O mundo se encantou com Renate Reinsve em 2022 quando a personagem dela em A Pior Pessoa do Mundo saia correndo por quilômetros e quilômetros de um mundo parado para encontrar o grande amor e dá-lhe um beijo na boca de arrancar suspiros. Ali, se consolidava a parceria com o diretor Joachim Trier após uma breve participação 11 anos antes em Oslo, 31 de Agosto.
Quem achava que a dobradinha Triet-Reinsve já havia chegado no auge, entretanto, se enganou totalmente: sucesso no Festival de Cannes, Valor Sentimental transformou o patamar de Reinsve no mundo do cinema. Cotada para o Oscar 2026 de Melhor Atriz, a estrela norueguesa vive os altos e baixos de Nora, uma atriz de teatro prestigiada em conflito com o pai (Stellan Skarsgard) pelos traumas do passado.
Caio Pimenta e Pâmela Eurídice conversaram com Renate Reinsve durante a temporada de premiações sobre os desafios de transmitir todas as angústias de Nora. Confira abaixo:
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Esta é a sua terceira colaboração com Joachim Trier. Como você vê essa parceria? Como você percebe sua evolução nesses projetos?
Renate Reinsve – A primeira vez que trabalhamos juntos — ou, na verdade, quando fiz A Pior Pessoa do Mundo — foi quando essa colaboração se tornou realmente mais profunda. Antes disso, em Oslo, 31 de Agosto, foi algo muito breve, eu tinha apenas uma fala.
Mas em A Pior Pessoa do Mundo a relação se aprofundou bastante. Acho que nós dois nos sentimos muito livres na presença um do outro no set, com espaço para ir longe em algo lúdico, mesmo tratando de temas melancólicos, de alguém tentando se encontrar, de alguém em tristeza. Ainda assim, havia muita leveza e brincadeira, algo que nós dois compartilhamos.
Neste novo filme isso foi ainda mais intenso — há mais carga emocional, é tudo mais condensado, mais pesado de certa forma. Mesmo assim, continuamos encontrando humor, encontrando jogo, e curtindo muito explorar juntos o que aquela história podia ser.
Sinto que a nossa relação evoluiu muito, porque entrar nessa produção foi bem diferente, e passar por esse processo foi mais difícil do que em A Pior Pessoa do Mundo. Mas, ao sair do outro lado, sentimos que aprendemos muito mais um sobre o outro, sobre os personagens e sobre a própria história. Por isso, eu nunca recusaria trabalhar com o Joachim e explorar personagens com ele. Sinto que ele é simplesmente a melhor pessoa com quem se pode trabalhar.
Cine Set (Caio Pimenta) – Em Valor Sentimental, há um impasse: Nora não quer ler o roteiro do pai, e o pai não quer assistir às peças dela. Na sua opinião, qual era o maior medo de cada um deles caso um cedesse?
Renate Reinsve – Boa pergunta. Para Nora, existe um medo muito forte ali. De certa forma, esse é o único momento em que ela sente que tem algum poder. Nora sabe que talvez não seja uma boa ideia, mas, ao mesmo tempo — e de forma inconsciente — isso é algo que ela buscou a vida inteira: a aprovação do pai. Talvez seja até por isso que ela virou atriz.
Ela carrega muita coisa dentro dela, muita raiva também, porque ele nunca esteve realmente presente. Então existe esse desejo de proximidade. E quando ele finalmente pede que ela faça algo junto com ele, tudo isso vem à tona. Parece que, se ela dissesse “sim”, tudo o que ela guardou a vida inteira iria transbordar. Ao aceitar, ela estaria entregando todo o poder da relação para ele — e é por isso que ela diz “não”.
Já no caso do Gustav, essa é só a minha leitura, mas eu acho que ele está em busca de respostas que vêm da própria infância. Ele enxerga muito da mãe na filha, e acredita que, ao fazer esse filme com a Nora, talvez consiga essas respostas, talvez consiga ser finalmente visto pela filha. E é isso que ele perde.
Quando eles acabam, de fato, fazendo o filme juntos, o que mais surpreende é aquilo que um passa a enxergar no outro. A relação continua cheia de feridas, mas ela se suaviza quando eles finalmente conseguem se ver sob uma outra luz,
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Em relação à preparação da personagem, gostaria que você falasse como os ensaios ajudaram você a conhecer e construir Nora?
