Lançando o longa-metragem Asa Branca – A Voz da Arena em circuito nacional, o diretor Guga Sander concedeu uma entrevista ao Cine Set, na qual fala sobre o projeto, suas abordagens artísticas e curiosidades de bastidores.
Cine Set – Temos tantas cinebiografias sendo lançadas todos os anos, sobre músicos, atletas e outras personalidades. O que a cinebiografia de Asa Branca tem de diferencial? O que a torna única em relação às demais?
Guga Sander – Acho que tudo. Ela é completamente diferente porque toda cinebiografia é, antes de tudo, uma história. Cada uma tem o seu universo, a sua narrativa, a sua personalidade, de acordo com quem está sendo retratado e com a trajetória daquela pessoa.
Apesar de todas serem chamadas de cinebiografias, cada uma é única. A cinebiografia de um jogador é completamente diferente da de um locutor de rodeios, que por sua vez é diferente da de um cantor, e assim por diante. O que é igual é apenas a nomenclatura.
Cine Set – Houve alguma influência estética do gênero western, especialmente pelo fato da fotografia transmitir uma sensação de calor?
Guga Sander – Não, não houve influência direta. Na verdade, essa fotografia foi encontrada muito depois das filmagens. Claro que eu tinha referências que apresentei ao Carlos Zalazick, diretor de fotografia, que é meu amigo e parceiro há muitos anos.
A gente já queria um filme com uma saturação mais forte e um contraste mais acentuado, pesando um pouco a mão mesmo. O filme tem momentos distintos: há trechos menos saturados e outros bastante saturados, e isso foi totalmente proposital.
Mas não partimos de nenhuma referência de western. Foi uma pesquisa estética própria, uma escolha nossa em relação ao universo e ao ambiente do filme, sem buscar inspiração direta em outros longas do gênero.
Cine Set – Como surgiu a ideia de fazer a cinebiografia do Asa Branca? Você tem alguma memória afetiva com ele?
Guga Sander – Eu não conhecia o Asa Branca antes de entrar em contato com a história dele para o filme. Sou apaixonado por boas histórias, e quando me deparei com a trajetória do Asa Branca, me encantei imediatamente. Comecei a pesquisar e fui me envolvendo cada vez mais.
Lembro que eu estava andando na rua quando vi uma capa de revista em uma banca de jornal. A manchete e a foto me chamaram muita atenção. Pensei: “Quem é esse cara?”. Eu sou nascido em São Paulo, não tinha tanto contato com esse universo. Comecei a ler e pensei: “Que história interessante, quero fazer um filme sobre isso”.
Busquei fazer um filme universal, e não algo muito segmentado apenas ao universo sertanejo. Claro que quem conhece o Asa Branca, quem vive no Centro-Oeste brasileiro ou consome o universo do rodeio vai se identificar ainda mais. Mas mesmo quem não faz parte desse meio vai se emocionar.
Você não precisa gostar de rodeio para gostar do filme. O rodeio é o pano de fundo; o coração do filme é a história. Fui encontrando parceiros que acreditaram nesse potencial, e conseguimos realizar o filme com muita vontade, brilho e dedicação. Curiosamente, eu só fui a um rodeio pela primeira vez durante as filmagens. Nunca tinha pisado em um antes. O que realmente me encantou foi a força da história.
Cine Set – Como foi o processo de escalação do Asa Branca? Houve testes? Como o Felipe Simas entrou no projeto?
Guga Sander – Tínhamos alguns nomes em mente, não apenas o Felipe. Eram cerca de três atores cogitados. Quando tivemos o “green light” para fazer o filme, o Felipe estava disponível naquela data, o que já nos animou.
Ele fez teste, sim. Fez leitura de texto. E o Felipe tem algo muito especial: além de ser um ator extremamente talentoso, ele tem uma consciência corporal impressionante.
Ele vem de uma família de capoeiristas — ele, o pai e o irmão — e isso faz toda a diferença. Ele tem equilíbrio, controle do corpo e condicionamento físico, algo fundamental para o personagem.
O Asa Branca exige muito fisicamente: correr na areia, usar botas pesadas, lidar com o universo do rodeio. Além disso, o papel exige voz, afinação e domínio de movimentos. O Felipe preenchia todas essas lacunas.
Cine Set – Como foi a escolha dos outros nomes do elenco?
Guga Sander – Fui muito, muito sortudo com esse elenco. Lara, Fábio Lago, Ravel, Felipe, Camila… Todos fizeram muita diferença. Esse filme não seria o mesmo sem eles.
Primeiro, pelo talento e entrega de cada um. Segundo, pela sinergia absurda que se criou durante as filmagens. Isso foi algo que chamou a atenção de toda a equipe.
O Fábio Lago era um sonho antigo. A Lara é uma atriz talentosíssima; vejo nela hoje algo parecido com o impacto que a Leandra Leal teve há cerca de 20 anos. O Ravel é um amigo querido e um ator impressionante, além de um excelente músico e compositor.
Inclusive, nos intervalos, ele ficava tocando violão. Um dia eu disse: “Ravel, você é muito bom nisso, tenta fazer uma música para o Asa”. Dois dias depois, ele apareceu com uma canção linda, feita no hotel.
Todo mundo começou a colaborar na letra — Felipe, Lara, Camila, Fábio — e eu usei a música no filme. Depois levei para o André, produtor musical, que ajustou os arranjos mantendo a essência. A música virou o tema do Asa e da Sandra no filme. Às vezes, um insight muda tudo.
Cine Set – A família do Asa Branca prestou algum tipo de consultoria para o filme?
Guga Sander – A história dele é muito extensa. Não daria para contar tudo em um único filme. Então escolhemos uma fatia da trajetória.
O filme é inspirado em fatos. Não é um retrato fiel de cada acontecimento, mas uma construção dramática baseada na história dele.
Chegamos a conhecer o Asa Branca pouco antes de ele falecer. Ele já estava doente, mas era um baú de histórias. A Sandra, esposa dele, também foi muito solícita, ajudando com informações, fotos e relatos.
Ao mesmo tempo, buscamos outras fontes para cruzar informações. Isso é fundamental para construir um filme com responsabilidade narrativa.













