O premiado ator Sterling K Brown retornou a parceria com o showrrunner de “This is Us”, Dan Fogelman, no thriller político e apocalíptico “Paradise”, disponível no Disney+. A série acompanha o agente do Serviço Secreto, Xavier Collins (K. Brown), que descobre o assassinato do Presidente dos Estados Unidos, Cal Bradford (James Marsden), em uma comunidade exclusiva. Suspeito do crime, Xavier precisa investigar por conta própria, desvendando uma conspiração que revela que os habitantes vivem em uma comunidade subterrânea construída após um evento devastador.

O Cine SET participou de uma coletiva de imprensa bem descontraída que contou com a presença dos atores que interpretam os três personagens-chave na condução da narrativa: Sterling K. Brown, Julianne Nicholson e James Marsden. A conversa destacou como a série bebe da mistura de gêneros, mas também se aprofunda em discutir histórias que tem a humanidade como ponto central.

Pergunta – Como você se sente sobre ‘Paradise’ hoje, agora que sabemos como o mundo se desenvolveu desde janeiro?

Sterling K. Brown – Acredito que todo impulso para contar uma história parte da humanidade. Você observa quem nós somos, cria algo que reflita isso e, depois, olha novamente para a humanidade a partir do que foi contado — e se surpreende. Uma coisa ilumina a outra. Acho que o papel da arte é duplo: por um lado, segurar um espelho para a sociedade; por outro, apontar com delicadeza para onde achamos que ela precisa ir. E é exatamente isso que buscamos fazer com ‘Paradise’. É o que o Fogelman tenta fazer: mostrar quem somos e onde estamos, mas também sugerir que existe um caminho possível — com comunidade, com graça, com amor ao próximo — que nos leva a um lugar melhor. É nesse terreno que a série opera.

Pergunta – Como você construiu sua personagem? O que te inspirou? Notar que essa mulher, o seu personagem, é tão real, agora, é mais assustador.

Julianne Nicholson – Desculpe-me se te assustei demais. Foi muito divertido interpretar uma vilã. Dan fez um trabalho lindo escrevendo uma pessoa profundamente complexa, complicada, quebrada, que estava fazendo tudo o que podia para se manter inteira. Sinto que descobri quem ela era enquanto filmávamos, estava tudo lá naquele segundo episódio, que descreve a história dela, de onde ela começa e sua perda.

Sinto que o som, a música e a edição nesse programa são tão incríveis que sinto que ajudaram essa minha performance em particular mais do que nunca notei antes. A forma como cortam, a forma como colocam aquela música. Senti que fui profundamente, profundamente apoiada por eles, como sempre somos, mas realmente notei dessa vez. Foi divertido ser má.

Pergunta – Ela (Julianne Nicholson) alguma vez assustou vocês dois no set? Ou no momento em que gritam “corta”, ela volta a ser a Julianne?

James Marsden – Trabalhamos juntos lá em 2001 por algumas temporadas de Ally McBeal que tinha um tom bem diferente, para dizer o mínimo. E uma Julianne bem diferente, mas—então sim, eu—talvez—talvez seja até mais assustador vê-la mudar da adorável, doce, maravilhosa, uh, jovial Julianne e depois as câmeras começarem a rodar e aí, as nuvens escuras chegam.

Julianne Nicholson – Todo mundo fica um pouco assustador nessa série. Tive medo de vocês dois em certos momentos.

Sterling K. Brown – Agora faz sentido. É minha obrigação deixar as pessoas saberem que Julianne Nicholson é uma das pessoas mais doces, gentis e calorosas que existem no planeta. Porque elas ficam veem e falam, “Meu Deus. Você tem que matá-la. Por que você não matou ela? Por que você não atirou?”. Eu falo sempre: “Não, porque, na verdade, ela é muito maravilhosa e eu a amo”. Isso é um testemunho de quão incrível atriz ela é. Julianne Nicholson é o máximo do máximo.

CINE SET – ‘Paradise’ mistura política, ficção científica e drama familiar. Além do retorno da sua parceria com Dan Fogelman, como isso funcionou para você? Estendo a pergunta para os outros, também.

Sterling K. Brown – Eu diria que, desde This Is Us, sempre buscamos um certo tom. As pessoas falavam muito sobre como a série era triste, mas eu sempre a via como uma comédia com momentos trágicos — porque a vida é assim. Se tudo é pesado o tempo todo, nada realmente impacta.

E acho que nessa série encontramos um equilíbrio muito bonito. Às vezes, a Julianne faz coisas terríveis, mas com um humor delicioso — aquele momento do ‘Acho que eu sou um monstro’… eu pensava: ‘Não posso te matar e, ao mesmo tempo, eu te amo!’ (risos).