Renate Reinsve – Os ensaios com o Joachim são muito importantes, porque ele filma esses ensaios e, a partir disso, reescreve o roteiro ou as cenas de acordo com o ator e com o que os atores descobrem na dinâmica entre eles. A gente vai explorando o que aquela cena é e para onde pode ir, e então ele reescreve aquilo que acha melhor para a história ou para tornar o personagem ainda mais pessoal.
Não é necessariamente algo que o ator tenha vivido, mas algo que fica mais próximo dele, que ressoa mais. Por exemplo, a forma como ele tinha escrito a Nora — o amor dela pela atuação — precisou mudar um pouco, porque a minha relação com a atuação é diferente. Para que isso fizesse sentido e eu pudesse falar sobre isso de forma mais livre, foi fundamental incorporar ao roteiro aquilo que encontramos durante os ensaios.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Ainda sobre os ensaios, gostaria de saber é se havia alguma relação com o espaço por onde Nora se move. Como você vê a relação de Nora com a casa onde a narrativa se desenrola?
Renate Reinsve – Quando o Joachim me contou a ideia, eu fiquei muito emocionada com a forma como ele queria enquadrar a casa dentro da história e contar essa história a partir dela. A maneira como o tempo passa, como pequenas coisas que aconteceram ali ficam guardadas, como se as paredes se lembrassem. E isso acaba afetando toda a família, mesmo que eles não tenham plena consciência disso, porque os traumas atravessam gerações sem que as pessoas necessariamente saibam de onde vêm.
Eu achei essa estrutura muito tocante. E foi também naquela casa que a gente trabalhou, descansou e fez os ensaios — era a casa real das filmagens. Então ela se tornou um espaço muito importante para toda a produção. A Nora, por outro lado, é distante dali, porque precisa se afastar de tudo o que aquele lugar representa nas relações dela. Não da irmã — com a irmã ela consegue manter uma proximidade —, mas de todo o resto. Ela mantém tudo à distância porque não confia em mais nada, carregando muita raiva do pai e de todas as experiências que viveu naquele lugar.
Então, para a Nora, a relação com a casa é quase o oposto do que eu, como atriz, precisava para trabalhar. Eu me aproximei muito da casa, enquanto a Agnes é extremamente ligada a ela. Mas, no fundo, é ali que tudo começa.
Cine Set – Valor Sentimental levanta a ideia do cinema como uma janela através da qual podemos observar os outros. Nesse sentido, como os desafios enfrentados por Nora e Rachel Kemp no filme fizeram você refletir sobre a própria atuação?
Renate Reinsve – Isso tem muito a ver com a forma como o Joachim escreveu o amor da Nora pela atuação no roteiro. Era algo que estava ali, mas que não ressoava completamente em mim. Então o que acabou surgindo foi uma mistura entre aquilo que o Joachim escreveu para a Nora, a personagem, e aquilo que eu, de fato, amo na atuação.
A diferença é que a Nora entra na atuação como uma forma de fugir de si mesma. Já eu entro na atuação para tentar entender algo sobre mim ou sobre o outro. E essa fusão entre essas duas visões acabou moldando a personagem.
E tem também a Rachel. Eu acho que ela é uma atriz que nunca se sentiu totalmente vista, que foi usada em papéis que não exploravam tudo o que ela podia oferecer. Ela sempre sentiu que tinha muito mais dentro dela, mas que precisava ser descoberta. E quando isso finalmente acontece, surge um tipo de dissonância entre quem a personagem é e quem ela realmente é — e é por isso que ela acaba abrindo mão do papel.
Não sei se a gente aprendeu algo completamente novo sobre atuação, mas com certeza foi um grande quebra-cabeça colocar essas duas personagens frente a frente e, ao mesmo tempo, tornar tudo pessoal. Isso é muito importante no processo do Joachim: o que quer que o personagem carregue precisa, de alguma forma, se conectar com quem está interpretando.
Às vezes você parte de algo que é diferente de você e torna aquilo pessoal. Mas, nesse caso específico, envolvendo a atuação, eu precisei colocar muito de mim ali, porque eu não conseguia entender totalmente a Nora a partir de fora. E o Joachim faz isso o tempo todo — ele adapta o roteiro e os personagens às pessoas que vão interpretá-los. Acho que é por isso que, no fim, surge essa sensação de proximidade e autenticidade.














