O Agente Secreto tem conquistado prêmios ao redor do mundo e chamado atenção para a atuação de Wagner Moura e a direção de Kleber Mendonça Filho, carinhosamente chamado de KMF, além de oferecer um outro olhar para a ditadura militar. Aproveitando o hype do lançamento do filme, vencedor de dois prêmios na edição 2025 de Cannes, nos cinemas comerciais brasileiros, reunimos os 06 longas-metragens dirigidos pelo pernambucano para fazer um ranking, pessoal, de suas obras do pior para o melhor. De antemão, destaco que não considero nenhum dos filmes ruins, na verdade, eles — e essa lista — evidenciam não só o amadurecimento de sua direção, mas também a forma como seus filmes se tornaram mais comerciais com o passar do tempo.
6 – Crítico
Antes de se dedicar a carreira como diretor, KMF atuou como crítico de cinema. Formado em Jornalismo pela UFPE, a trajetória profissional na crítica contribuiu para sua visão analítica e influenciou o ofício como diretor, roteirista e produtor. Um destaque dessa fase é o primeiro longa-metragem: “Crítico” (2008).
O documentário ensaístico é uma ótima indicação para quem quer seguir a área, uma vez que ele conversa com profissionais do mundo todo a fim de discutir qual é o ofício do crítico em si, incluindo discussões pertinentes e esclarecedoras sobre a profissão. Neste processo, há um destaque para o contexto brasileiro, por meio do depoimento de críticos dos principais veículos do segmento no início dos anos 2000 e também produtores e diretores brasileiros.
KMF já havia dirigido os curtas “Vinil Verde” e “Recife Frio” antes de “O Crítico”, mas sinto um viés experimental pulsante que não é de todo ruim, mas que cria um distanciamento do público que não tem interesse no assunto. Além disso, a estética visual do documentário lembra muito produções televisivas jornalísticas, tanto pelo enquadramento chapado, quanto pela falta de imagens de apoio que endossem os depoimentos.
5 – O Som ao Redor
O primeiro longa-metragem ficcional do diretor pernambucano nos traz um vislumbre do que ele nos apresentaria em suas obras mais recentes, carregando, entre outros elementos, a discussão política baseada na desigualdade social, a veia memorial recifense e a identidade. Neste primeiro momento, KMF foca no coletivo para tentar dissecar o Brasil daquele período, dessa forma as dinâmicas entre vizinhos e familiares torna-se um reflexo das estruturas de poder que administram questões maiores.
Se o prédio Aquarius se tornaria um personagem central no filme homônimo, aqui a rua que abriga a comunidade retratada é também a protagonista da narrativa, uma vez que todas as história de “O Som ao Redor” passam por ela. Sinto, no entanto, que a escolha de abrigar muitos personagens deixa o filme sem alcançar seu clímax, como se estivéssemos sempre a espera que os sons conduzissem a pontos de inflexão para além do cotidiano.
Ainda que latidos, alarmes, passos e o barulho da máquina de lavar criem uma atmosfera de tensão e conectem os personagens, mesmo em cenas separadas, KMF tenta equilibrar um projeto mais autoral com um pezinho no realismo fantástico — esse muito bem empregado em “O Agente Secreto” —, mas que não consegue criar tantos matches com o público geral.
4 – Retratos Fantasmas
Assim como Martin Scorsese já fez uma carta de amor visual à cidade de Nova York, essa é a declaração de amor de KMF ao Recife e a cinefilia da capital pernambucana. O diretor volta a imergir no documentário ensaístico, dessa vez com maior potencialidade visual e explorando com mais versatilidade a estética cinematográfica e espacial do espaço.
O diretor reflete sobre a memória do cinema, a transformação urbana do Recife e a relação entre o público e as salas de exibição. A narração em primeira pessoa cria uma experiência íntima que também explora a decadência da cidade ao transformar locais de memória cultural em não-lugar como estacionamento ou banco em detrimento do capital.
Há um acerto muito grande, nessa perceptiva intimista, com o uso de imagens de arquivo conectando passado e presente, e dando ao cinema a projeção de ser uma memória viva. As imagens permeiam um mix de nostalgia e de olhar crítico, os quais alternam entre imagens vibrantes de salas de cinema e tons melancólicos de espaços abandonados.
“Retratos Fantasmas”, no entanto, tem como maior proeza ser uma síntese das obras anteriores do diretor. Como se fosse o ponto de encerramento de um ciclo em que gentrificação, memória e resistência se encontram para mostrar como o cinema atravessa a cada uma delas.
