Nem parece, mas, o último filme de Leandro Hassum nos cinemas foi em 2019, antes da pandemia, com “O Amor dá Trabalho”. O comediante resolveu, então, entrar de cabeça no streaming, firmando uma parceria bem-sucedida com a Netflix.
Agora, seis anos depois, Hassum está de volta às telonas onde protagonizou grandes sucessos de bilheteria na década passada, entre eles, “Até que a Sorte nos Separe” e “O Candidato Honesto”. Em “Uma Advogada Brilhante”, o ator se inspira em “Tootsie” e “Uma Babá Quase Perfeita” para viver um advogado que precisa se vestir de mulher para não perder o emprego em uma prestigiada firma.
Nesta entrevista exclusiva, o Hassum foi bem franco e falou muito sobre o humor que gosta de fazer, bastidores dos improvisos que o consagraram e um cenário da comédia brasileira.
Cine Set: Sua última comédia como protagonista nos cinemas foi O Amor Dá Trabalho, em 2019. Depois, você firmou uma parceria bem-sucedida com a Netflix, onde realizou Meu Cunhado é um Vampiro, Amor sem Medida. Uma Advogada Brilhante marca este retorno às telonas, em que você emplacou algumas das principais comédias populares da década passada. Qual a maior diferença que você nota entre essas duas possibilidades? Alguma ansiedade para ver como será o desempenho do filme após seis anos?
Leandro Hassum: Estou mega ansioso. Estamos vivendo uma crescente no cinema. Sou um cara que sempre performou bem e espero continuar assim. Paralelamente, o streaming chegou em um belíssimo momento, permitindo trabalhar no mesmo formato. Obviamente que nada substitui a experiência da telona, mas o streaming abre portas profissionalmente, até para realizar com maior gerência sobre nossos projetos e maior autonomia sobre o que será feito.
Fora isso, você abre um leque para os atores não ficarem presos. Porque antigamente, com todo respeito, foram 21 anos na televisão e, para fazer sucesso grande, só na Rede Globo. Claro que a TV aberta e a Globo continuam sendo a maior vitrine de todas no Brasil, mas, enquanto profissional, hoje é possível trabalhar com coisas bacanas na HBO, Amazon, Netflix, Globoplay. Há uma gama de alternativas para ir atirando e fazendo coisas interessantes também. O streaming é sensacional e só tende a crescer.
Cine Set: Sem contar as animações, esta é a sua quarta parceria com a Ale MacHaddo. O que você acha que deu tão certo nessa parceria? De que modo ela, sendo comediante, contribui para o seu trabalho?
Leandro Hassum: Nossa parceria vem das animações, antes da transição dela. Eu gosto muito do humor da Ale; a gente ria muito nos intervalos de gravação. Ela, então, me apresentou um roteiro que estava produzindo e perguntou se eu estava interessado em protagonizar. Perguntei quem seria o diretor e ela disse que não tinha. Foi então que sugeri que fosse ela. Ela hesitou por nunca ter feito live-action. Brinquei que não ia aceitar se não fosse ela. A Ale, então, topou.
O que me deixa confortável em trabalhar com ela é justamente a liberdade de poder dizer: “Ale, isso está uma m***, não acho graça disso, não gosto disso”. Às vezes eu ganho, às vezes eu perco. É como uma relação de amizade. Eu gosto de trabalhar nesse ambiente onde tenho voz.
Lembro, por exemplo, de quando fui fazer B.O. (série da Netflix), estavam cogitando nomes para a direção até chegarem no Pedro Amorim, meu amigo querido. Na primeira reunião por Zoom, antes de começar a falar sobre o projeto, já perguntei para ele: “Pedro, você acha graça do meu tipo de humor?”. Pedi sinceridade na resposta porque não iria inventar nem deixaria criar um outro Hassum, traindo meu público. Ele disse que gostava bastante.
