha dinheiro. Mas eu gosto da atmosfera teatral: estar só com os personagens naquela sala transmite uma sensação mais realista, o que era importante para o estilo da história.

Cine Set – Achei que Tatum Matthews, que interpreta Cherry, fez um trabalho fantástico. O que te levou a escolhê-la?

Franklin Ritch – Eu a dirigi em uma peça alguns anos antes. Quando ela fez a audição, foi incrível, e ela tinha apenas 9 anos na época! Era para um papel pequeno. Eu pensei: “um dia, essa menina vai ser uma estrela!”. Então, se um dia eu escrevesse um roteiro que demandasse uma performance incrível de uma atriz mirim, seria ela que eu chamaria. E essa era a história para isso. Imediatamente, vi que tinha que ser a Tatum.

Claro, tive muitas conversas com a mãe, com a família e com ela sobre o quão desafiador era o papel e o que ele implicava. Ela estava tão entusiasmada e era tão profissional! Como você pode ver no filme, a performance dela é sinistra — não há outra palavra. Ela encarna esse ser complexo, uma inteligência artificial bidimensional que depois se torna quase um ser humano maduro, mais sábio com o passar do tempo. É fascinante de assistir. Sou muito grato pela colaboração dela. E posso dizer: em poucos anos, ela será muito famosa, e nós poderemos dizer: “trabalhamos com ela nesse pequeno filme lá atrás!”.

Cine Set – Como alguém que já dirigiu, escreveu, estrelou e editou um curta-metragem, admiro você ter feito tudo isso também. Quais são os desafios de realizar tantas funções no mesmo filme?

Franklin Ritch – Antes de tudo, meus parabéns! Espero que você se veja no futuro fazendo seus próprios filmes. Se eu consigo, todo mundo consegue — então você não tem mais desculpas. Eu entendo totalmente. Eu também fiz vários curtas em que eu escrevia, dirigia e editava. A atuação surgiu meio que por necessidade, porque não tínhamos muito dinheiro e eu sabia que, se eu fizesse um dos papéis, isso economizaria bastante. Quanto às outras três funções — e essa é uma preferência pessoal — eu queria ter uma visão geral do projeto, desde a concepção até a pós-produção. É importante para mim que a visão permaneça consistente nessas três fases. Ainda assim, você precisa da ajuda de outras pessoas; afinal, fazer um filme é colaborativo. Mas é bom ter uma única voz guiando a intenção.

Cine Set – No filme, você discute bastante sobre ética, moralidade e filosofia no uso da IA. Como você vê o futuro da IA? Ela pode trazer mais benefícios ou problemas?

Franklin Ritch – Quando escrevi o roteiro, em 2020, eu não fazia ideia de que a IA se tornaria o maior assunto quando o filme fosse lançado dois anos depois. Eu não pretendo prever o futuro da IA, mas vou ser honesto: estou bem cínico sobre isso hoje. Não estou feliz com a maneira como a IA está sendo usada como suplemento para a criatividade. Eu estou com Guillermo del Toro — acho que artistas não deveriam usar IA. Essa é a minha opinião pessoal.

O filme parte de uma abordagem idealizada sobre como seria se a IA fosse usada para o bem. Porém, mesmo com as melhores intenções, mesmo sendo usada para fins altruístas, existem consequências. Há coisas que você deve considerar, ser consciente e cauteloso. Infelizmente, acho que a maioria das IAs está sendo usada por grandes empresas e corporações que conduzem isso sem qualquer consideração ética. Estou nervoso sobre o futuro da IA. Não acho que ela vai substituir artistas — não por um longo tempo —, mas acho que muita gente vai sofrer, porque as empresas vão tentar usar isso para cortar custos, o que resultará em piores obras e piores condições para artistas. Esses são meus dois centavos sobre o assunto. Meu conselho: sejam cuidadosos, conscientes e atentos.

Autor

  • Formado em Design pela Universidade Federal do Amazonas. Designer Gráfico e ilustrador, encontrou nas animações de cinema e TV que via na infância o amor pelo Audiovisual. Roteirista, editor, artista de storyboard e diretor, trabalhou em curtas e médias-metragens locais. Também já deu as caras como coralista e ator de teatro musical.

    Quando não está produzindo filmes, ama falar sobre eles. Escrevia sobre cinema em blogs pessoais e eventualmente produz vídeos para o YouTube através de seu canal de cultura pop, o Nerdtown, onde expressa sua nerdice e cinefilia, analisando e teorizando filmes, séries e animações preferidas, além de quadrinhos. Fã árduo da saga Star Wars.

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