3 – Bacurau
“Bacurau” é, sem dúvida, um fenômeno do cinema brasileiro. A distopia consegue reunir elementos de faroeste, ficção científica, thriller e crítica social de forma original e potente politicamente. Acredito que este é o primeiro grande sucesso comercial de KMF, em parte pela trajetória de “Aquarius” e a curiosidade em torno da áurea do filme. Em Manaus, por exemplo, “Bacurau” ficou mais de um mês com sessões esgotadas no Casarão de ideias.
De forma fluida, a narrativa, com co-direção de Juliano Dornelles, prende o espectador que também é amarrado pelas escolhas técnicas da projeção como o jogo de câmeras e enquadramentos, o visual de personagens marcantes como o Lunga de Silverio Pereira, e seu cangaceiro andrógino. Ao mesmo tempo, os comentários políticos circulam por “Bacurau” de forma escrachada, mas também cheios de sutileza.
Temas como exploração do sertão brasileiro, colonialismo e negligência estatal estão presentes alegoricamente em contraponto a resistência comunitária que quer continuar tendo seu lugar no mapa. O que enriquece ainda mais “Bacurau” é a subversão de estereótipos nordestinos, que se sintetiza na imagem de Lunga e do museu da cidade que permanece aberto a qualquer hora. Kleber Mendonça Filho apresenta uma celebração dessa cultura que vive num sertão vibrante, diverso e resiliente.
2 – Aquarius
Há várias cenas de “Aquarius” que inundam a minha memória sempre que seu nome é citado. O segundo longa-metragem ficcional de KMF tem muitos elementos que se destacam, evidencio três principais: Sônia Braga, resistência e identidade.
Resistência e identidade são duas vertentes que atravessam o conjunto da obra de Kleber Mendonça Filho, “Aquarius” tem a proeza de reuni-los e personificá-los em Clara, personagem de Sônia Braga. A visibilidade dada pelo diretor a uma mulher na terceira idade que ouve Maria Bethânia para se sentir intensa, mas também tem uma vida sexual ativa — longe do etarismo e do olhar voyeurista — e luta contra o sistema para manter em pé um prédio que sintetiza a sua jornada. Clara é uma mulher complexa que se distancia e desafio o patriarcalismo e o capitalismo.
Neste sentido, a narrativa parte do entrelaçamento de questões individuais da protagonista para um olhar mais amplo, o qual agrega discussões ainda muito pertinentes e atuais como gentrificação, o mercado imobiliário litorâneo e a desigualdade de classe. Com uma trilha sonora eclética e enérgica, pouco a pouco as questões particulares alcançam perspectivas de frente ampla, coletivas e políticas que se cruzam com a própria trajetória de Clara.
Sem dúvida, para o público que não tinha feito uma liga com o diretor em “O Som ao Redor”, “Aquarius” serviu como pontapé para a compreensão do olhar cinematográfico de Kléber Mendonça Filho.
1 – O Agente Secreto
Esse é o filme de maior destaque de Kleber Mendonça Filho. As premiações que o filme vem acumulando apenas comprovam a grandeza que “O Agente Secreto” possui. O diretor e roteirista consegue trazer uma narrativa que brinca com diversos gêneros, o que conduz a um diálogo mais aberto com o público, o qual embarca nas aventuras de Marcelo, mas também sente a pressão que o outrora professor universitário experimenta.
Marcelo, Sebastiana, Fátima e Fernando são o reflexo do Brasil em todas as suas vertentes. O sorriso da senhora que inventa histórias para acolher perseguidos políticos, a altivez de Fátima — que é uma presença forte durante toda a projeção ainda que tenha voz em apenas uma cena — e, então, Marcelo e Fernando, personagens que se contrapõe: o pai que luta, o filho que não tem mais memórias do período. Embora “O Agente Secreto” pareça um filme pra cima, que te arranca boas risadas, há uma tristeza que atravessa todos os personagens que precisam se conformar com a situação imposta, mas não aceitam, não se sujeitam. Daí a força dessas quatro figuras que caminham com a tristeza e a luta de cada lado do corpo.
KMF nos oferece um filme denso, mas ao mesmo tempo leve, daqueles que conseguem levar a reflexão hodierna, enquanto te deixam viver o período em que a narrativa se constrói. Não há lágrimas, mas há angústia. Não há romance, mas há um acolhimento que mostra a identificação do Brasil enquanto projeto de nação, em suas falhas e virtudes. Só isso seria suficiente para colocar “O Agente Secreto” no topo. No entanto, o diretor consegue ainda imprimir pequenos retratos do Brasil contemporâneo para refletir sobre o loop sócio-político que estacionamos.
Fora o molho Norte-Nordeste que tempera toda a produção e traz regozijo (na falta de palavra melhor) por podermos ver nossas histórias em tela. “O Agente Secreto” é a epítome de uma linha de produção que busca preservar a memória e a identidade de um projeto de povo brasileiro.

