Se quiserem descobrir um “novo Hassum”, me levem para o drama, terror, fazer um psicopata, etc. Porque atores comediantes, como é o meu caso, têm uma assinatura. O pessoal já espera um tom, uma coisa que seja exagerada, exatamente aquilo de que sou mais criticado: fazer um humor mais caricato. Se tirarem isso de mim, estarei traindo o público, não entregando a minha comédia. Não precisa ser um ator cômico, mas alguém que saiba fazer humor. Quando você quer um comediante, precisa deixá-lo assinar.
Tem horas que você acha uma coisa muito engraçada, mas não pensa na cena que vem depois. Então, o diretor está ali para dizer: “Hassum, você precisa baixar o tom aqui um pouquinho porque tem a próxima cena que você não entra nesta energia”. A gente vai jogando junto.
Já tenho 58 longas-metragens na minha carreira. Isso me faz entender que um improviso que achei demais muitas vezes não serve ao filme. Perdi o apego. No fim, eu guardo e uso em outro filme. Tem quem fale: “Ih, o Hassum adora colocar um caco”. Eu nunca coloquei um caco; eu coloco improviso. O caco é como se fosse um pedaço de vidro, ou seja, ele rasga a história, saindo dela. O improviso é quando você chuta para dentro da narrativa. Daí, quando você assiste, fica a dúvida do que estava ou não no texto.
Cine Set: Ainda falando dos improvisos, quando você está no set, até onde você vai nesses momentos na gravação? E na montagem: sugere algo para que fique ou deixa na mão da direção?
Leandro Hassum: Varia bastante. No filme, há dois improvisos que funcionaram bastante nas sessões de pré-estreia. Um deles é aquela relacionada aos pronomes – senhoras, senhores, senhoros –, uma brincadeira com essa questão do gênero hoje, mostrando que ele é um cara que não sabe como se comportar e se pega traindo nisso. Eu fiz uma versão sem, mas a Ale deixou no filme com o improviso por sentir que é algo que funcionou e faz sentido.
Sou amigo da Ale há 10 anos e, logo depois da transição dela, fizemos Meu Cunhado é um Vampiro. Como havia sido recente, em vários momentos eu errava o pronome. Daí, eu falava: “Pô, Alê, desculpa, mas é que foram anos e anos te chamando de Xande”. Mas ela teve total entendimento de que eu precisava desse tempo para poder me enquadrar.
A minha relação com os diretores com quem trabalho é muito franca. Tem horas em que falo: “Não vai tirar aquele improviso porque ficou bom pra cacete”. Agora, o que eu mais gosto é quando rola a dúvida se foi ou não improvisado. Acontece também de pegar uma cena engraçada, mas que não está no meu tom de falar e adaptá-la. Nunca decorei texto de filme meu. Sempre pego na hora e faço porque a comédia tem muito do frescor. Tanto que nem gosto de repetir muito porque já acho que perdeu a graça após a primeira vez.
Se você for me dirigir, vou pedir para você me deixar fazer, te dar material para caramba do que eu não te dou nada e fazer com que você me dê tudo. Não gosto de trabalhar com quem diz que ator não tem voz, não se mete. Na minha visão, o set de filmagem e o horário ali dentro são da equipe. Aliás, eu sou chato com horário, que você não tem noção… Se é 9h, é 9h começando. Até porque eu produzo também e sei quanto custa um minuto no cinema…
Cine Set: Nesse sentido, você tem vontade de ser diretor?
Leandro Hassum: Sim, eu vou dirigir em breve. Tem um projeto meu que estamos agora tentando captar. Está acertando o roteiro e tudo mais. E, por incrível que pareça, não vai ser uma comédia. Será um drama.
Foi uma ideia que surgiu da cabeça ao lado da produtora Coração da Selva, de São Paulo. Eu adoro assistir drama e acho que comédia é muito próxima do drama. Não será um filme baixo astral, mas vai tratar de um assunto delicado com muita emoção, mas também leveza.
Apesar da vontade de dirigir, tenho consciência de que é necessário me preparar demais, até pela responsabilidade ser muito maior. Isso será importante para que eu possa coordenar a equipe no set, explicando bem as razões de cada escolha.
Cine Set: Você pretende atuar também?
