Diretor de fotografia de sucessos como “Elis”, “O Palhaço” e da série “Narcos”, Adrian Teijido foi convidado para dirigir a cinematografia de “O Adeus do Comandante”, novo projeto do cineasta Sérgio Machado, rodado em Itacoatiara, no interior do Amazonas.

Para fechar a temporada local, ele realizou uma Masterclass de Direção de Fotografia no Casarão de Ideias. Foi lá que nos encontramos para bater um papo sobre referências visuais, fotografia e Amazônia.

Cine SET – Como surgiu seu interesse pelo cinema? Algum filme em específico que o fez se apaixonar pela arte?

Adrian Teijido – Eu cresci nesse ambiente porque meu pai era diretor de publicidade e minha mãe era atriz, mas, logo depois foi trabalhar em produção. Quando era adolescente, eu os acompanhava nas filmagens e me interessei por fotografia. Fiz alguns cursos de still e comecei a brincar em laboratório de fotografia. Tinha uns 15 anos.

Meus pais também eram muito cinéfilos e me levavam bastante ao cinema. Quando era criança, minha mãe conta que eu me apaixonei pelos filmes dos Beatles. Chegava a assistir duas vezes seguidas. Eu amava! Depois, na adolescência, lembro que fiquei impressionado com “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Assisti pela primeira vez em São Paulo, no Cine Comodoro, localizado na Avenida São João. Teve um impacto diferente e lembro de pensar “nossa, isso é bem maior do que eu imaginava”. O francês “O Gato de Botas” também foi outro filme a me despertar fascínio desde criança.

Cine SET – O que te motivou a seguir a carreira cinematográfica?

Adrian Teijido – Em um determinado momento, isso não era muito claro para mim. Não sabia se queria ir para o cinema ou para fotografia still. Eu namorei bastante o still, tinha amigos fotógrafos e até fiz estágio na área. Mas, ainda não era muito claro o que eu queria fazer.

Meu pai tinha amigos diretores de fotografia e um deles em especial, o Rodolfo Sanchez, que fez “Pixote”. Certo dia, ele me deu um fotômetro de presente e esse foi um belo empurrão. Eu tenho esse fotômetro até hoje e, sem dúvida, ele é muito importante para mim.

Já tinha uma admiração grande por cinema, só não sabia para onde ir. Depois disso, eu passei a fazer estágio em produtoras de publicidade em São Paulo e foi como tudo começou.

Cine SET – Como é seu processo de criação?

Adrian Teijido – Quando sou convidado para um projeto e tenho acesso ao roteiro, eu o leio e o analiso profundamente, marcando os pontos que são interessantes. Isso ajuda na conversa com o diretor e saber exatamente o que estou falando, o que me interessa. Nem sempre eu me apaixono pelo roteiro 100%; tem alguns que, apesar de eu não me apaixonar imediatamente, há a atração de filmar aquela história, naquele lugar e a determinada situação.

Tento visualizar o projeto de alguma forma quando eu leio o roteiro. Sempre busco muitas referências visuais dentro da arte e do cinema que possam me ajudar a ilustrar o que estou visualizando. Para mim, isso é fundamental no processo de desenvolver o conceito.

Outro ponto importante é conversar com o diretor para saber o que ele tem em mente, quais são suas intenções para eu poder traduzir isso em imagem. Depois, no entanto, tem uma hora que o filme começa a falar por si só. Você vai visitar as locações e ele começa a criar corpo.

Costumo falar que um filme é como um filho: você não consegue controlar tudo que ele vai ser, conseguindo apenas mostrar os caminhos para onde irá.

Cine Set – Quais são suas referências visuais? O que te inspira no momento da composição?

Adrian Teijido – A gente está sempre se alimentando de coisas novas. Eu diria que assistir filmes e tentar entender os diretores, fotógrafos e artistas que se gosta é fundamental, além de ir a exposições e ler livros. Vejo muitos filmes, extraio fotogramas e guardo como referência visual de cor, movimentos de câmera, conceito.

Sempre em lugares onde estou eu tento entender um pouco da localidade.  Então, por exemplo, eu amo o trabalho do fotógrafo paraense Luiz Braga e não consigo conceber fazer um projeto no Norte sem ter visto a fundo as obras dele, um cara que tem tanta intimidade com a região. Sua fotografia me esclarece muita coisa e mostra um caminho do que fazer. Algo mais conectado com a realidade.