O trabalho do James como presidente também traz isso. O improviso dele dizendo: ‘Eu sou o presidente mais engraçado’ é tão carismático, tão caloroso. É um cara que foi jogado numa posição que não queria, mas tenta fazer o melhor porque sabe que pelo menos tem um bom coração. Ele encontra leveza e sinceridade ao mesmo tempo.

Acho que o Dan nos dá desafios maravilhosos como atores, que atraem pessoas desse calibre para a série. Se você faz só uma coisa, não tem graça. Encontrar camadas, nuances… isso é o sonho de qualquer ator. Não é, gente?

James Marsden – Totalmente. Eu estaria muito mais nervoso de entrar numa série do Dan, do Sterling e da Julianne se tudo fosse mais plano ou unidimensional. Eu adoro que existam momentos de leveza, situações em que o público possa rir com os personagens, e que eles sejam completos — mesmo dentro da ficção científica, do drama e até do absurdo.

O que me atraiu no personagem foi justamente isso: ele é cheio de falhas, tem esse ‘ah, que se dane’ diante de muitas coisas, e só depois percebemos o tamanho das próprias cegueiras dele.

Quando o Dan me abordou nos Emmys há dois anos e disse que eu interpretaria o presidente, meu sangue gelou — pensei: ‘Eu não sou qualificado para isso!’ (risos). Mas aí ele explicou que esse presidente bebe, não quer estar ali, foi empurrado para o cargo, e é totalmente sem filtro. E eu pensei: ‘Ok, isso é bem mais interessante.’

A série nos permite transitar por esse espectro de emoções, e isso, para mim, é a essência da experiência humana

Julianne Nicholson – Acho que isso também reflete a profundidade dos relacionamentos entre os personagens. Eles se conhecem, se entendem, e a forma como improvisam ou reagem uns aos outros é muitas vezes inesperada. Quando acontece, é um prazer.

E é isso que nos mantém na série. Se fosse tudo sempre escuro, seria muito mais difícil se envolver. Como o Sterling disse, a vida é muitas coisas ao mesmo tempo, e o Dan realmente sabe explorar todas essas camadas.

PERGUNTA – Esses papéis exigem um foco tão intenso de vocês. O que vocês mantêm em mente para encontrar o caminho certo não só na hora de gravar, mas em geral no que você faz?

Sterling K. Brown – Essa é uma pergunta interessante. Varia de personagem para personagem, de trabalho para trabalho. Meu ponto de entrada para o Xavier é que ele cuida das pessoas. Como segurança, ele está constantemente avaliando e pesando ameaças, tentando encontrar a melhor opção para manter todo mundo protegido. Sinto que é o núcleo de quem ele é como pessoa, além do fato de que ele é uma pessoa em luto porque foi separado da esposa, a parceira dele na vida. Se eu perder o fio da meada, me lembro dessas coisas e isso meio que me ajuda a voltar para a base.

Julianne Nicholson – Certa vez, eu recebi uma nota engraçada quando eu e James estávamos fazendo Ally McBeal. De brincadeira, 0 maravilhoso ator/diretor Greg Germann escreveu um bilhetinho dizendo: “desta vez, quero que você aja como se estivesse acontecendo de verdade”. Isso é hilário e ele estava sendo engraçado e cruel,  mas também é verdade. Acho que às vezes — pelo menos, para mim — as pessoas entram no “atuar”. Dar uma pausa e usar o material que você tem e sua imaginação, pensar como seria se estivesse acontecendo de verdade. E por mais bobo e simples que pareça, é um ponto de referência pra mim.

PERGUNTA – O que vocês podem adiantar sobre a Temporada 2 quando o público vai ver o mundo fora do Paradise?

Sterling K. Brown – Posso adiantar que nós conhecemos muitas pessoas fora do bunker e temos a chance de ver como as pessoas lidaram com a catástrofe natural que não tiveram tempo, recursos e planejamento para construir um bunker. As pessoas são pegas de surpresa e ainda estão descobrindo maneiras de sobreviver. E como complemento, acho que mostramos que a tragédia tem um jeito de trazer à tona o melhor e o pior da humanidade. Existe um certo tipo de espírito comunitário que você pode encontrar e também encontra essa coisa em que as pessoas precisam acumular e tomar. Xavier vai encontrar ambas as facetas da humanidade na sua jornada pela esposa. Também posso adiantar que há um momento em que esses dois mundos colidem, o bunker e o exterior. E é aí que tudo fica louco.