Leandro Hassum: Sim. Eu sou fã do Jerry Lewis e ele, um dia, virou ator e diretor dos próprios filmes. Falta isso na minha vida. Já atuei com ele, agora eu quero fazer o que ele fez.
Cine Set: Você mescla comédias populares com outros projetos mais ousados, seja na abordagem ou na temática. Lembro aqui de Chorar de Rir, o Carlos Imperial de Simonal, o remake de Dona Flor. O que te motiva a escolher os projetos para o cinema?
Leandro Hassum: Eu amo me desafiar. Tenho um tesão por coisas novas. Agora, por exemplo, vou fazer o Silvio Santos. Tem muitos colegas meus que vão fazer drama por já terem feito muitas comédias. Eu não tenho isso. Amo meu ofício, amo atuar, amo entrar em cena, mas, longe do temor de acharem que sou apenas comediante, logo, preciso fazer um drama.
Sou comediante e ser comediante é muito difícil, é foda. Agora, quando surge a possibilidade de fazer Dona Flor, uma adaptação do Jorge Amado, em que o seu Mauro Mendonça e o Marco Nanini fizeram na TV e no cinema, ou o Carlos Imperial no filme do Simonal, eu não penso duas vezes. Ver uma atriz cômica indicada ao Oscar por um filme dramático (Fernanda Torres, por Ainda Estou Aqui) é incrível, mas, pena que muita gente não entende isso.
Algo que sempre me pergunto antes de entrar em um projeto é se vou me divertir. Se sim, eu embarco. Quando a Ale me chamou para fazer Uma Advogada Brilhante, ela me disse que a principal referência era Tootsie. Eu amo Tootsie! Porra, Dustin Hoffman! Então, vamos pegar também um pouco de Uma Babá Quase Perfeita, Robin Williams, e fazer do nosso jeito e com os nossos recursos quase de cinema de guerrilha. Vez ou outra me comparam com o Adam Sandler, mas, sempre digo que gostaria de ser ele na conta bancária e no orçamento dos trabalhos deles. Ainda assim, fazemos a mesma qualidade, dinâmica e exigência.
Eu amo o meu ofício e odeio essa “mamãezada” em torno do que é ser ator e ser artista, como se ele fosse uma divindade para ter um camarim separado das demais pessoas. Porra nenhuma! A gente é operário, pedreiro, por isso se chama uma obra cinematográfica, uma obra teatral.
Cine Set: Algo que chama minha atenção nos seus filmes são as referências, homenagens a grandes filmes e gênios da comédia, como o Jerry Lewis. Em Uma Advogada Brilhante, tem bastante de Tootsie, Uma Babá Quase Perfeita e As Branquelas. Você é mesmo cinéfilo? Como funcionam essas homenagens?
Leandro Hassum: Assisto muito. Coisas boas e ruins. Eu me alimento e retroalimento do cinema. E não apenas de filmes de comédia, mas também de dramas, terror, suspense. Agora, como escolhi fazer uma comédia popular e de identificação, se você me perguntar qual meu filme favorito, te respondo: Um Lugar Chamado Notting Hill. “Aí, Hassum, que raso!”, vão dizer um ou outro por aí. Sou raso, sim. Sou o cara que acha lindo quando ele vira para ela e diz: “I’m also just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her“. Eu choro mesmo. Sou brasileiro, sou noveleiro. É o sonho da história de amor que qualquer um quer ter.
Quero olhar e falar: “Puta, isso funciona pra cacete”. Você pega o Robin Williams: o cara fazia tudo em cena e aí ele faz Sociedade dos Poetas Mortos, Patch Adams. O próprio Jim Carrey com O Show de Truman, O Mundo de Andy, O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Isso me lembra o Jerry Lewis quando foi fazer O Rei da Comédia ao lado do Robert De Niro e foi para a coletiva de imprensa quando perguntaram sobre a preparação dele para o filme. Ele respondeu: “Eu acordava, tomava o café da manhã, chegava no set, decorava na hora e falava”.