Cine SET – Qual sua experiência mais marcante na produção audiovisual?

Adrian Teijido – É difícil falar sobre isso. Eu acho que a direção de fotografia te dá oportunidade de vivenciar coisas muito interessantes. Por exemplo, gravar “O Adeus do Comandante”, na cidade de Itacoatiara, nos deu a possibilidade de conhecer personagens incríveis e situações nos rios, que, para mim, é um privilégio.

Fazer esse trabalho te permite ir a lugares que você nunca imaginou ir. Ano passado, por exemplo, eu fiz um projeto para Netflix sobre a vida do embaixador Sérgio Vieira de Mello. Filmamos Jordânia e, depois, na Tailândia. Jamais imaginei ir para esses lugares na minha vida. Nós saímos de um país muçulmano e fomos para um budista; e é interessante você constatar que eles são pessoas incríveis, independente da religião. Além disso, você fica com uma bagagem de vida que não tem como não aproveitar.

Filmar “Marighella”* também foi bastante impactante. Porque, apesar de não ter tido nenhum lugar novo a se visitar, foi uma história que me tocou muito, um envolvimento profundo. Sinto como se eu tivesse vivido uma experiência muito forte nesse projeto. É como se eu tivesse filmado no passado.

Cine Set – Existem diferenças na produção para TV e cinema? Em qual delas você se sente mais à vontade?

Adrian Teijido – Sou apaixonado por cinema. Mas, quando falamos de televisão hoje em dia, especialmente, as produções dos serviços de streaming, tem se aproximado bastante dos filmes. Antigamente, existia uma distância muito grande entre uma mídia e outra, mas hoje se encurtou.

De modo geral, os projetos para televisão são como um longa-metragem de 5h ou mais e acaba tendo outras características, como ter que filmar em menos tempo. A televisão até hoje tem uma dinâmica diferente: é boa em alguns aspectos, mas traz o desafio de fazer algo com qualidade em um tempo mais restrito. E isso faz com que as coisas não fiquem tão sofisticadas quanto você gostaria.

Cine SET – Como é a experiência de gravar na Amazônia? O que te chama atenção, aqui, visualmente?

Teijido – Aqui, já participei de dois filmes: “Onde andará Dulce Veiga?” e “Órfão do Eldorado”. Infelizmente, às vezes, a gente que vem do Sul e Sudeste do Brasil não tem uma ideia do que significa o Norte. Eu, como diretor de fotografia, falo de referências visuais: o Norte não é o Nordeste e ele é completamente diferente de tudo que se vê no país.

Fico muito impressionado com a cultura local, o ponto de direção das cores. Uma das coisas que me impressiona é o céu: eu sempre quero enquadrá-lo, sempre há uma formação de nuvens exorbitante, fins de tarde espetaculares de uma grandeza fora da realidade, que a gente não está acostumado a filmar. O Amazonas é muito generoso porque você pode fazer uma grande angular, um plano super aberto e tudo que você enquadra faz sentido: a floresta, o rio, a cidade.

E isso, de modo geral, não é muito comum. Você vai no eixo Rio-São Paulo, em grandes metrópoles, você quer fazer um plano desses e acaba enquadrando uma construção ou algo que não gostaria. Por isso digo que foi fundamental conhecer e entender o trabalho do Luiz Braga, afinal, isso está na fotografia dele.

Trata-se também de um lugar de uma cultura muito diferenciada do resto do Brasil. Impressiona-me a cultura fluvial, a alimentação, o porto. Há uma energia muito específica que você não encontra em nenhum outro lugar do Brasil.

Cine SET – Quais são seus projetos em desenvolvimento?

Teijijdo – A gente está finalizando “O Adeus do Comandante”, que é o titulo provisório. É uma produção da TC Filmes associada à Gullane Entretenimento com direção de Sérgio Machado. Eu vou entrar em um projeto da Amazon Prime. É o primeiro projeto Premium da empresa, ainda não sei o nome oficial. Mas, será filmado até o início de 2020.

*A entrevista foi realizada um dia antes do cancelamento do lançamento de Marighella.

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Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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