Porque difícil é fazer O Professor Aloprado, O Terror das Mulheres. O humor físico e o timing da comédia são como se fossem reger uma orquestra, comandar o riso. Você está regendo o pensamento da pessoa. Eu quero fazer a pessoa rir aqui e ali. Sem desmerecer atores do gênero, mas, no drama, uma pausa qualquer motivo vira uma pausa dramática. A comédia é tempo. Se deixar escapar, já era.
Além do cinema, uso o YouTube para procurar obras de comédia de vários países do mundo. Já vi produções de Israel, da Alemanha… Há coisas brilhantes na Inglaterra. Acho o Ricky Gervais brilhante, mas sei que nunca vou poder fazer o que ele faz no Brasil. Aquilo é algo que o britânico gosta e uma pequena bolha aqui também, mas faço teatro e cinema para o povão. Lembro, por exemplo, de colocar Monty Python para minha mãe ver e ela não deu uma risada.
A comédia que escolhi não é a comédia do nonsense, mas aquela que é para todo mundo, que está em casa e se reconhece. Até que a Sorte nos Separe é isso: todo mundo tem um parente que sempre fala o que vai fazer quando ganhar na Mega-Sena.
Cine Set: Você falando isso me lembra de uma entrevista recente com o Alain Fresnot (diretor de Desmundo e Ed Mort), e ele fala sobre a comédia ser o gênero que mais se identifica com uma cultura, um país. Afinal, no cinema de gênero, os arquétipos de bom e mal são universais.
Leandro Hassum: Eu lamento muito no Brasil que os comediantes não tenham esse senso de parceria. Se você pegar Os Mercenários, o Arnold Schwarzenegger tinha uma vontade imensa em trabalhar com aqueles ícones do cinema de ação. Jamais ele teria o orçamento cheio para pagar a todos, mas reuniu todo mundo, mesmo assim, por saber que ficaria do c***, renderia bastante dinheiro e receberiam bem posteriormente.
Tentei fazer algo parecido no Brasil e nenhum comediante topou. “Quem vai ser o protagonista?”, “Quanto será o meu cachê?”, “Como vai ser isso e aquilo?” eram as perguntas mais frequentes. Não é uma classe unida. O comediante brasileiro não vai ver os filmes dos colegas, não ligam para dar parabéns, não torcem pelo sucesso. Isso é uma grande cagada. Precisamos nos valorizar.
Eu quero que os filmes da Ingrid (Guimarães) e do Rodrigo Sant’Anna deem mais público que o meu, assim como Ainda Estou Aqui e O Auto da Compadecida 2. Isso leva mais gente para ver filme nacional. Não é para ter rivalidade, mas sim parceria e junção.
Cine Set: Uma Advogada Brilhante trabalha em uma linha tênue do engajamento social, cutucando os absurdos enfrentados por mulheres no mercado de trabalho, mas também não se rende totalmente ao politicamente correto, zoando com os pronomes neutros, por exemplo. Quais as preocupações que vocês tiveram para não ficar engessado nem para um lado nem para o outro?
Leandro Hassum: Através da comédia conseguimos tocar em assuntos muito sérios e delicados. Isso desde o bobo da corte que contava as bobagens do rei para a população de forma mastigada, numa linguagem que o povo entendia. Nesta cena em que brinco com os pronomes, eu pensei que seria cancelado, porém, ao mesmo tempo, achei que era uma boa forma de ilustrar o que muitas pessoas realmente passam ao não saber qual pronome usar.
Claro que eu sei que deve-se usar “todes”, mas ali é o Michelle, um cara que vem do universo cis, levando uma vida de mulher e querendo falar bonitinho, mas acaba falando merda e piorando a situação. Isso acontece pra caramba na vida.
Sou uma pessoa que defende o politicamente correto e que não podemos mais oprimir o oprimido, e sim o opressor, mas as pessoas precisam entender que uma obra artística necessita mostrar o que é verdade. Não posso chegar ali fingindo saber tudo; o meu personagem é um sujeito falho e que confunde. São situações novas que estamos nos adaptando e vamos errar. E a comédia serve para isso: mostrar as coisas de forma mais simples.














